viajar a correr, a transcrever a realidade para sonhos, nas pétalas dos teus olhos, que nasceram mortas, caídas nas palmas das confidências, da confiança quebrada, o lacre selado pelos nossos lábios.
todas as cores incertas, a cada passo violento, deixando a pegada do tempo para trás, reagindo rápido e incessantemente à vida que queres para mim, nos fins do caminho e nas direcções pedidas, perdidos sem razão, fodasse a joie de vivre, quero tocar os teus cabelos e sentir o acre da terra na boca.
e descer, tecer os mais belos comentários nas tuas asas, deitados nas linhas que trocámos, escorregando lentos, nas sílabas que se engasgam, o destino salivante da merda em que insistes crer, a solução para a longa espera no apeadeiro, inconsciente, pancada seca na nuca, e os dentes que separam a língua-coração, deitado no cimento cansado, à espera de cantar, agora e já, aquilo que nos faz dançar.
viajar a correr, um pé à frente do outro, prova vertiginosa, um teste às capacidades sobre-humanas de desperdício, O TEMPO QUE DESPERDIÇÁMOS A OLHAR UM PARA O OUTRO NAQUELA RUA ILÍCITA QUE FAZIA O TEMPO ANDAR PARA TRÁS, adivinha, é para quem o quanto que queres, de bem ou mal, ninguém sabe.
despia a roupa quando,
e descia a rua,
perguntei ao velho que bradia para,
poderia dizer-me - já são horas se?
podia ser tudo aquilo que vier e, se deixar de ser. doente ou tanto faz, morto.
J
já são horas se?
Um dia, a ponte caíu.
Doente na doença de estar doente,
de sentir os dentes crescer para além dos dedos,
a mastigar lentamente as palavras que preenchem o nada,
que nada preenchem.
O velho mantinha-se calmo, olhando para cima, para eles os dois, disse grave - "Foi-se".
As ondas quebravam-se no embate com o cais, calmas, não mais que um metro de espuma quando se erguiam do Tejo azul esverdeado. Era um vaivém pacífico que se entendia com o burburinho das multidões suspensas nos murmúrios e gritos, de soluços nos olhos que procuravam algo que já lá não estava. Por cima de nós, o céu esbracejava um suspiro, quando o sol nos mirava por entre as nuvens, tímido, talvez única testemunha do que se tinha passado, rasgado pelas trevas daquele claro dia.
Via os helicópteros a chegar, vindos por detrás de nós, a pairar velozmente em direcção a lado nenhum, algures, esbatidos no horizonte, onde paravam em círculos, manobrando as gigantescas colunas de vapor de água e de fumo negro que serpenteavam os céus.
Conseguia ver alguns barcos de pescadores a partir da Trafaria, lá longe, pelo canto do olho, na minha esquerda, em direcção ao rio que engolira Lisboa, talvez na heróica missão de tentar salvar quem conseguissem, ou na eterna curiosidade mórbida dos portugueses de provocar mais acidentes observando roadkills na estrada - aposto que levavam cestos de piquenique naqueles barcos minúsculos.
Fiquei nisto largas horas feitas minutos, talvez segundos, estático. E foi quando senti a forte aragem quente que soprava no meu pescoço que caí de joelhos, a vomitar os pulmões que não conseguiam já respirar, pelos dentes que rangiam, e as veias que empurravam os olhos para fora das órbitas. Sentia todos os músculos do meu corpo a tremer, de dentro para fora.
E foi quando o Zé me disse "Olha, levanta-te caralho, olha!".
E as nuvens que pintavam o horizonte haviam diminuido, e diante de nós, apenas Tejo nos saudava, reflectindo faíscas de luz do sol nos olhos, numa pintura renascentista, virginal. A multidão por detrás de nós uivava, louca e desesperada.
Tentei semi-cerrar os olhos, sabem, quando se tenta ver até mais além, como se tivessemos super-poderes de heróis em pijama e capa, e conseguia destinguir uma sombra longe, que delíneava o horizonte, sem conseguir destinguir o que era. De facto, quanto mais tempo ali passássemos, menos iríamos perceber aquilo que se estava a passar.
- Preciso do teu carro Zé, preciso de ver o que está do outro lado.
- Está doido? - retorquiu, a esbracejar os braços - Onde é que pensas que vais chegar com esta confusão toda? - a apontar para o outro lado do rio - Pensas que és o único a pensar nisso? As estradas devem estar ou cortadas ou entupidas de carros!
- Até o mais longe que conseguir, só quero tentar perceber o que se passa, se estamos a ser atacados ou se foi outra merda qualquer.
Ele não sabia se me havia de levar a sério. Ficou ali pensativo, rodando nos calcanhares, alternando entre o outro lado do rio e comigo, que me levantava devagar, assoando os lábios às palmas das mãos. Fitou-me nos olhos.
- Leva-o. Mas promete-me que mo devolves inteiro.
E começámos a descer, tentando cortar aquela nuvem de pessoas.
*A continuar, mais tarde, após edição revista e aumentada.*
J
queda
Gostava de colher o sal do teu último suspiro,
embalá-lo e colocar-lhe uma etiqueta bonita,
- daquelas com arco-íris e sorrisos!
despachá-lo via correio expresso para todo o mundo,
e curar as doenças do coração e dos pés,
as bolhas nos dentes e as mãos ásperas
- salvar o mundo combalido, inferno enfermo!
abraçar com graça a tua queda.
Podíamos disfarçar-nos e bailar, cruzar o espaço interestelar nas asas de um tumor gaja, beijar o ar rarefeito no cume dos montes que sózinhos não conseguimos escalar, tipo aquelas árvores do colégio que ninguém conseguia trepar.
Sagrados os longos caminhos que percorremos,
naquelas gloriosas tardes de verão amargurado,
ensopados nas vastas planícies despidas diante dos nossos sonhos,
dois amantes em desgraça, alheios à noite e às horas que marcam o sono,
os momentos que passaram devagar demais,
nos trapézios sem rede dos nossos lábios.
É o destino, desde o dia, quando começámos.
Volta para a terra, velho cadáver que rosna o sol que lhe bate nos dentes,
volta a enterrar-te com as mãos que te sobram ossos,
esmagada pela lama que ferve no céu à passagem dos astros,
volta para a terra, antes que te mate a tua morte matada.
Deixa de rastejar nos meus sonhos débeis,
deixa o lastro que pendura e dói nos braços,
retorna, e deixa-me colher o sal do teu último suspiro uma vez mais,
para poder enviá-lo a quem precisa,
de mais um outono perpétuo, de pores-do-sol dourados,
pintados no sexo que nos queima os olhos.
J
o regresso - soltas
Roer os pulsos esganado de fome.
E se tentássemos dar as mãos?
Rapidamente caíste na realidade crua, despida pela chuva que arde na pele, assassina, e mudaste-te para o lado do passageiro, voando pela estrada sem paz, espalhando o reino da morte por todo o lado.
Quero, gostar de ti,
morte,
rasgar o tempo nas asas de uma baleia,
morrer,
logo, à hora marcada,
podre,
e a carne destruída longe,
morte,
com convite, festa privada.
Sabe bem, segurar a tua mão,
morte,
e levas-me a viver,
tudo o que esqueci lembrar.
Morro,
na revolução da carne e dos ossos,
forte,
absoluto e pleno,
senhor da paz no mundo,
morte,
não me interessa,
apenas vêm-te.
Fugaz vida que nos sobra pelos momentos graves e solenes, esbanjados em desejos e cálices cheios, multidões vazias que sabem que não consigo evitá-lo.
J
6 de abril
Podia continuar aqui neste ritmo frenético, na dança de corpos embriagados pela noite, adormecidos na doce letargia do suor nos lábios, de olhos fechados às luzes brilhantes, que cegam o sentir. Braços que se abandonam no ar, resvalados em passos fantásticos e choques rasos de cores azuis. 24 horas mais, e dormimos sós uma outra vez.
Ainda espero por lá, encostado a uma sombra qualquer na nossa rua.
J
3 de abril

Segurar-te os joelhos, queria,
ver o mar contigo, queria,
as amarras na nossa janela, lançar,
as probabilidades, morder,
rasgar-te o ventre com toda a força do amor.
Teresa, minha paixão,
esta noite sonhei novamente contigo. Julgava que me desfazia em água quando acordei, sobressaltado com mais uma cortina de bombas que fendiam o chão do outro lado da fronteira. Sonhava, como quando te conheci, que seguíamos pelo caminho na quinta do teu avô, na direcção do rio, a descer pelo campo, com a brisa fresca da noite nas nossas asas. Éramos tão jovens, lembras-te? As margens do rio embalavam-nos naquele vaivém lento que nos fazia dançar, traziam-nos para dentro de nós, escondidos nos ramos das árvores, com a lua ao topo, a sorrir para baixo.
Crescemos árvores, de raízes profundas nas mãos, a flor no sorriso do fruto doce no peito.
Escrevo-te novamente, quando a guerra se aproxima cada vez mais de mim, ainda escondido com o meu pelotão nestas trincheiras cheias de lama e homens, assustados, como no dia em que saíram do ventre das suas mãe, à espera dos minutos que passam até à morte certa. Temo que nos chamem para a frente da batalha hoje, e de não te voltar a ver, nem sonhar com o brilho dos teus cabelos, deitados, naquela noite tão nossa.
Escrevo-te novamente, porque sei que vou morrer em breve. Sinto-o nos ossos. A noite esvai-se, trazendo a luz com que te escrevo estas últimas palavras. Perdoa o vento por não conseguir levar até ti as palavras com que te beijo, esta última vez.
Até um dia,
J
2 de abril
Epá, epá, epá. Vamos passando pela montra, aquela da esquina na rua onde metemos a vida a dormir, sem nunca reparar, olhar para ela, ver o que de facto ela contém. Um dia, vemos com melancolia que está fechada. Sempre existiu ali aquela loja, aquela bela montra com coisas bonitas e brilhantes, que sempre ignorámos existir. E um dia desaparece, sem sequer darmos conta.
São as pequenas coisas que nos rodeiam e que observamos, que fazem a vida ser grande. Ainda no outro dia estava no barbeiro e vi a tranquilidade que ia nos olhos do homem, já vergado do tempo (e não pelo), muito calmo, pachorrento quase, à medida que ia, de sorriso nos lábios e de olhos brilhantes, dizendo que estavam a roubar o porto de 6 pontos e que não podia ser e o diabo a sete.
É de paz que precisamos. Resto é conversa.
Paz!
J
1 de abril

Serve o presente dia, como o melhor dia, para partilhar uma verdade que só duas pessoas conhecem neste mundo. Tenho um tumor na cabeça, mais propriamente um glioma, benigno (ahaahah). Eu chamo-lhe Teresa (não conheço nenhuma Teresa, pensei que não iria ferir susceptibilidades) e vivemos juntos há já um ano e pouco.
Sintomas, entre outros, nauseas, falta de sensibilidade nos dedos, fraca coordenação motora e, ultimamente, ando meio cegueta (e as dores de cabeça que só desaparecem com a combinação certa de álcool e barbitúricos).
Agora já sabem porque emigrei para longe (longe o suficiente para não ter que me cruzar com perfeitos desconhecidos e ter que explicar a metade aborrecida da minha vida uma e outra vez, e perto o suficiente para as bebedeiras ocasionais, ver o Benfica, etc).
Prazos, bom, de momento, já quebrei um dos prazos, tenho um novo, que reservo para mim. É até uma boa dica de engate, sem resultados claro, mas mesmo assim, causa boas reacções.
Viva o dia das mentiras, sempre nos permite dizer umas verdades.
Paz!
J
