John Lee Hooker - Hobo Blues
J
ele havia levantado a taça para comemorar o seu aniversário, corsário, gozava o sol como quem goza uma cerveja no fim de um longo dia de trabalho, descansado, com a luz do entardecer, dourado, num outono profundo. Levantava a taça e cantava, dizia, mentia a si próprio, de como havia de comemorar mais aniverários, rodeado de amigos, de gente que lhe cantavam as mais doces verdades, criadas naquele momento, reveladas no negativo das fotografias que lhe tiravam naquelas máquinas antiquadas que ainda usavam potássio e alumínio, sorrisos de alumínio, vagos, que lhe lembravam o calor do fim do dia no outono, quente, delicioso, tão belo e tão, tão certo.
deixava para o fim os presentes, as facas que escondia na face, desleixadas, rombas, com a ferrugem que tingia o bolor das suas pernas, enfraquecidas, ocasos da infância que se debruçava à mesa, com desdém pelas vagas lembranças que, vinha, -se, sem mistério.
balouçar incómodo, um actor desajeitado a fazer pela vida, sem saber todas as as as as as as linhas do papel, engasgado pelo guião que o fazia sentar, colado à pele, cabedal barato, vinil, entre as feridas que lhe nasciam nas virilhas, brotavam santificadas pelas palavras que tranquilizavam a todos, estas: calmas pessoas que nos abordam na vida, que nos perguntam quando pensamos deixar ou desocupar a vida, pois estão com pressa, muita, de sede -> revolta -> amarga, e ainda lhes cheira a gasolina.
e dançavas como se fosse para mim.
um texto que se escrevia na parede seca, regada de vinho verde, na véspera da colheita, sem poder escapar, sem luta desistia facilmente.
recuava dois passos e dizia que estava tudo bem. as suas velas hasteavam dor q.b. naquela viagem só de ida que nos deixava a todos rias laços na garganta púrpura, deixados ao acaso da vida.
rebolávamos por entre as cobertas, nas frestas da luz do sol que era sobejo no teu cabelo, soberbo. Acalmava-me.
e seguíamos destino adentro, por entre as frestas da solidão, amparados no carinho da chuva,
na vida que nos sobrava,
de mãos dadas, entregues ao mundo,
de incentivos frágeis,
na distância fácil das carroças que passavam,
a melodia difícil que me escapava.
estrondoso o eco que despejava a vida por cima de nós, forte, como um tumulto entre a multidão, sem qualquer razão, apenas o profundo desejo carmim, muy bueno, da alma estelar deixada ao acaso.
e dormia. deitava-me e dormia. as coisas aconteciam à minha volta, vagaroso, tornavam-se vivas, para sul, enjauladas no sonho com significado, com a importância urgente do mundo, e embarcávamos de amarras soltas.
amar o teu amor, junto ao fim do mundo, precipício vertiginoso, de mergulho no tempo intacto das estações da nossa infância, lembras-te? pés descalços na areia quente, entre beijos teimosos e a plenitude errada das carícias que desfaziam a ganância do tempo, preguiçoso, entre ventos,
e subia a maré errada.
quando acordava, sabia-te nas minhas mãos. era tudo o que tinha sem verdade. apenas era. sabes? corrigia o texto rapidamente e entregava-o dactilografado a linha e meia, na antiga máquina de escrever que usava no teu corpo, o verão da minha consciência.
descobria a mensagem que usava para abandonar toda a fé e esperança, a intíma saudade do vento.
debruçava uma leve história que roçava os teus lábios, vergados ao sabor da alma, clandestinos da noite vaga, da memória vaga, em mim, na vaga que se levanta no horizonte, deslumbrante em toda a sua mortalidade, rápida ascensão à vã lembrança, memória AZUL do fundo do tempo, essa garrafa sem fundo que bebo sem perguntas, para sempre AZUL e para todo o sempre AZUL, algo escondido, na verdade.
senti-te.
J
Cidadão do mundo e arredores.
Sem pouso certo, vai-se seguindo a maré.
Procura-se companhia nas viagens.
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Obrigadinho.
