Conto (mini)

quarta-feira, 18 de junho de 2008 às 15:27

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Quando a noite desceu no bosque, as bruxas saíram para cantar à lua cheia. Os demónios acompanhavam-nas num sussurro sibilante que lhes iluminava os corpos. Corriam por entre as trevas que as árvores protegiam, desprovidas de qualquer vestuário, com os seus seios voluptuosos pintados com as cores do sol. A mais bonita, de cabelos negros capazes de fazer corar qualquer abismo, dançava sem parar, absorvida pelo espirito maléfico da noite. Bruscamente, do meio do arvoredo, eis que surge uma luz intensa e poderosa donde nasce o filho das trevas, que assume a forma de dragão. Este colosso dourado, com os olhos vermelhos de fogo, preparava-se para comer a refeição que as bruxas lhe haviam prometido, a filha do rei. Esta encontrava-se desmaiada, deitada num altar de pedra, nua, com os seus longos cabelos que reflectiam o ouro mais puro a cobrirem-lhe os seios, que eram desejados por todos os homens do reino. A sua virgindade iria garantir a renovação dos poderes do monstro que a contemplava gulosamente. Nisto, o nosso herói sai do escuro para matar o dragão. A sua armadura, feita de asas de anjo, iluminava toda aquela escuridão, cegando mesmo o dragão. As bruxas caíram, uma a uma, pela lâmina da sua espada, que parecia sorver o sangue das suas vitimas. A mais bonita de todas as bruxas conseguiu fugir, colocando-se por detrás do altar, sufocada por toda aquela emoção. Quando o jovem guerreiro se preparava para atingi-la, pronto para executá-la com a sua lâmina, os seus olhares cruzaram-se e as suas mãos tocaram-se. A lâmina caiu com um estrondo, desfazendo-se em pó, enquanto que a bruxa e o nosso herói se tocavam, apaixonadamente. O dragão tinha desaparecido, receando aquele amor repentino. O sol ameaçava já romper as trevas e a jovem princesa havia fugido daquele cenário, aventurando-se pelos caminhos proibidos, onde os salteadores saqueavam e violavam as suas vitimas. O guerreiro e a bruxa uniram-se num amor eterno, transformados em pedra com a luz do sol. Agora, as bruxas reúnem-se de volta deles todas as luas cheias, nuas e puras, para celebrar o amor.

O sonho é uma das características mais importantes do homem. Sem sonhos ele não é ninguém. Se o homem não se atrever a sonhar e a conquistar esse sonho, ele nunca ganhará a (dita) experiência da vida. Morrerá arrependido de ter nascido. Nunca poderá ver-se privado de algo, nunca conseguirá viver.


J circa 1997

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