eram 5 horas, levantou-se, cedo, doíam-lhe os olhos, não conseguia mais dormir. a mão palpitava junto ao sexo latejante, erguia-se quente, em movimentos largos, por entre os dedos. era dia julgava, talvez ainda fosse de noite, o dia e a noite eram iguais desde há... tempo, um intervalo de tempo sem definição, talvez todo o sempre, ou uma curta eternidade de dias.
letárgicos, os pés tocaram o chão, estava frio. a dor nos olhos fazia-o retorcer o rosto em busca de alívio - como se uma careta resolvesse o problema. nesta casa não se desperdiçava o vinho. e era de dia, ainda, um raio de luz, tímido, espreitava pelas entrelinhas dos estores semi-cerrados, pautados em fá bemol (ou era mi sustenido?) nas janelas. dia. quem diria.
tentava raciocinar, meter as ideias num saco e retirá-las uma a uma, ver se achava uma ordem, um sentido, forma/maneira/lógica de dar significado àquele espaço lúgubre e despido, que se mostrava submisso à sua dor. estava escondido. mas de quem? e porquê? que o teria trazido para aquele lugar, gélido - estava frio - para que fim? que propósito?
as hesitações formaram-se, juntaram-se em tentativas de se manter de pé. muito esforço, os joelhos que vacilavam uma débil sombra, fusca, por detrás dele. parecia dançar, dança dos mortos.
mão esquerda no joelho esquerdo, frágil, a segurar o mundo - vá tu consegues - mão direita esticada, erguida além dos ombros, leme que guia os ombros pela solidão, frio, muito frio, nem um som, um carro que não passa, nem a criança que chora, mas frio. atravessou a sala. de rir, um velho, pálido, magro, alcança a ombreira da porta - ela foge - e detém-se.
a sala parecia agora mais escura, ainda mais escura, grande, enorme, um túmulo. teria sido enterrado vivo? inquiria ele. os joelhos já se compunham, dormentes, mas sólidos o suficiente para se manter de pé. as pregas das carnes penduravam-se, velhice velhice, toda uma vida, curta sempre, para isto. abandonado numa sombra qualquer.
a sala - estava eu a dizer - era larga, as paredes simples, brancas - pareciam, ao longe duas portas altas, com os estores corridos, apenas uma fresta deixava escapar uma nesga de luz, sem cortinados. um tapete largo, vermelho ou talvez bordeaux corria pelo centro da sala, o sofá onde tinha dormido, derrotado/encostado a um canto, era velho, talvez tivesse a sua idade, 100 anos ou mais, ou menos, que interessa.
atrás de si erguia-se um corredor, estreito parecia, muito fundo, conseguia vislumbrar 3 portas, talvez 4 ou mais. fez caminho para a primeira porta, traçar rota, largar amarras, e um pé de cada vez naquela tijoleira fria, enrugados, unhas compridas e gastas, amarelas, enrolavam-se pelos dedos, já tinham perdido toda a definição da juventude de outrora - teria havido uma juventude? - metamorfoseando-se em bolas de carne, amálgama de gente, passadas vagas, sem pressa de quererem seguir caminho, deixava-se ir.
primeira porta, abre-se, luz muita luz, fica encadeado por momentos, sangue, cheiro a tripas, lavadas de manhã no rio pelas mulheres, a seguir à matança do porco, uma banheira, um braço que acena de fora e uma farta cabeleira, pareceu-lhe morena, encostada à branca cerâmica. o cheiro forte, nauseas, um murro no estômago e três passadas fortes e confiantes, boca encostada na borda da retrete. da boca saiem-lhe ais e uis, e muito vinho. muito.
limpa a boca ao plástico, escorrega e senta-se, frio, muito frio. tudo faz sentido agora. é de dia, há que aproveitar o dia e enterrar o cadáver. mais uma noite se aproxima.
os cadáveres daquela casa.
J
um sítio bonito onde viver
cortes e recortes
irei surpreender-te um dia, lento,
num amanhecer trivial,
mostrar-te novos mundos além do muro que te cerca,
enquanto que se recuperam os velhos tempos.
mostra-te, espalha o pó que te eleva pelas cinzas do passado, nada irá mudar, apenas tu és capaz, alcança as estrelas, aquelas que luzem no fundo do poço, lá fundo, sem respirar, e o tédio que se afoga lentamente.
é da maneira que desces, e não durmas, nunca.
------------------------------ x ------------------------------------------
sei que me apoiaste, que não lá estive para ti, não me importo. era a força que te empurrava para mim que me interessava, nada mais. desejo-te num filme pornográfico, numa foda em privado com o asfalto, em queda abrupta de braços abertos, desejo-te novamente, regressa.
--------------------------------- x--------------------------------------------
escrevo porque me interesso em carne viva pelas tuas reacções
- ficas tão bonita assim, frustrada.
quero que te fodas, especialmente se for comigo
- especialmente se for comigo, a sério.
dorme bem, agarrada a mim, memória vaga da névoa onde vislumbraste o teu d. sebastião, salvador patriota, merda da pátria. foste enganada. subida em cometas, descidas ao inferno.
como eu lamento, só deus sabe - não esse deus, o outro - como eu o lamento.
--------------------------------- x- -----------------------------------------------
ergue-te e caminha, disse... alguém, não me lembro quem, que interessa, tinha razão - eu e não ele. baah. isto não é uma manifestação, não há nada para ver aqui, move along, move along.
J
demasiado cansado
é como te vi pela última vez,
tão cheia de vida
como se nunca tivesses caído, tropeçado,
rasgaste uma veia, e mudaste,
puxei o teu ouvido para perto dos meus lábios,
e menti-te,
deitados, encostados, sujos do nosso suór,
os sexos calmos, num ritmo rápido, suave,
dançam e bailam,
nas brasas da fogueira que nos consome,
prazer frágil, dfe tanto medo,
de te sentires,
tão cheia de vida.
- e gostas disto?
- sim.
não há hesitações possíveis,
segue-se a vontade dos corpos,
agora que és heroína e eu herói,
tentamos deter as mentiras,
de regresso a nós,
em ti e dentro,
clímax, os braços que se desarmam,
aquilo que fazes,
respondes,
detens as mentiras em ti,
nada mais interessa,
agora que és verdade,
mentira.
respiração pesada e sais do quarto,
despes a roupa que vestias,
limpas os cortes, o cheiro a liberdade,
sais.
pintas as ruas reflectidas nos teus olhos,
brilhantes, pintadas em luz,
e rezas,
- quero saír da multidão, saír da almágama de carne que me sufoca, deixar de brincar ao faz de conta e enfrentar o mundo nua, sem mentiras em mim.
e é o mesmo dia, depois de novo dia,
levas-me em braços e flores,
é tão doce, bonito em ti,
um carinho maravilhoso.
e nem sabes o meu nome.
largas amarras, soltas o lastro, voas, direcção nenhuma, apenas até ali, devolver àquela rua todos os sonhos que tu ou eu e todos nós lá deixámos, apaixonados, ébrios pela saudade de sermos fáceis, sem orgulhos, simples, criaturas nascidas para amar.
era domingo lembro-te, não saía ninguém à rua naquele dia, estavam todos trancados, em igrejas, isto de dia, à noite era em sacristias.
- não importa, as mãos guiam-me pelas paredes, costas imponentes da rua, dos ecos deixados pelo êxtase do quotidiano a que tu não dás valor, e o amor é o mesmo, de dor menor é certo, mas a cantiga é a mesma, os corações partem-se à mesma, jorram sangue, igual ao meu e ao teu, ao nosso. quem és tu para...
- o sujo e tão belo futuro.
- esquece o futuro, eu não lá estarei, só mais tarde, quando for mais tarde.
J
há dias assim
há dias em que me apetece levantar da cama, abrir a janela e sentir o sol a bater-me nas ventas, como quem diz, acorda p'rá vida, ergue-te, vive a vida, e sê feliz.
são raros os dias.
conto os minutos,
preciosos momentos em que irei cair nos teus braços.
loucura desgarrada, desmedida e embriagada,
em diamantes mil de luzes reflectidas
vejo os teus olhos,
longe, longínquos,
um até já, fiel destino,
igual em tudo e para todos.
há que percorrer todo um caminho que não importa
- não se interessa.
de um recomeçar, como eu gostaria,
aos ouvidos, gritar-te,
que cortam o corpo, os segredos,
que ficaram por escrever, em cartas.
uso as mãos para te trazer de volta, trazer-te de volta para perto de mim.
J
elegia a J
Mozart - Requiem
desceste à terra na sepultura que tanto desejaste, numa treva cega, guerra escolhida sem qualquer inimigo do outro lado da persiana.
não conseguiste nunca desviar o olhar do resto do tabuleiro, à espera, desesperado por melhor sorte, na próxima, derradeira (sempre!) jogada.
não há descontos para ti, sofres de igual maneira, peso e medida, e continuaste sempre impávido a tudo, agarrado ao leme dessa pobre embarcação, de convés pintado a rubro sangue, esperma e muito vinho, em vãs e ruidosas esperanças, as mudanças de maré que nunca chegaram.
terias-te estrangulado com as mãos apenas para te dar razão, evitar o afogamento solitário, momento de prazer, o êxtase brutal e impiedoso.
não havia razão para a disputa. e hoje morres bem morto, de morte morrida, sem nenhuma bala que termine o teu sofrimento.
morro para ti, todas as mortes do mundo, no piscar de olhos da eterna amante que te leva, invejosa, tua mortalha, debaixo de terra. a dança que sempre te excitou, o clímax do seu abraço, frio, indolor, sem segundas intenções, fiel e inquebrável amor, gesto puro de morrer.
que descanses de todos os teus cansaços, rodeado de todas as chagas que semeaste em todos nós.
morre, mas morre bem.
J
