A saudade de casa esmagava-lhe o tempo e a noção de espaço,
via a sua imagem reflectida a cada passo,
escondida entre as sombras de um passado premeditado,
os projecteis, arremessos estelares, o sorriso remediado.
-- x --
Convencida de que o sol brilhava para todos e que, por consequência, serem todos seus semelhantes, caminhava orgulhosa, sabendo que nada a podia atingir, retirar o propósito de uma vida gasta contando os dias até morrer.
-- x --
Deixa brilhar o tremor dos dedos,
o cruzar a roupa com a luz que trespassa a janela,
enrola os braços nas sombras dos beijos,
com a saliva que escorre da brincadeira
de esbanjar a boca no teu corpo.
-- x --
Tenho os azuis.
J
tenho os azuis
Um dia, a ponte caíu.

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Eram horas de saír.
Agarrou no seu casaco gasto nos cotovelos, de cor neutra, castanho talvez, e fez-se à porta, hesita.. hesita.. claro, faltava a mala, um recuo rápido, e lá estava ela encostada ao largo sofá. "Está tudo", abraçou o gatilho que o separava do mundo exterior e puxou-o, quando uma abafada voz soou do quarto:
- Zé... onde vais zé?
- Até Lisboa, não esperes por mim - retorquiu, seco.
A porta deslizou na sua direcção e saiu. Aquele pátio cheirava a carne enlatada em notícias já com o prazo de validade expirado, paredes caiadas com nomes de tribos urbanas, daquelas que não existem. Flashes de luz cegavam-lhe os olhos - o café a fazer efeito - e tropeçava com os dedos nos botões do elevador - vá lá vá lá - com aquela dança frenética com os olhos fixos no tecto, de forma a dobrar o tempo ao nosso ritmo.
O Zé era um porreiro, sério.
O sol já lhe afugentava as dúvidas de que estava acordado quando reparou nas ruas pilhadas de gente - não se via vivalma, nem carros a passar ou a buzinar ao longe. Mais ao fundo da rua, o largo de Gil Vicente encontrava-se na mesma, estaleiro de obras, roubado da sua fonte e estranhamente, das suas gentes. Carros estavam estacionados na estrada, de portas abertas, abandonados ali, sem destino, e ouviam-se pessoas a berrar a plenos pulmões, sem se conseguir perceber o que queriam dizer. A avenida subia e descia num silêncio frágil, quebrado muitas vezes por vozes que lamentavam e outras que festejavam.
Recuei um pouco naquela névoa, era tudo muito confuso - há que tentar pensar um pouco - quando reparei na tasca da fonte com uma palma de gente à porta a tentar entrar. Aproximei-me um pouco e vi o Zé, amigo de longa data desta e de outras vidas, semi-esmagado naquela manada humana. Tentei chamá-lo em vão, o ruído era demasiado. Não conseguia perceber o que se passava dentro do café, escapavam-se apenas diálogos perdidos e dedos apontados à televisão que continuava a passar imagens daquele filme que ia estrear. Tentei chamar o Zé novamente, tive que empurrar as carnes que limitavam a entrada da tasca a pouco mais que uma nesga de gente.
- Zé, o que é que se passa amigo? - e nada, não me conseguia ouvir apesar de estar a menos de dois metros de mim. Tentei novamente - ZÉ, OPÁ, Ó ZÉ - e ele olhou para trás, tinha a cara distorcida, agitada - PEDRO, JÁ SABES? - que raio, como é que eu podia saber, acenei que não com a cabeça. A custo, saímos os dois.
- Zé então, o qu'é que se passa?
- Anda, eu mostro-te - disse ele, puxando-me o braço e apontando para a avenida que descia até Cacilhas - é melhor descermos pela rua dos antigos bombeiros, há demasiada confusão por aqui - e virámos para a rua dos antigos bombeiros, que desce até Cacilhas, passando pelo movimento Libertário e pelas antiquíssimas tascas de mariscos e outros acepipes.
Cacilhas era o caos, já desde o desvio nos bombeiros que se percebia que devia estar ali a população de Almada em peso. Ele puxava o Pedro pelo braço enquanto desciam ambos, tentando manobrar por entre as caras despedaçadas que se cruzavam por eles. Velhos gritavam das varandas - "É bem feita! Agora pagam por aquilo que fizeram ao resto do país! Filhos da puta!" - naquela rua esguia que terminava junto às gares de camionetas em Cacilhas. Havia ali também um silêncio dominante, apesar das torrentes de pessoas que inundavam os passeios e dos carros estacionados, muitos deles ainda a funcionar, abandonados onde pararam, e das vozes exasperadas e exaltadas, o silêncio amargurava todo o ambiente, como um mau actor numa obra prima de teatro.
O Zé e o Pedro continuavam a descer, e via-se bem na expressão do Pedro que não sabia o que fazer daquilo, a tentar raciocinar em fórmulas matemáticas de expressões sociais para aquilo que via, enquanto que o Zé continuava a guiar-lhe o caminho, a tentar chegar às grades daquela plateia monstruosa, espectáculo mórbido.
Pessoas caíam à sua passagem, umas desmaiadas outras que simplesmente perdiam a força nas pernas e se desfaziam em lágrimas. Um velho na multidão, de barbas brancas, a lembrar um velho comunista, de gabardina comprida, de feltro preto, a fumar um cigarro sem filtro de dedos castanhos, queimados do tabaco, projectava a sua corcunda por detrás de uma nuvem que se estendia no horizonte. Zé e Pedro aproximaram-se, treparam para cima da estação fluvial e foi aí que o Pedro se fez estátua. O sangue simplesmente parara de correr nas suas veias.
Os F16 sobrevoavam as suas cabeças a alta velocidade, rasgando os céus para uma nova paisagem, vazia. Lisboa não estava lá. Apenas nuvens largas de fumo e outras de vapor de água se levantavam à sua frente. Um silêncio perturbador e uma vibração quase mecânica pintavam os sentidos.
O velho mantinha-se calmo, olhando para cima, para eles os dois, disse grave - "Foi-se".
*A continuar, mais tarde, após edição revista e aumentada.*
J
mãos cansadas
Senta-te no chão.
Vamos ponderar toda a loucura que não nos deixa dormir, agarrados às drogas, viciados nos teus olhos, inaptos neste inferno que ousa em deixar-nos em paz. Não há coisa mais fácil e segura do que considerar alegremente a hipótese de passar lixívia nos nossos ressentimentos, na distância que nos separa de mais uma noite feliz.
Dispo a roupa, sem ressentimentos. Vê como olhas para mim, sem vergonha como se te pertencesse, rápida e lentamente, ou como quiseres, pelo preço de mais uma noite passada alheia à vida fora deste palco. Dispo-me para ti porque tens vinte faces e preciso de cada uma delas para sobreviver a mais uma noite sem.
Era uma vitória sermos mais do que naufrágios abandonados pela sorte.
Não há fronteiras para o asco que provocas nas minhas insónias, como as moscas que insistem em morder a luz cega que arde na noite ténue, amor gasto na sarjeta solitária da fama que redesenho a cada sussurro feito espada que corta e rasga o núcleo de todas as intervenções e conquistas, lembradas no ocaso da minha elegia.
E todas as noites me dispo para ti, na esperança de que voltes para casa connosco, com os anjos que nos amaldiçoam.
As mãos estão cansadas e trémulas de segurarem os sonhos que pesam na minha cabeça.
J
romance
Deftones - Passenger
rezamos todos por um outro, porque ninguém tenta ser surpreendido, as mãos suadas nervosas, um punhado de dentes espalhados no chão.
podia ser um daqueles dias, podias voar até ao outro lado da montanha, ver o espectáculo de luzes que te abate, migalhas estelares do cometa que foste em tempos áureos.
rasgados os sorrisos e as cartas que beijaste, segredos no vento, podias ter sido maior que a tua sombra e tentavas hipnotizar-me a cada passo.
segue bebendo, partirei antes da alvorada.
vou procurar uma resposta no mar, navegar feito espuma num abraço com o areal, procurar estrelas do mar e cometas, cruzar as ondas explorar os tesouros
Gostava de te poder mostrar os tesouros que se escondem enterrados nas palmas das mãos, nas linhas que contorcem as dunas do deserto, brilhantes demónios reflexos da vida que escolheste, quando decidiste envelhecer, apodrecer, fruto doce. Queres uma segunda oportunidade de ficar quieta, junto ao cais do tempo, a ver os navios que prosseguem viagem sem escala, sem nos esquecerem, levando notícias nossas a outros mundos. Lembra-te de mim quando envelheceres. Lembra-te dos nossos beijos quando morreres.
Queria poder levar o teu espírito para um último mergulho nas verdade que cobria o céu, com os nossos amigos vestidos de negro, de luto, todos de roda, as pétalas que descobrem o caminho até ao cemitério e toda a gente que te ama, sem receio.
Queria poder levar os teus dedos a descobrir a terra, esgravatar o sal na lama, de brincadeiras inocentes e risos fáceis, tranquilos, sujos no romance de uma vida, em escavar uma sepultura.
Queria poder levar-te flores, de todos os cantos do mundo, amarelas vermelhas azuis, vis lembranças da vida que se esgotou há muito dos teus olhos, vê, cheira o aroma acre da morte.
Queria poder levar a chuva até ti, para que pudesses dançar na tua loucura, debaixo das cerejeiras em flor, sem coração para a família, sem os tropeções que mataste na metáfora, nos milhões de coisas que amavas em mim, baile de máscaras, rodopios e cais fatigada, esgotada, e a torrente de sangue que te engole uma, indivisível para todo o sempre com o solo que te abraça firme, como o nosso último encontro.
Queria poder levar as minhas condolências, mas não te encontrei. Gostava que ainda aqui estivesses comigo. Sem arrependimentos.
J
Um dia, a ponte caíu.

Sentado na cama, contemplava as memórias da noite passada, sonhos ceifados em abraços cerrados, de olhos fechados, a caridade da sua sombra projectada pela única luz que conhece. Um de nós mente com todos os dentes.
Um passo em falso, os pés que se arrastam, à procura de um chão que o suporte. Passa a mão pela testa, limpar o suór frio deixado pela noite passada em horas solitárias. Ergue-se, levanta-se com os braços apoiados nos lençóis ox blood, alma carmin que abandona dormente. Passos lentos, desajeitados carregam os seus ossos até à casa de banho para a inspecção matinal. Grunhido fácil, esperado, que ecoa nos reflexos dos azulejos verde escuro do chão, trinta na horizontal, e cinquenta na vertical, os mesmos de ontem. A luz do tecto treme frágil e ele agarrava a cabeça, para se certificar que ainda a tinha. Nada como um vislumbre da nossa face pela manhã para sermos chamados de volta à realidade - a inspecção rápida dos dentes, de um cão sem pedigree - "bom dia para ti também". Amarelos pois, água na tromba e um arrepiar de revolta.
Passeio rápido até à cozinha, aquecer um café, ligar a tv, fingir que há um sentido na vida. Repetir estes passos até à exaustão, dia após semana, após eternidades gastas, os despojos da esperança, para quê? Acabar num qualquer banco de jardim a mirar as miúdas de 16 anos 18 anos, a reclamar que está frio, e que não chove, e que está calor, e o diabo a sete.
Café de filtro, cheio de borras que se agarram aos dentes, sujo quasi pestilento, o Café - o melhor momento do dia.
Ecoava na televisão um novo filme que estreava naquele dia. Imagens de um cenário de guerra - mais um filme pós 11 de Setembro, pós filmes sobre o 11 de Setembro certamente - o nacionalismo americano exacerbado ao nível da Deutschland Uber Alles de Hitler. Não lhe interessava. Sentou-se, cansado, numa conversa com o cigarro que habilmente já descansava sobre os seus dedos - o término desta cerimónia matinal.
Os olhos divagavam pelas paredes despidas, brancas - amarelas do fumo, à procura de um ponto, uma razão que o obrigasse a acordar. O Diário Remendado do LP descansava no sofá, velho e gasto, torto de anos de uso e das amantes que não lhe tinham sobrevivido, junto da garrafa de tinto que tinha consumido na noite anterior. E foi aí que tudo se alterou.
O silêncio.
Pela primeira vez em anos, desde que se mudara para aquela casa gigantesca, um Tê Zero feito castelo em Almada, cujos canos rangiam e pingavam, que reparou no silêncio. Não havia vizinhos a foder, nem elevadores a carregar corpos a caminho do trabalho, nem miúdos da escola ao lado a brincar. Até o ronronar metálico, distante, da ponte Abril de 25, se mantinha silencioso. Seria Sábado? Feriado? Teria o mundo acabado?
Fitou o tempo distante mais um instante, de olhos cravados no horizonte trancado por detrás daquela janela fechada.
Eram horas de saír.
*A continuar, mais tarde, com dois ouvidos, após edição revista e aumentada.*
J
miscelânia
Saul Williams - List of demands
all i'm saying, pretty baby... lala love you, don't mean maybe. yeah.
gastaram as fitas, os rolos intermináveis de látex preto, deitados nas toalhas, alegres no por do sol, nascer da lua, quando o mar tragava mais um navio no japão, despreocupados e entorpecidos pelo calor das fornalhas que funcionavam sem parar, levando famílias a reencontrarem-se no sabor do inferno, sem saber sequer se seriam sereias, abandonadas à sua sorte nos vendavais que vergaram o velho cipreste.
pintava-te em paisagens claras, eternas, queimadas nas palmas das mãos, por detrás do teu sorriso, perdidas enquanto dormia, enquanto espreitava o futuro através da fechadura, cadeado nos dedos.
frutas, fragrâncias doces. e os dentes podres que ainda hoje se alimentam da tua tábida paixão.
i got a list of demands written on the palm of my hands...
then i took your picture out and taped it to my heart...
*coff*
J
preguiça sem juros
relâmpago fácil.
és feita cometa que rompe a calma noite,
fogo que comove a música dos meus lábios.
encosta-te lenta,
desmaio subtil,
a preguiça sem juros,
economia de palavras.
soltas amarras e baixas âncora,
cais de costas esgotada,
frágil derrota,
o teu peito aberto,
pernas rasgadas,
tudo uma descoberta
perfeita.
- é tarde, mas o nosso vício sempre foi o riso sincero.
J

