umgajoperdido

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008 às 00:23

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levantou-se cedo. um dois um dois um dois, e eram umas seis, seis e meia da manhã. apalpou os lençóis, punhos secos, gretados, cérebro ainda meio desconjuntado.

estava doente, tossia, catarro, cheiro a bílis, vómito, era um asco. revistas e livros faziam de tapete, espalhados, ordenados um a um num caos pleno pelo chão do quarto. tentou acender a luz, em movimentos atabalhoados, à procura do interruptor, da claridade. larvas de ideias, tomavam os casulos e agitavam as asas multicoloridas, esvoaçando pela cabeça fora, ideias que iam e não voltavam.

- ouvi dizer que está frio lá fora.
- quem te contou?

a voz, surpresa, eco, actor factor translúcido da sua demência, anunciava a multidão que se agitava lentamente junto à cabeceira. o suor quente escorria pelas virilhas, irritava as pequenas borbulhas que se alastravam pelo corpo - de líquido amarelo as que ainda estavam por rebentar, um rio de pus as outras, de pele queimada e rubra, com cortes ensanguentados.

- vou voltar a dormir.
- eu não vou a lado nenhum.


huhuh.


J

um gajo muito à frente

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008 às 07:50

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um gajo muito à frente, anda sempre descalço, côxo, com um dedo enfiado no nariz, a sacar macacos (deliciosos por sinal), com ar sabático.

muito à frente

ah, muito à frente.


J

burlesco

domingo, 24 de fevereiro de 2008 às 03:18

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todos fingimos, despojados de esperança,
longe das comparações, de coroas criadas no momento de desprezo,
longe da luta, peluche querido,
ainda nos agarramos à lua cheia,
analgésico de toda a dor, que purga pesadelos,
e arranco o coração, veias e sangue que espirra descontrolado, que escorre pelas paredes, lexívia e o cheiro que não sangra, despedaçado em tempos que ainda me acordam todas as noites, em sôfregos nadas, passageiros de viagens esquecidas.

não consigo deixar de pensar que podíamos ter sido uma sombra, uma nuvem projectada na terra dos sonhos, cor-de-rosa, embelezados a folha d'ouro, criados para nosso contento, esmagados no nosso degredo.

é segredo.

fiel, há mais de 20 eternidades. 20 facas guardadas no bolso, para esfaquear cada um dos teus 20 olhos. estranho vento que nos bafeja, queda lesta de mergulho propagandeado. não consigo encontrar a rosa da manhã, as vestes de lobo que tantas vezes vestiste. fantasias de écrans prateados: tenta o teu tiro, gatilho, cão, morde, bala que sopra a justiça do vento.

sou o que sobra de mim, mergulhado na sombra de outro que foi, em nós.

desço até ao último andar, porta escura, entra, resgato o tesouro, não há como evitá-lo, como evitares andar pela corda do trapézio, sem segredos, não há raiva nas palavras apenas um resgate do sorriso que abandonei no elevador que me trouxe até aqui. nada me ama, uma brisa sopra-me. que espera de mim este mundo. nada. um breve desejo, inspiração divina de crise social, humana, em quem confiar e tudo isso. guarda-se tudo na gaveta, não vá o diabo surgir de uma nuvem disfarçado com o teu nome e tudo isso. sinto saudades de quando eramos dois.

e gostaria de saber como chegaste até esta memória, embrulhada em luzes de espectáculo esquecido, burlesco, e as tuas mamas que tapam a sombra da compreensão humana de tudo o que esqueci. não é impossível que tenhas esquecido os obsctáculos destruídos pelo desejo criado a pulso neste lado da fronteira, da felicidade, da indiferença lamentada nos cometas que passam.

lembras-te da noite que esquecemos, acordámos em esquecer?, era um dia infernal, escorríamos um para outro, novelos nas mãos, desenrolados na curiosidade dos nossos sexos, nascidos do ventre teu, faísca que brotava dos nossos olhos. ninguém conseguia perceber porque é que pertencíamos um ao outro. gostava tanto de te foder. e sei que não há nada mais sagrado que isso.

arrancar-te-ia os ossos das mãos se isso te fizesse ver.

não te quero segurar, prender o espírito. não há volta a dar-lhe. não me sinto culpado por ouvir as sombras que me segredam que chegou a hora, hora do termo, fim da sessão.

se há coisa que aprendi em regras que criaste em nós, é a dificuldade da criação, deuses deitados em lençóis viscerais, que segregam pus no seu amor.

imagino a cara surpresa de quem toma por certo o destino. quero perder o tempo que deixámos gasto no último abraço que podia ser doce.

a escuridão trevas de quem fomos.

dançámos
sem deixar
rasto
todas as noites
até à morte
de todas as estrelas
queimadas violadas
na loucura do som
dos teus gritos
enclausurados
no meu peito.


J

a braços com a vida errada

domingo, 17 de fevereiro de 2008 às 21:10

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arms of fake plastic grow and stretch out from your bellybutton.

agarra uma gota de chuva que cai do céu com a língua. espera pela volta do correio pelo teu sorriso. desespera com o cavaleiro destroçado, de espada tombada no campo de batalha. ergue-te quando sentires os primeiros raios de sol a cegarem o tempo que esbanjaste.

e, como chegaste aqui?

será suficiente saber que te pareces com o vácuo deixado pela saudade para não deixar de sentir, sentimento, ajustar a televisão, um canal errado. desgastas os dentes com a premissa de seres quem procuras, a braços com a vida errada.

e, como chegaste aqui?

se te dissesse que conheço o outro lado da lua, da entrada em órbita dos teus sonhos, faria alguma diferença? esquece o hoje, amanhã, ou depois. não há melhor momento do que aqueles que deixaste para trás. rasga um sorriso do peito e entende, não há melhor foda nem melhor sensação que enfrentar-te de frente, sem medos, de punhos fechados.


J

dormentes

domingo, 10 de fevereiro de 2008 às 04:41

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Deftones - Dai The Flu
calor que corrompe as palmas das mãos,
maldita existência, curta, para as memórias do teu corpo,
encontro-te uma e outra vez,
efusão, loucura esbanjada num piscar de olhos,
a pele que se despe,
nossa, doce saliva nos dentes,
dedos lânguidos, de misteriosos propósitos.

sentes o cheiro, delírio,
um despertar antigo,
reviras os olhos dedicada, egoísta,
ama-me e não olhes para trás,
a surpresa, guerrilha de corpos,
aqui mesmo, agora.

desequilíbrio, momento,
instante de espasmos azuis,
êxtase abrupto, sombra de nós em um,
mãos que procuram as costas,
ancas que queimam a cintura,
e um último beijo, depois do próximo.

punhos cerrados, fechados em cadeados,
veias que palpitam o vermelho das promessas,
e olhos que se procuram num último gesto de raiva,
as unhas cravadas e um grito seco,
somos restos, desamparados e dormentes,
nos múrmurios de saudade da brisa que passa.




J

vítimas

sábado, 9 de fevereiro de 2008 às 20:47

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Radiohead - 2+2=5
não entendo,
o desejo, a ideia que respiras,
habituação às somas e subtracções,
anjos caiem do céu quando abres as mãos.

mergulho fundo,
um produto de séculos em nascimentos consecutivos,
nos joelhos, de pele gasta, estou vivo,
sinto os murmurios cálidos da manhã que desperta.

vens-te, um oceano.

seguro o casaco com força
- não me caiam as mãos
as ondas que esmagam violentas,
os abraços abafados em segredos tremeluzentes,
porque ficam na memória, porque seguimos enraivecidos,
para aquele sítio onde moras,
com a água na boca do teu orgasmo.

seguir-te-ia até ao fim, adeus,
longe deixei os tempos idos,
depois de todos se terem ido embora,
adormecidos pelo mundo.

estranha guerra esta,
vítimas que cambaleiam sujas,
sózinhas de agressores.



J

astrolábio

às 06:06

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pergunto-me
- como seriam os tempos idos, vagos, que se estendem nos recantos das tuas memórias?

seria belo nascer para um novo dia,
cruzar os mapas estelares,
navegar de astrolábio com o tecto no mundo,
render as estrelas vigilantes com beijos salgados,
ao leme, os teus olhos.

(calma, já aparece o sangue e pús e essas coisas)

ergue a cabeça,
sobranceira a lua descansa envolta em sonhos,
ilusões que aceitas sem questionar a sua verdade,
em cometas que desenham o futuro,
na necessidade de acreditar.

(e...)

levanta-te da campa (ora, finalmente),
descansa a tua carcaça cansada,
comove-me na tua dança de carnes rasgadas,
fio de sangue que baila cintilante,
nos lábios de quem a prova.



J

Para quem quiser ouvir.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008 às 22:01

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Lou Reed - Romeo Had Juliette
bastava saberes aquilo das contas, de matemáticas fáceis, domadas debaixo da língua, instintos apurados ao segundo do cifrão a caír, e rendes-te sem termos nem negociações ao visitante invasor atroz, resultado da ineficácia em manter segredo as tuas defesas. multiplicas-te em soluções abandonadas, criadas em sintonia e fiéis ao sentimento amargurado das mãos rendidas, soluçantes.

ecoas o mesmo discurso de coração quebrado, sem arranjo, num concerto em mi sustenido, afogada em tudo, em mim, em ti, em demais desculpas rasgadas de páginas cor-de-rosa. "apenas preciso de alguém que lá esteja para mim", ou, "sou gelo e espalho o frio". olha para ti anjo caído. de desculpas estamos todos fartos. há que cultivar a terra, criar rasgos e arrancar as ervas daninhas, mover os braços e retirar as pedras que pesam no caminho. trabalhar para que algo germine, frágil, nas planícies que guardamos na garganta, o amor que espalhas voando por todos.

não há cálculos matemáticos que te possam guiar a vida. olha para o céu e deseja que a chuva te brinde com o doce aroma do verão.


J

sorriso

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008 às 00:38

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prostrada de joelhos,
amaldiçoavas deus por ter criado o teu amor,
em secretos acordos com o diabo,
desmaiada num deserto calmo, vácuo.

deitaste-te,
desististe do teu amor,
abriste as mãos, posição fetal,
grave solene momento,
grãos de areia nos lábios,
tremeste o teu nome,
e não conseguias fechar os olhos.

mergulhaste nas tuas lágrimas,
pintada de negro, na tua cabeça
não tinhas medo,
do vento que levas contigo,
pronta para enfrentar o grande
nada, a negra noite, esta amante.

choviam estrelas a cada lágrima derramada,
morrias a cada sorriso,
fora deste mundo,
sortuda,
metade cheia, a metade que te foi roubada.

diz-me, levas-me contigo.


J