como se não houvesse amanhã, rugia o leão do topo da montanha, rodeado das ossadas dos seus adversários.
como se não houvesse amanhã, subias a escadaria de vinte-e-nove degraus que terminam em queda abrupta.
como se não houvesse amanhã, enxugavas as lágrimas do rio, lavando o sangue das mãos naquele rolo interminável de.
como se não houvesse amanhã, tossias os pulmões a cada golfada de ar fresco, merda.
como se não houvesse amanhã, fodias, pois já ia longe o dia em que deixaste de ser e a noite continuava intermitente nos olhos.
como se não houvesse amanhã, decidias terminar o dia de hoje, todos os dias.
como se não houvesse amanhã, mordias a língua para ti.
J
ossadas
velocitatis tremendae
Sentes o cérebro a vacilar, com todos os nervos a bombear o sangue em rios furiosos que derramam tudo para a fronte que sua, treme, espasmos e contorce-se, com os olhos semi-cerrados em punho, o teu crânio parece que ferve no gelo mais puro.
Tentas distrair-te, abstrair-te das ideias que não insistem, que apenas não cessam de existir, na tua cabeça e nas palmas das mãos suadas, e observas curioso o latejar das veias nos braços que parecem ter vontade própria, a compasso da vida esquartejada em ternário, numa valsa falsa com os músculos que se contraem, a tesão, a vida que te fluí do peito para o centro do universo, num turbilhão púrpura que te rasga em dois.
Seguras as mãos na jugular que se esconde por detrás daquela névoa negra e puxas, forte, seguras a morte à tua frente e gostas, sem murmurar, sem lamentar, insistes e consegues sentir a pele a ceder onde as cinturas se encontram, a cada investida misericordiosa, estocadas de veludo vermelho na carne fraca, encenadas e repetidas sem perícia, apenas o desejo bruto, vingança da alma.
Quase sem fôlego, repetes para ti mesmo uma palavra, rasa, sem significado algum, mentira folgada, guloso, não há memórias aqui, apenas a luta pelo fim, a batalha que fica por ganhar, a derrota adiada para um outro dia.
E consegues sentir a alma a estilhaçar-se naquele vácuo de luz. Vens-te. O esperma mancha-lhe os lábios secos e tu gozas as 30 moedas de prata, sem receber o beijo da compaixão, apenas as unhas que te marcam o peito incandescente.
J
*ahem*
sem um destino marcado, incerto, nos cruzamentos que nos levaram de encontro a esta palpável realidade infeliz, coroados como reis neste burlesco cabaret, sem contra-mestre ou algo que o valha, entregues apenas às vicissitudes do sempre inadiado futuro, enquanto que a minha face se desfaz em fragmentos mil, negros e afiados, onde o corpo se entrega sem vontade às manhãs que se seguem.
por isso, vão buscar as vossas vinte-e-nove facas e arranquem todos os pedaços negros de mim. rasguem a tenra carne com se fosse a de um bebé fresquinho - daqueles acabadinhos de fazer, ainda com o leite das tetas da mãe a escorrer-lhe pelos cantos da boca, lambão - entregue às tormentas dos mares que estalam sobre as nossas cabeças, todas as noites até ao fim dos tempos, os meus e os vossos.
por favor.
J
soporífero forte
Velha verdade queimada viva, nas sombras que engoliam as tuas palavras, escondida na leve brisa, soporífero forte, que emanava aquele ardor grave, pendor que balançava nas nossas cabeças, leve, pronto para desferir o golpe final, sempre pronto e hesitante, espreitava a mínima falha na enorme esfera de metal polido que explodia a cada instante, frágil, em mentiras, as tuas.
E hoje, esta noite estamos mais perto de casa, neste bólide vermelho que navega as estradas à velocidade da luz, pelos mapas deitados por terra que indicavam o caminho para lado nenhum, esvaídos de qualquer consciência, boa ou má - e agarravas o volante com força, sangravas dos olhos, rindo histérica, com os lábios rasgados através da tua face, fantasma negro, pintada de cabelos que flutuavam etéreos na tua caveira pálida.
Caías em mentiras, uma e outra vez.
Velha verdade vem até mim,
abraça-me rasgada, soberba na noite que me acaricia e que me leva até ti,
velha verdade vem até mim,
segura-me as mãos e ajuda-me a rezar, limpa-me as feridas abertas com sal,
velha, vem até mim,
fica comigo e mostra-me o teu negro interior, deixa-me beijar a tua carcaça gasta,
vem até mim,
rompe a luz com o teu manto e leva-me.
Deixa-me lamber-te os dedos e rugir o teu nome de baioneta em punho,
estou cansado do cheiro da pólvora que ainda estala nos meus ouvidos,
daquelas batalhas que pintam os amantes com negros corações,
trata-me bem e lembra-te de mim, eu esqueço-me, vem-me buscar.
Derruba os muros, vem lesta e ágil, pelas trevas do amanhecer,
embrulhada nas boas novas, nos trovões que hesitam em cair dos céus,
traz contigo as vinte-e-nova lâminas para um festim com os meus ossos,
ardem alto as fogueiras da saudade pelos teus lábios, de outros tempos.
J
vinte-e-nove lugares vazios

vamos retirar as raízes da terra,
movimentar o tronco da velha árvore,
leve inclinação para a frente,
espelhar a longa sombra de gigante tombado pela relva ocre,
deixar que o vento agite os galhos, sem a mínima consequência directa.
vamos deixar que os nossos pés dancem,
em bicos, apoiados nos dedos,
ao verem o caixão passar,
acorrentado aos vinte-e-nove cavalos brancos,
alimentados naquele circo pandemónio,
na breve chuva de verão que tinge o céu de sombras púrpuras,
de reis e imperadores caídos,
deitados por terra, sem raízes.
vamos entrar pela porta,
deixar as janelas e os outros atalhos para quem deles precisa.
vamos guiar até casa naquele carro vermelho,
movendo o sol e as estrelas para longe,
empurradas pelo caleidoscópio das línguas entornadas pela verdade,
em graças dadas pela igreja e pelo papa,
- olha como a lâmina se sente confortável nos meus ossos.
vamos deixar a economia de palavras para quem percebe de números,
escolhendo a facilidade das vãs promessas que são cumpridas,
escolhidas aleatoriamente pelas sílabas que descem pelo pescoço,
em gotas de mel colhidas gentilmente pelas mãos que te acariciam,
falsas, gastas, escondidas pela gentileza da vida que sopra em nós,
e a sobriedade que flutua pelo ar, suave, rangendo os dentes à nossa volta.
vamos buscar os nossos brinquedos, os de brincar e os outros,
para rasgar as feridas que jazem cruas na pele estaladiça e condimentada,
e fazer mil acepipes - fantásticos! - que nos alimentarão as bocas para sempre,
esperançados numa esperança melhor, algo melhor, de mais fácil digestão,
entregues ao rio de sangue que escorre pelo espaço que te sobeja entre dentes,
quando mordes o céu com todas as ganas que cresceram selvagens todo este tempo,
deixadas à vontade divina daqueles homens e mulheres que jogam à vida como deuses.
vamos dormir como se não houvesse amanhã porque amanhã é já daqui a bocado, e isso, é muito tempo.
vamos brindar à escuridão que nos envolve, a mítica e feroz viúva da morte,
aquela dama que se recusa, que não é dada, que tem de ser reconquistada todos os dias,
nos jogos de guerra criados para entretenimento da plateia ávida por mais,
mesmo quando nos restam vinte-e-nove lugares vazios.
vamos ouvir a orquestra do tempo que faz soar os tambores das tempestades,
sentir os calafrios na espinha quando a terra ruge por mais carne pútrida,
na doce melodia desesperada da vingança nascida nas rugas dos beijos deixados sós,
quando os rios se transformam em soldados ferozes de ideias puras,
comandados pela seda suave da pele que se consome frágil,
pelos vermes que irrompem em discursos de batalhas perdidas nas vinte-e-nove noites solitárias.
vamos abraçar o nosso esqueleto e dizer-lhe o quanto lamentamos.
J
onde termina
debruço-me na cama e ela, enquanto veste aquela pele que lhe fica tão bem. brincávamos ao lobo e ovelha como dois adolescentes, vezes e vezes sem conta, sem nunca, não nos fartávamos, sem nunca saber bem quem segurava o cutelo e de quem era a carne que sangrava nos lençóis.
não sei por onde começou, mas onde termina,
sei, apenas sei que não errei,
torcendo os dedos na busca da última gota,
o suór de vinte-e-nove buracos negros,
- étecetera, étecetera.
flores, lilases, a gravata negra,
guardadas, as luvas brancas na caixa,
cartas empilhadas num canto da casa,
o cigarro que não arde,
as árvores que sopram o vento,
maré que não sobe por medo,
desligada do cimento frio,
as marcas da velocidade no alcatrão preto,
pedras do passeio que piscam os olhos,
à deriva, à deriva,
e eu sei que não faço ideia,
na espada veloz que decepa o ar,
que corta as asas dos anjos,
disfarçados de relógios de parede,
tique, toque, tique, traque,
livros que caiem das estantes e rodopio,
- vertigem a vinte-e-nove metros do mar
queda de joelhos,
a tosse infernal na perca de sentidos iminente,
estamos vivos.
sustém as ligaduras, apertadas em laço bonito,
e embrulha as caveiras no saco tenso,
deixa de reagir, despe-te, é fácil,
pinta o corpo com o cheiro do sexo banal,
e agora que te encontraste,
imagina os soldados que partem para a guerra,
que conquistam planetas púrpuras,
viajando pelas palmas das mãos,
vendendo medalhas e pechisbeques,
cuspindo fogo de saltimbancos,
naqueles jornais de vinte-e-nove exemplares,
cada um tingido, na cor que quiseres.
esconderam os tesouros no fundo do mar,
abandonados à chuva que irrompe pelas portas,
sem que ninguém saiba, sem aviso,
e só tu podias crer na viagem das aves que rumam ao sul,
quando éramos devorados pelos tentáculos gelatinosos da verdade,
perdidos nas vagas que se formavam ao longe,
nas prisões perdidas no deserto dos vinte-e-nove olhos,
deitando abaixo todas as miragens,
esperançosos, a realidade de sorriso amarelo.
J
nada mais
Ele rendia a guarda, no segundo turno da noite, a cára mascarrada de carvão, camuflagem da noite, o engano para o inimigo para além das linhas que os cercavam. Apertava a G3 junto ao peito e tirava a onça de tabaco do bolso da camisa.
Podia fingir que acredito naquilo que quero acreditar. Podias deixar de me tratar como um criminoso.
Poluído pelas ideias que corrompem as saudades,
as curtas memórias que se distorcem no tempo,
aquele que vai no cortejo lento,
desfilando na avenida onde as mulheres vendem o corpo,
e os homens empenham as almas.
Os marinheiros que encontram um lar na cidade,
nos portos distantes que
Rangia os dentes em pó, chupando com força aqueles fragmentos de verdade que se desprendiam do palato, feitos caramelos de badajoz - eu gosto - que se grudam aos dentes, daqueles que sufocam as palavras quando se tem o coração na boca, quando a saliva se torna sangue, rubra, e os lábios se contorcem a cada pensamento naquele esgar de morte, careta, na face destruída pelo desejo incontrolável de procurar o infinito, sabes? enfrentar de frente aquilo que não se consegue ver, a ideia que nos arrepia a pele à noite, quando estamos sozinhos no escuro, abandonados para nós, esquecidos naqueles passos de dança que deixámos para trás, porque, sejamos realistas, sentimos que há mais, e dizem-nos que não há.
Transformamo-nos numa brisa marítima e secamos o odre que nos guarda os ossos, esfregando o focinho nos penhascos - aqueles que escondem os gigantes do oceano - que nos empurram para o voo derradeiro, êxtase mortal, quando os deuses e os nossos sonhos se quebram nas depressões dos rochedos. Metamorfose. E é tudo novo, de novo, até voarmos para longe, para apenas voltarmos a cair em nós.
E aí rasgamos as cartas, testamentos e requerimentos, pedimos deferência às acções interpostas e esfregamos as mãos de contentes pois tínhamos razão, todo este tempo, tínhamos razão.
Bom, aqui fica o meu último desejo, assenta e escreve num papel para não te esqueceres, existe uma nova prova, uma evidência clara e definida - não, não encolhas os ombros - definida nos galanteios e tudo o mais que abandonei, deixei para trás, na clara percepção dos números e factos aqui apresentados, organizados em ordem exponencial, conferidos em duplicado pelo sono que me vai deixando lentamente acordado. Não temas pois está tudo registado. Não tomes por certa a memória que me resta, ela é ilusória e tende a esconder os pulsos da verdade, naquele manto húmido do teu ventre. Se eu te conhecesse - estás a escrever? - se eu te conhecesse, levar-te-ia para dentro. Nada mais.
J
carta ao meu amor
Rolling stones - paint it black
porque dóis? não me parece certo. sinto-o na comida que trago, sabe-me azeda, insonsa, sem cor nem paladar. Quando passeio na rua os pássaros calam-se, já não chilreiam aquelas músicas de antes, quando não existias. Agora é uma ralação constante, e tenho que admitir, já nem a cerveja tem o mesmo sabor, e já nem o tinto é cor de sangue. resta-me apenas pedir-te que me expliques, digas porquê? alguma vez te fiz algum mal? não nos dávamos tão bem quando arrastava os pés pelas ruas sózinho, às tantas da manhã, sem te ter por perto a cada esquina, a roubar-me a força das pernas, escondido nas faces das pessoas que me olham, estranhos a tudo isto, fazendo caretas nas montras das lojas por onde passo, sempre sozinho na tua companhia.
porque odeias tu tanto a incongruência da solidão, deixa-me roer os pulsos em paz fodasse. volta para o negro buraco de onde saíste. o ruído que deixas na minha cabeça a cada investida torna-se cada vez mais insuportável, e a cada dia aumenta o volume, faz-me sangrar dos ouvidos, de dentro para dentro, faz-me doer a cabeça e deixa-me o peito descontrolado, para quê? dói. tudo o que desejas é tudo, demasiado nada entendes? não te pedi isto de estar vivo, de sentir o sangue a ferver nas veias, atrapalha, não consigo sentir as mãos firmes, tremem e isso chateia-me pois custa-me trabalhar ou dormir, pois adormeço sempre contigo por perto.
peço-te com mui veemência, pára com as lamechices. isto de andar sozinho, contigo atrás, não dá jeito e só estorvas. pira-te, xispa-te.
onde é que deixei aquele gin tónic? anda cá ao pai.
J
lamecha: adj. e s. m., fam.,
namorador ridículo.
axis: bold as love
Jimi Hendrix - Axis: Bold as Love
towering in shiny metallic purple armour
Queen Jealousy, envy waits behind him
Her fiery green gown sneers at the grassy ground
Blue are the life-giving waters taken for granted,
They quietly understand
Once happy turquoise armies lay opposite ready,
But wonder why the fight is on
But they're all bold as love, yeah, they're all bold as love
Yeah, they're all bold as love
Just ask the axis
My red is so confident that he flashes trophies of war,
and ribbons of euphoria
Orange is young, full of daring,
But very unsteady for the first go round
My yellow in this case is not so mellow
In fact I'm trying to say it's frigthened like me
And all these emotions of mine keep holding me from, eh,
Giving my life to a rainbow like you
But, I'm eh , yeah, I'm bold as love
Yeah, yeah
Well I'm bold, bold as love (hear me talking, girl)
I'm bold as love
Just ask the axis (he knows everything)
Yeah,
yeah,
yeah!
bendita sejas

farto dos teus sucedâneos de felicidade instantânea, daquilo de juntar água "e já está", queria-te puxar para mim e arrancar-te os olhos da cara com a ponta dos dedos, mas apenas me consigo rir ao ver-te deitada, desamparada e abandonada, no meio da urina a pedir por mais, com aquele riso libidinoso e olhos de menina traquina, num outro universo qualquer que te ampara a queda, mesmo depois das trinta noites de coito ininterrupto com todos os arredores desta bela localidade - merda - mesmo com as mães solteiras e os pedófilos chupistas que te engolem o sangue que te sangra das pernas às catadupas.
tentas construir uma prisão, qual redoma de vidro, palco ou régie, de marionetas, e entretens-te a puxar os fios, com o dedo no recto, e chupas - que bem que chupas! - derretendo a carne bolorenta nos lábios, de olheiras deslavadas, as rugas que te revelam a idade - uma pita por sinal - de rua. falta-te o discernimento para haver um poder, um verdadeiro poder, com o qual possas conquistar o mundo. até lá, és uma piada barata, daquelas escritas nos compartimentos individuais e urinóis deste magnífico país.
ainda me lembro do teu belo esqueleto que me sufocava há umas eternidades atrás. e tudo o que sobrou foi uma mancha ácida, aquele fétido sabor a morte na língua, sabes? claro que sabes. e agora entretenho-me, voyeur, na magia que é ver-te pedir por mais, em exclamações e interjeições gesticuladas em desespero - uma busca de perdão talvez? - mergulhada num belo saco de merda, daquela fofinha e verde.
gosto da maneira de como a tua carne se separa dos ossos à medida que tentas esboçar um sorriso. felicidade, bliss. uma diáfora quadrada que te descreve perfeita - como? como como? como como como - e continuas, os teus membros agitam-se frenéticos a tentar trepar pela parede de pilas que não têm cerimónia em jorrar, possuir-te, todas as vezes em que piscas os olhos. e o teu pus - catarro da alma? - escorre-te pelos joelhos, numa poça amarela e laranja, que enxambra desembaraçada pelo escoadouro que te leva, dejecto pestilento, para o oceano de merda que escondes debaixo da cama para ninguém ver.
bendita sejas mulher.
J
crónica de Outono
Ocean Colour Scene - Riverboat Song
Outono é bailado.
Desprendeu-se agora, do alto daquela árvore secular, a folha de Outono. Amarelecida, no tom de oiro velho que o Sol lhe deu, com um ar cansado e cheio de rugas, duma vida já vivida, vai iniciar o baile. Vem livre, em evoluções e piruetas, ao som da música da brisa suave que sopra em surdina. O tema é Ícaro e o seu sonho. É livre. Voa pelo espaço em voo efémero, na realidade dos sonhos já sonhados, que a deitam por terra e a torna escrava dos passos que passam.
Vai alto o Outono. A brisa suave é vento agora. A música já não soa em surdina. Tem tons de estridência e lamúria, sopra gritos, num arrepiar de silvos. O proscénio do céu é iluminado, em feérie de rasgados clarões intermitentes, que respondem ao ribombar dos timbales da orquestra do tempo, dos elementos. As árvores, alinhado corpo de baile, despiram já os seus fatos garridos, estão nuas agora. E, nas evoluções dos braços e dos troncos, nas flexões que o ritmo impõe, vai começar o ballet.
O Outono é a vida melancólica, mal aquecida por um Sol mais baixo que já não queima. É repouso de sonhos cansados, de ledas e doces recordações. É sossego, paz, tranquilidade, e onde o cântico final das vindimas soa como o último abencerragem da alegria.
Trivialidades de uma vida efémera, que se repete, recolhidas por esta folha de Outono que eu já sou.
As mãos que entrelaçávamos, naquele envelhecer bonito, com a confiança da vida que havíamos deixado em boas mãos, decrépitos, de sorriso parvo na cara, feitos um para o outro, incomodados com a ausência dos beijos que trocávamos às escondidas, abraçados naquele por do sol que pintava toda a paisagem de dourado.
Os rios corriam mais lentos, pintados de vermelho pelo horizonte, quando brincávamos naquela terra molhada, aquele cheiro intenso a fertilidade, mergulhados nas memórias do verão que já se esquecia, longe, dos risos abandonados naqueles areais, escondidos nas dunas do teu corpo, e os teus olhos e os meus, risonhos.
O vento que sopra frio e faz ranger os ossos, silva pelas frestas das janelas e portas, preso em meditações, naqueles longos domingos solarengos, do Sol quente que arde por dentro, que faz corar as folhas, tingidas pelo vermelho dos teus lábios, ou amarelecidas nas saudades que rasgam as nuvens baixas que passam. As andorinhas já não pairam por cima das nossas casas, e a orquestra arruma os seus instrumentos, tudo se resguarda, espera pelo frio, naquelas demoradas noites que nos encurtam os dias.
Vai alto o Outono, velho sábio, agasalhado em nós.
J & Joaquim Teixeira circa 1994
duas moedas
tu disseste que não interessa e eu encolhi os ombros, concordei, e fitei-te "olha lá, tens a certeza?" e tu começaste com aquele discurso sobre a eternidade, aquela tranquila eternidade de abraços, agarrados à morte, sem romper o frágil, o ténue arrepio que nos rasga o peito, envoltos na mortalha velha, disseste "o tempo não espera por nós" de olhos arregalados, grave, lá do alto do teu sacramento, e gesticulavas sobeja, como se te saissem dos lábios a música divina, música dos anjos, daqueles sem sexo, anafados e rosados. "onde é que ficamos" perguntei, viraste costas, e apontaste, primeiro o braço esticado e depois o dedo, para norte, "ali" sublime. não sei quantas vidas fiquei ali detido, a olhar para ti, em estado de consolo, numa qualquer espera ou marcha matrimonial, sagrada.
o vento soprava forte, e conseguia ver os teus seios rodopiar, ali à solta, assim. murmuravas palavras de esperança para passar o tempo, "é muito longe" cuspia eu, mal educado como sempre, e tu "não", seco, "mas olha, tens a certeza que é por aqui", nem te dignavas com uma resposta e continuavas a tilintar as duas moedas de ouro na mão, espalhando o teu perfume inebriante pelo vale, em passos seguros, contornando as crateras da minha língua.
"é ali" e estacaste, "toma, entrega-as e vai". desci até à margem e saltei para o cais, estava com os pés em farrapos, dei as moedas ao barqueiro e segui viagem.
J
um bicho estranho
via ao longe os campos de batalha,
os rostos desfigurados,
esmigalhados no lodo pelas lagartas dos tanques,
fumegantes pedaços carbonizados de seres,
amontoados sob a luz do luar,
vencedores, prémio: a paz!
e via os humanos a consumir a carne dos seus compatriotas,
partilhar, sem conseguir um osso, egoístas.
e tu deixaste-o escapar.
J
banquete
Deitava-se a meu lado, toda a noite,
resplandecia naquelas fotografias engasgadas,
e rasgava-as com os dentes.
As chamas transformavam-lhe a pele sedosa,
macia, branca tez,
em bolhas lentamente afeiçoadas, claras,
que rebentavam na carne fétida,
e sorria,
face caveira, imponente,
dona do tempo, e imortal,
fácil, e fazia sentir-me tão bem.
Aqueles longos beijos,
com o pus que me deglutia a língua, ácido,
de olhos sem fundo,
apenas a escuridão imensa, esmagadora,
noite eterna, avassaladora,
abraçava-me,
obrigando-me a sentir todos os pedaços,
estilhaços do seu corpo,
vasos sanguíneos, implodidos,
naquela pasta lamacenta, verde,
enquanto que lhe lambia a ponta dos dedos,
e gostava.
Condizia com o sítio,
sangrando sem controlo,
toda a rapidez da vida a cada investida,
naquele lodo espesso,
das chamas que lhe subiam pelas costas,
e fazíamos amor,
trocando os dentes podres pelas palavras,
embriagados, exaustos - os nossos sexos,
sem consolo, naquela eternidade.
Deglutir a carne gasta,
numa só dentada,
cortar a tenra gordura,
naquele tom roxo, doente,
de prazo expirado,
por onde a vida passou os esguios dedos em tempos,
segredando confissões de amor descuidado,
em lentos jogos de azar,
na mesma mesa de autópsias,
naquela igreja morgue,
onde apenas o primeiro corte nos faz sentir vivos.
E vi-te mudar em ti.
Especialmente dócil, a fragrância,
aquele banquete,
deitados na terra de flores pintada,
abraços e outros artigos perdidos,
ao acaso,
em brincadeiras de sombras de luz,
algo bom, ocaso.
Como se tu nunca, tivesses tido essas asas.
J
Um dia a ponte caíu

E começámos a descer, tentando cortar aquela nuvem de pessoas.
Descemos dali, empoleirados naquele inferno estanque, deixando para trás aquela lágrima de pessoas que agora, mais do que nunca, insistia em verter o seu sal no enlameado Tejo.
Famílias inteiras reuniam-se ali, pessoas frágeis que se havia despedaçado naquela manhã e que em silêncio, por dentro, escolhiam experimentar aquele ardor nos olhos, como se fosse a primeira vez na vida, sem cuidados ou espécies de etiquetas, tornadas despojos de guerra, assistindo à distância de uma nesga de vento.
Acotovelavam-nos quando tentávamos sair dali. O rio parecia ter galgado o cais e inundado o largo de Cacilhas com milhares das suas gotas. E mais se aproximavam ao longe.
E chovia, começava a chover. Uma brisa leve trazia todo aquele vapor até nós, encharcando tudo, até às entranhas, naquele piscar de olhos.
Não era fácil atravessar. Mães de poucos anos choravam pelos recentes maridos que decerto já teriam iniciado a labuta diária, deixando-as com o miúdo de um dia para criar, sem aviso; e outros gritavam euforicamente, como se tivessem perdido os sentidos e encarnado outro espírito, decepcionado em convulsões furiosas que lhes tomava o corpo.
Naquilo, uma mulher permanecia calma, ali, diante de nós, bloqueando-nos a passagem com os olhos perdidos nalgum sonho distante, segurando um lenço vermelho, trapo enrugado entre as mãos, detida, sem se importar com a água que lhe escorria para o canto da boca, imóvel, de cabelos escuros, talvez pretos, que lhe caíam dos ombros para as mãos cruzadas em sinal, reza sagrada.
Torcia os dedos com força, procurando a gentil força superior que a havia abandonado, frágil e sozinha, fitando a vida engolida pelo Tejo furioso. E caía, brusca, de joelhos despedaçados em estilhaços mil, vidro, espelho da alma esmagada pelo sentimento fulminante das recordações - da sua família suponho - destruídas naquela manhã, perpétuo momento, e para o resto da sua vida aquela chuva iria insistir, cair.
Tentávamos atravessar aquele delírio de dor, caminhando contra a maré daquela multidão. Era tempo de recomeçar, bastava de sal nas nossas chagas.
* Lamento, sei que está curto, para a próxima sai a dobrar *
J
velha cigana
deslocava-se mais leve que o ar,
rodeando a mística montanha que rompia o céu,
por detrás das verdejantes paisagens
- imaginárias pinceladas que lhe pendiam dos dedos
em direcção aos sonhos deste sítio,
abandonando a devastação e caos,
no terror infligindo àqueles que trabalham a terra,
com o suór das noites em branco.
descansavam nos beirais das suas casas,
e observavam como aquela nuvem,
rápida, de um negro espesso,
que se atravessava no seu caminho,
e chamava-os, com as lâminas que rasgavam o solo,
para as verdades que desciam com o vento,
daquelas tingidas a mel, com sabor a azul,
em sufrágios daquelas oligarquias,
que sobravam ao tempo, fantásticas.
regavam os copos verdes de cervejas,
festins e fogueiras bradavam aos céus,
com músicas que lhes dançavam pelas línguas,
observados pelas paredes que ostentavam cartazes,
- apocalipse ditado pelas mãos da cigana
nos melhores dos banquetes de carne tenra,
apoiados naqueles rios de vinho púrpura,
nos vinte e nove dias que restavam.
e a montanha não se intimidava,
apercebia-se, iria perder a sua mulher,
e as notas soltas que ecoavam pela noite,
mi sustenidos ligavam o passado ao presente,
abandonados naqueles campos relvados até ao firmamento,
de onde observávamos tudo, tranquilos,
sem questionar o paradoxo.
J
jeux d'amour
Rodrigo Leão - Jeux d'Amour
dançavam juntos, ao som dos seus beijos, naquela sala, quarto perfumado a tabaco, cujo fumo balançava pelas frestas da luz que espreitava à janela. calmos, intocáveis naquele momento que recuava até ao futuro, sem esperarem pela música, sentiam apenas os seus corpos, enganados um no outro, com as pernas que se trocavam, revezavam, desfazendo os nós complicados dos fios que lhes pendiam sobre as cabeças, de olhos despidos para dentro, rasgavam os dentes na carne que lhes pertencia, era sua, mastigando cada palavra que lhes salivava da boca, animais que desapareciam numa sombra, pintados numa parede, de asas no tecto, eram anjos, demónios, electricidade viva, intensa, ligação tremenda à vida, rápida, naquela lenta maneira com que se desejavam, com que desejavam poder acabar tudo ali, num golpe fatal, a fuga.
e ela despia-o, calma, serena, deitados, rastejando um no outro, deitados na carpete rubra, trocando os olhos pelos dedos, naquele mito de corpos embalsamados pelo passado, larvas que se metamorfoseavam naqueles casulos, por dentro e para dentro, onde tudo o que ficava para trás partia para longe, lentamente, numa carícia.
ele jantava e saciava-se, lentamente descobria a razão para a qual tinha recebido a dávida da vida, imitando seres celestiais e despia-a, frágil, escondida nas sombras da luz, mas de tão viva imagem, daquelas vidas que haviam deixado para trás, reconhecendo-se mutuamente naquele estranho espaço e tempo, mesmo passados tantos anos. e ambos conheciam ainda o caminho a seguir.
seria louco se não seguisse os seus olhos.
J
they're not gonna happen
you paint yourself white
and fill up with noise
but there'll be something missing
now that you've found it, it's gone
now that you feel it, you don't
you've gone off the rails
so don't get any big ideas
they're not going to happen
you'll go to hell for what your dirty mind is thinking
tela branca

deixado para trás, para morrer, levantava-se uma e outra vez, fustigado pelo vento e a areia que lhe fendia a face, caía morto apenas para erguer-se uma e outra vez, sem vergonha de resistir à vida que lhe negavam, entregue a si mesmo. tropeçava nos passsos, enquanto que seguia caminho, decidido a percorrer aquele deserto sangrando a noite nos olhos, chupando as bolhas que lhe estalavam nos lábios, queimaduras, nas quebras de equilíbrio que o empurravam para baixo, dificultando a respiração, e tremiam-lhe os dedos. era difícil distinguir os trapos do ser humano. e lembrava-se do medo ilusório, parábola seca, daquela catarse que o guiava - e as sardas que pintavam o céu.
guiava o instinto até à tela branca, para que ele a pintasse de cor única, a dela.
J
matar a fome
para matar a fome, engana-se o vernáculo,
e despimos a língua de consciência,
injectam-se grandes quantidades de barbitúricos,
- daqueles bons, p'r'ás dores
e rezamos uns terços.
não há coisa mais bela que o amor incondicional, aquele que se dá sem troca, sem uma experiência prévia, que apenas nasce, cresce e que é colhido no mesmo instante, maduro, sem bicho, sem fertilizantes ou aditivos - apenas é. um gajo perde-se demasiado a contar os nós do novelo, à procura do início daquele amontoado de condutas, sem dar conta de que o novelo já se desfiou p'lo chão, atando os nossos pés que, ao mínimo movimento, rodopiam no mesmo sítio, para cairmos de boca, incrédulos.
podendo até estar errado,
ergueu a taça e cantou vitória,
e quando terminou, cansado,
sentiu-se vil, escória.
gostava de te roubar um naco, daqueles quentes, pegar na lâmina e na pedra de amolar, esfregar fricção esfregar, esticar a carne e lentamente ir cortando pedaços, fartos, e deixá-los caír para o pires do balcão, com duas fatias de pão, para a marmita do almoço e jantar, ceia eternidade, daquela carne doce, salgada, com sabor picante no peito, ou daquele açúcar que se derrete na boca - o teu ventre - até não sobrar nada, de pança cheia e pleno, sempre com fome por mais.
naqueles abraços, apertos,
na saliva segregada quente,
nos lenhos arrancados do pescoço,
nasceste bela, de dentro para fora,
entregue às nuvens de fósforos,
que queimam
- fulcral
queimam sem perguntar se,
e guardamos para dentro a incerteza,
dos 29 anos passados
naquele piscar de olhos.
_te!
J
um raro momento
Jimi Hendrix - Castles Made of Sand
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Beijei-lhe os lábios secos,
despedaçados, naquele fétido e espesso líquido vil,
e abracei de morte o ranger dos ossos gastos,
naquele banho de certeza rasa,
onde os muros caíram por terra.
colaram cartazes e penduraram espantalhos nas ruas,
queimaram efígies e bandeiras de sonhos roubados,
crianças brincavam com o fogo das montras,
naquelas linhas de sangue que escorriam das folhas, das árvores,
estrangulados na visão do próximo dia, especial,
dia de cortar a pele, com lâmina brilhante, fina.
- e curtiam a pele com areia, na bancada fria, batendo-lhe com a vontade que só uma criança tem, esticando e puxando-a, para depois a meterem a secar.
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era tarde e pensava,
- como tirar aquele tumor da cabeça
forçar os dedos pelos olhos,
sentir cada célula a desfazer-se,
observar as córneas, curioso, a tomarem a forma do vácuo pressionado,
criado num instante de nirvana, aquele clímax,
onde perguntamos se estamos mortos mas respiramos,
se estamos mortos e vivemos,
e extraí-lo cuidadosamente, carinhosamente,
deixá-lo crescer noutro corpo,
vivo, noutro corpo menos morto.
sentir o negro dos olhos d'Ela, e alistar-me no exército,
pronto para Ela, fácil, experimentado, e com Ela,
sem ambições, com 31 horas de exercícios, recruta,
- a pura sobrevivência.
J
para quem quiser aparecer

entrem em contacto comigo para mais detalhes. promete-se uma noite de piadas secas e tremoços, intercalados com salada de polvo e choco frito, tinto e minis, sangria desatada e mortes morridas.
J
Teresa
The Doors - LA Woman
- e tudo cai em ordem perfeita,
num peito apressado, com fúria e mais,
onde sabemos que a estrada termina,
naquele precipício que nos rasga o ventre,
empurrando a saliva dos dentes,
gulosos por mais.
- podendo parecer perfeito,
são ondas que rebentam no areal,
explosões de cores e braços que se agarram,
embaraçados nos cabelos que nos levam,
elevam a um passado próximo,
irreal sonho na verdade banal,
deixada no ocaso de mais um beijo roubado.
são lágrimas que nos separam,
aquelas que descem dos céus,
minguando os riachos e oceanos,
bravos, nos nossos olhos,
naquela verdade, de garganta decepada,
naquela verdade enganada.
a impossibilidade do impossível,
improbabilidade, choque entre cometas,
largados à deriva, à distância de uma estrela,
em 31 órbitas, esganadas,
na queda em chamas, crash and burn.
J
apetece-me
escrever no meu blog. porquê? porque me apetece.
queria escolher as carícias que me fazem tremer o corpo, daquelas recheadas com doce, talvez rebuçados, assim com pó de estrelas por cima, mergulhadas em fios de dedos, e sabor a pouco.
gostava dos tropeções trôpegos, aqueles com o sal que nos estalava dos dedos, estátuas estáticas entrelaçadas enquanto estrelas estranhas naquela névoa cósmica.
J
uma existência vaga
Tool - Vicarious
comes merda às colheres, deve ser isso. drama queen.
olha para aqui, longe, vês? não não, não é isso, rasga essas cartas e lê esta, não leias as entrelinhas escondidas no sexo e nas veias que rasgo a cada sílaba que te sai da boca trémula, elas não estão lá. lê aquilo que te digo, escrevo ou como preferires - não importa, mas lê! - não achas que já chega de voos pelo infinito que nos separa, e enfrentares a realidade enterrada na merda que criámos, entrelaçados naquelas noites em que nos separávamos naquele sexo delicioso? porque insistes? porque tentas recuar para paisagens que nunca visitámos, nem mesmo quando te escorria metade de mim pela boca.
tentei chegar até aqui e foi difícil - o diabo e deus divertiram-se, sem dúvida alguma - não deites tudo a perder com clichés baratos. não preciso de mais amigos, de conforto que se escreve com todas as letras na minha pele, roendo-me a carne com a luz negra das mentiras que tatuas cá dentro, caralho, sorri e sê feliz com a existência vaga que deixaste.
saio pela porta e acendem-se as luzes, o espectáculo é teu.
deixaste cair as tentações que eram minhas - e deixa-me - reage, reage fodasse. minha, és minha, e não tentes ignorar o simples facto de que ÉS MINHA. e acredita, que a tua hora irá chegar, hoje ou amanhã, amanhã provavelmente, embrulhada em mais vinho que tinge os nossos olhos de vermelho a cada trago, abençoando o doce sono que procuro.
deixa-me, embrulha as tuas roupas caras e sai. que venha a luz, ou a falta dela. farto da madrugada rosácea, minha, no lusco fusco reencarnado, e do salve-se quem puder.
J
como ovelhas

Saber que se morre, devagar naquela morte lenta.
subia-se o monte devagar, passeando pelas nuvens acima, regadas pelos ventos da primavera, que empurrava aqueles dias de sol para as nossas mãos, sempre a construir castelos e a criar maremotos nas nossas guerras de piratas, lembram-se?
corria o mundo para nós, naquela vasta ideia de não termos dono, sermos livres e senhores absolutos, de todas aquelas chagas que transportamos mais tarde, entediados da vida e daquilo que nos oferece, demasiado embriagados para nos recordarmos que os castelos se constroem nas areias das praias que conquistamos e não nas margens das nossas impenetráveis ilhas, bolhas de bolor e pús, que cimentamos a cada passada larga para a cova.
quando velejávamos rio judas abaixo, pelas nesgas de relva que brotavam dos pântanos, reino de pijamas e de capas gastas, em buscas por tesouros por ali perdidos, caveiras e restos de outros vilões ali enterrados, perdidos na busca necessária em tornar a vida misteriosa e rápida, sem distracções daquilo que importa, descíamos o rio de sorriso nos lábios.
naquelas tardes, enchíamos os balões d'água que trazíamos nos bolsos rotos, cheios de cromos e berlindes, escudos e espadas, talvez um rebuçado ou outro - o tal dente fácil, e naquele sol que brilhava forte para nós, descarregávamos aqueles gritos de guerra, batalhas em planícies deitadas de barriga para cima, pela noite dentro, em sonhos e outros jogos.
trazíamos a vida nas feridas com crosta nos joelhos raspados e nas mãos pretas de terra. como é que passámos disto para ovelhas à espera do matadouro?
huh. eu sei eu sei!
J
Paz & algo mais
Ela queria vê-lo nu. Despia-lhe a língua primeiro, roubando a atenção dos olhos, vagamente lembrando-o da razão de estar vivo, saboreando cada momento de vitória daquele jogo de resultado viciado. Esperava ele pela ordem última, entrega cega e embriagada naquele doce momento que julgava seu, campo de batalha do qual julgava ser general imperador.
Os dedos dela vergavam-no à sua vontade, imaginando-a sua, acreditando naquela mentira folgada, fugaz névoa que lhe rasgava as roupas - és minha - dizia ele, encostando-a à parede, enquanto que ela lhe negava os lábios carnudos, rindo-se lasciva, guiando-lhe a boca para o pescoço, aquele deleite de carne viva, sentir-lhe o coração bater, o aroma de ópio, em afogamento selectivo.
Havia razões para acreditar. As pernas esforçadas desfaleciam, o sangue corria quente pelas veias, conseguia sentir a vida largar amarras lentamente, com destinos mais a sul, enganado pela vulva, rubor, mergulhando a língua, lentamente sufocando a morte dos lábios. Os joelhos tremiam-lhe, olhos fechados, focados, e ela prendia-o ali, naquele éden de pernas, suor, o animal humano, frágil pulsação carmim, comandando o exército de sensações que lhe tomavam o corpo, empurrando-lhe os dedos para dentro, contorcendo-se em mil sombras, flashes de uma sobrevivente, naquele seu escravo que a bebia à velocidade a que ela mentia.
Sorria, o plano era perfeito. A verdade, e mordia os lábios, e ele fácil, de dedos e músculo, a saliva junta naquele muco espesso que os pintava de luz, a cada sombra que passava. Era dela, até ao clímax, uma e outra vez, dobrava-se sem vontade, sem força para resistir às ondas de prazer que lhe atravessavam o corpo, rápidas, mas lentas, frágeis, mas esmagadoras, e era bom, era tão bom. Dançava com a sua sombra, pintando um dragão no tecto daquele quarto.
Cansada, não precisava mais dele, gasto. Cansada, contou-lhe toda a verdade, num só golpe, a mão erguida, braço estendido e o luminoso reflexo da lâmina à luz, desferida na jugular. A verdade, cansada, esvaía-se a seus pés, sangue, lentamente enganado, com um sorriso nos lábios, morto.
J
bolas ao poste, tipo isaías
Aquele sorriso que usaste ontem ficava-te bem, quando me fazias o relato do jogo, erguendo o cachecol do benfica alto, e vê-lo voando ao vento, respirando toda aquela tensão grave, que me lembrava o quão mortos que estávamos.
Foi uma bela tarde, recheada de golos e bolas à trave. Fintámos umas boas conversas. Fiquei triste quando me mostraste o teu cartão de sócia do Sporting.
Foi uma rasteira à entrada da área, e eu caí, feito um joão vieira pinto de outros tempos. Incrível a maneira de como driblaste aquela bola para fora de jogo. Nem o São Costa me valeu.
paz!
J
esplanada
como o sol brilha, lânguido o sabor que te deixa nos ombros: aquele gin tónico escorregava tão bem.
Paz & Amor
Sentia a falta do doce ronronar do metal da ponte, saudades daquelas ruas ásperas que serpenteavam através do coração da cidade. Havia noites em que me segurava perto da janela, enquanto que ela olhava para mim, gulosa, à espera do momento certo para se saciar, em lentos movimentos da minha carne quente. Apagava o cigarro e respirava fundo, projectava a cabeça para trás e começava, primeiro a mão na perna, pouco acima do joelho, com os dedos - os malandros - a sentirem o todo do interior da minha côxa, e suava. Aquele ritual era tudo para ela.
A mão direita juntava-se também, bem aberta, com os dedos garra, acariciando com fervor o meu escroto, ao de cima das calças, tentando acordar o resto do corpo - e conseguindo-o. Os seus olhos famintos, abriam-se e brilhavam ao sentir cada investida do acordar da pila latejante, dormente, em espasmos de prazer e calor, que lhe diziam - é hora.
Olhava-me nos olhos. As suas mãos já me desabotoavam as calças, e os joelhos dela, no chão, com os ombros apoiados nas minhas pernas, a separá-las, violenta, para não se intrometerem entre ela e aquele naco quente, delícia que já fervilhava nas suas hábeis mãos, carne ansiosa por carne e o êxtase da sua língua provava-o.
A cidade olhava-nos curiosa, feliz, com o desfecho anunciado.
Ela começava sempre de baixo para cima, escorregando a sua língua pelas veias salientes que esperavam já a sua respiração quente, ofegante, que me arrancava em pedaços, rasgado e torcido, cuspido naquela fracção de segundo, e segurava-lhe o cabelo com força, convicto, para não me perder no feitiço daqueles olhos que me reflectiam, moribundo.
Segurava-me com as duas mãos e começava, primeiro lenta, naquela dança cíclica, embalo fácil da maré da sua saliva que lhe escorria pelos lábios, abundantemente, queimando-me em todas as ondas, letárgicas, quando embatiam de encontro ao prepúcio saliente e inchado, pintado rubro por todos os nervos daquela língua que brincava e atiçava fogo que ardia ali, entre nós.
Os pelos na nuca eriçavam-se, os espamos tornavam-se gemidos e o olhar inocente, a metamorfose da imperadora meretriz, concubina da carne que fraquejava a cada carícia, cada vez mais violenta, rápida para ser frenética, e os dedos cravavam-se fundo no parapeito da janela, com vertigens daquele vôo alto - e ela gemia e gostava, pedia mais e gostava, rasgava-me a carne naquela corrida pelas portas do inferno e gostava, perdia o controlo e gostava, afundava a boca em naufrágios sem âncora, uma e outra vez, feita tempestade a embater naqule farol, fálico, e gostava de sentir a saliva quente que lhe sobejava, soberba.
Escorria-lhe o meu esperma quente nos lábios e gostava, abandonada à sua sorte.
Puxei calmamente o meu casaco, clímax, e tirei a glock do bolso, fácil, encostando o frio metal do cano àquelas bochechas saudáveis e rosadas, e sorvia lenta, olhou-me brincalhona, no instante antes, e puxei o gatilho.
J
passes milimétricos
podia perder o meu tempo a falar da bola, de como o rui finta tudo e todos, naquelas jogadas cheias de mestria e raça, passes milimétricos, misseis de precisão, o terror em qualquer campo inimigo, onde qualquer soldado com dois dedos de testa borra as calças, especialmente quando sente os tomates apertados pela ínfima probabilidade de sobrevivência à guerra que vem até ele, não porque ele a procura, mas porque não lhe pode escapar, é inevitável, contam assim os tempos, os longínquos e os mais recentes.
mas não o vou fazer.
podia até contar-vos das noites em que me perdia sem olhar para trás, agarrado àquelas belas pernas até ao infinito horizonte que se nos revelava pela noite dentro, enquanto que os contentores do lixo eram levados pelos homens que o tiravam da rua, embalados naquela recôndita profissão que todos preferimos esquecer ou olhar de lado, seja pelo cheiro ou pela indiferença, nojo, os restos humanos de uma prostituta.
mas também não o vou fazer.
vou simplesmente deitar a cabeça - está pesada - naquela almofada que tenho desde os meus 3 anos, e mordiscar n'algo para adormecer. roer os pulsos quiçá.
J

