sempre que mentes

terça-feira, 24 de julho de 2007 às 13:50

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mordes os lábios sempre que mentes, sorris e nada deixado ao acaso,
um plano fenomenal, orquestrado com detalhe,
uma canção de amor segredada junto do ouvido,
a mão que agarra o momento, o êxtase, elaborado com cuidado.

demora, agarra a vida que não é tua,
choras, a saudade com que me deixas para trás.

temos sempre que voltar
- eu vivo sozinho
e tenho a certeza de que irás esquecer a maneira de como sentias o adeus,
o ter sempre que regressar, nos teus olhos.

numa outra altura, uma outra altura, e os teus braços, os meus, o rodopio, dança baila mexe puxa, turbilhão de serpentinas, o teu riso espelhado nas paredes, os lençóis rasgados, e será que te lembras como é sentires-te tão só, ter sempre que regressar, nos teus olhos.

termina tudo sempre como um sonho,
o par de asas que bate,
que te leva para longe,
que te leva para longe,
uma última vez e acaba,
uma última vez antes do fim,
uma última vez antes que este momento acabe,
- e diz-me, se ainda sentes o último adeus.

hei-de me lembrar sempre dos teus lábios secos, dos olhos cinza que deixaste.


J

um belo pedaço de carvão

segunda-feira, 23 de julho de 2007 às 12:15

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como um murro nos dentes, uma centelha de maré que desemboca na tua praia, um rasgão na rotina do vai vém, abriste os braços, sopraste um longo suspiro, da raiva que te cega quente, e tentaste desfazer o nó que te ata à solidão. abriste os braços porque te encontravas só, novamente, abandonada por ti, para ti, num turbilhão que já esqueceste como começou.

vais apanhar barco, estender o corpo, abrir os dedos, largar amarras, puxar o fio que prende que puxa, e ver o céu, mergulhar fundo na ferida que deixas aberta, exposta aos elementos, à violência da solidão de quem te deixou só.

as veias negras de quem abriu os olhos para dentro.

não consegues fazê-lo parar, parar, abre os olhos queres que abra os olhos, não irás conseguir chegar a tempo, o futuro são os anos que te faltam até morreres e não consegues, não irás conseguir chegar a tempo, a tempo de abraçar quem já morreu.

de quem tem os olhos virados para dentro.


J

cada vez mais cedo

quinta-feira, 19 de julho de 2007 às 14:06

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acordo cada vez mais cedo com a sensação de que perdi algo, não sei quando, não sei bem o porquê, sei que perco cada vez que acordo cedo, sempre que parto na direcção de nenhum qualquer algum destino, próximo da distância das mãos que não se cumprimentam.

e apercebo-me de que as falhas da esfera, maciça, da agulha encravada na garganta, e sei que o dia está cada vez mais cedo.

cheguei tarde mas espero saír cedo. veremos.

há quem pense que resolve tudo com palavras, com um abraço, um pedido desculpas formal, uma ideia errada diga-se. nada se resolve. nada. não há desculpa que apague o silêncio, não há abraço que perdoe as noites passadas em branco. não. a única maneira de apagar a mágoa deixada é quando se elimina a causa e, como disse, espero saír cedo.

não há hipótese de as coisas voltarem a ser como dantes. tingir o céu de cor-de-rosa dá muito trabalho e eu sou um tipo preguiçoso.

gosto da lenta maneira de como vezes sem conta vou criando material contrafeito que crio naquele quarto escuro onde tenho as fotos, aquelas fotos. e quantas vezes mais terei de me vender, para conseguir saír mais cedo?


J

tédio frágil

segunda-feira, 16 de julho de 2007 às 13:57

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abjecto,

aborrecido no fundo, no poço a jogar às escondidas com a minha sombra,
e vingo-me por ti, nos dias que cravo na parede,
deixo que brilhe o tédio,
fico aborrecido, no fundo.

objecto,

protejo o cimento da minha queda com palavras doces, cálidas,
fico aborrecido quando alguém apanha os pedaços de miolo que fritam no asfalto.

transpiro,

fica tudo sem efeito, sentimentos contrafeitos,
é, agora, dizes - deixa-me ir,
porque a rua é larga e eles não querem que a uses - ficam aborrecidos.

o aborrecido de tudo isto é a letargia geral com que brindo o mundo, a cada abraço que dou, por cada bofetada que, sim, tomem como vossa.

frágil,

e carrego no nervo que alimenta o amor,
nas palavras com sons semelhantes, semblantes, cortantes,
cuspidas numa traqueia sanguionolenta,
e lá poderíamos ser tão frios como a vida, aborrecida.

sempre que abres os olhos, o tédio de reconhecer o dia, o mesmo, todos os dias.


J

coragem

sábado, 14 de julho de 2007 às 09:18

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se a coragem fosse como te pedir desculpas, como voltar para os teus braços abertos, como a bofetada que te devo, e tudo o mais.


sei que hoje, ontem, sei que me sinto, sei que estou, sei que não compreendes como, como estou sózinho. como me sinto, enquanto me sentes, enquanto saudade, quando estou sempre, e nunca serei nunca a memória que me reserva um destino, viagem sem volta, de volta do teu êxtase.

e serei sempre a mentira, o abraço, a tua noite de quatro seis oito horas e basta, de quem te quer mais que tudo neste mundo,
na volta das cartas remetidas de onde foram enviadas,
devolvido: GOSTO TANTO DE TI

e não sabes e nunca soubeste a saudade que tenho dos teu lábios, carne,

e nunca saberás, excepto claro, se leres isto. e nunca o irás fazer. nunca. nunca. nunca.

gostava de te arrancar os olhos, colocá-los nos meus braços, obrigar-te a ver o mundo através das minhas mãos, sofrer-te com eu te sofro, segurar-te nos seios como nunca imaginaste possível segurar no mundo, e ver-te chorar, ranho lágrimas pus, pedir desculpas por nada que tenhas feito e por tudo o que deixaste por fazer. e sei que mesmo assim, mesmo com o teu sangue a brotar pelas paredes, mesmo com as tuas veias arrancadas dos pulsos, o sangue o cheiro da lexivia sangue, o gosto da noite passada na tua boca, a puta da boca que sou, que te deixei provar foda-se. e nunca mesmo assim, alguma vez irás sequer compreender merda da vida que deixei escorregar por entre os dedos da minha cabeça.

nunca irás perceber que quanto mais te rejeito mais preciso de ti, que o abraço que te dei é mentira, é falso, é quanto tu queres que seja e nada mais que. sou quem me tomas, aqueles segundos e nada mais. arranco cada palavra da minha pele e mesmo assim não consegues perceber QUE GOSTO TANTO DE TI.

o último monólogo que tive contigo foi deveras interessante. eu ganhei, mas ganho sempre, o tédio.

e tudo isto, todo o vão, o tempo gasto, as lágrimas secas, as puta das mensagens que sabes bem que nunca hei-de responder porque GOSTO TANTO DE TI e sei que és uma puta que irá voltar sempre para mim, porque GOSTO TANTO DE TI e porque GOSTAS TANTO DE MIM e porque caralho, não percebes, que NUNCA IREMOS ESTAR BEM.

é a vergonha de estarmos juntos que me abraça todas as noites.

e eu não consigo gostar de mim.

ah é triste. triste que estejas. triste que eu esteja, não vou ser mentiroso pois GOSTO TANTO DE TI, mas sei que não há réplicas, anedotas do teu nome, dos momentos, suspiros, dos gemidos nos ouvidos, no aperta que esfrega na redoma do teu umbigo, a tua sexo que transpira eu e eu e eu e somos, beijamos, arranhas, cravas as unhas, e mordo, repuxo, puxo, arranco, empurro-te e sei que ali, aqui, quando for, sempre, sou teu e nada, tu nunca dirás nada, nunca irei agarrar-te quando caíres em ti, que nada é tudo o que somos e todo o carinho que tenho por TI irá alguma vez concretizar-se quando no fundo já tenho o destino marcado, estou em vias de extinção, de mim e de todos, nós, que ainda temos a paciência de aturar, um velho, um merdas, um eu.

e tudo o que eu queria era gostar de ti.


gostava de pedir ajuda mas não sei a quem pedir.



J