
em castelo branco regam-se as nuvens com o suor das mãos, enquanto se carregam as vidas de cima para baixo, na azáfama desconhecida que resguardamos no corpo do outro que se deita ao nosso lado, esta noite e as outras que lhe antecederam, enrolados no fastio da cidade farta e gasta, solta-se sem querer um abraço que nos atira p'lo ar.
J + LA Woman @ CB
to coda
soporífero forte
Velha verdade queimada viva, nas sombras que engoliam as tuas palavras, escondida na leve brisa, soporífero forte, que emanava aquele ardor grave, pendor que balançava nas nossas cabeças, leve, pronto para desferir o golpe final, sempre pronto e hesitante, espreitava a mínima falha na enorme esfera de metal polido que explodia a cada instante, frágil, em mentiras, as tuas.
E hoje, esta noite estamos mais perto de casa, neste bólide vermelho que navega as estradas à velocidade da luz, pelos mapas deitados por terra que indicavam o caminho para lado nenhum, esvaídos de qualquer consciência, boa ou má - e agarravas o volante com força, sangravas dos olhos, rindo histérica, com os lábios rasgados através da tua face, fantasma negro, pintada de cabelos que flutuavam etéreos na tua caveira pálida.
Caías em mentiras, uma e outra vez.
Velha verdade vem até mim,
abraça-me rasgada, soberba na noite que me acaricia e que me leva até ti,
velha verdade vem até mim,
segura-me as mãos e ajuda-me a rezar, limpa-me as feridas abertas com sal,
velha, vem até mim,
fica comigo e mostra-me o teu negro interior, deixa-me beijar a tua carcaça gasta,
vem até mim,
rompe a luz com o teu manto e leva-me.
Deixa-me lamber-te os dedos e rugir o teu nome de baioneta em punho,
estou cansado do cheiro da pólvora que ainda estala nos meus ouvidos,
daquelas batalhas que pintam os amantes com negros corações,
trata-me bem e lembra-te de mim, eu esqueço-me, vem-me buscar.
Derruba os muros, vem lesta e ágil, pelas trevas do amanhecer,
embrulhada nas boas novas, nos trovões que hesitam em cair dos céus,
traz contigo as vinte-e-nova lâminas para um festim com os meus ossos,
ardem alto as fogueiras da saudade pelos teus lábios, de outros tempos.
J
onde termina
debruço-me na cama e ela, enquanto veste aquela pele que lhe fica tão bem. brincávamos ao lobo e ovelha como dois adolescentes, vezes e vezes sem conta, sem nunca, não nos fartávamos, sem nunca saber bem quem segurava o cutelo e de quem era a carne que sangrava nos lençóis.
não sei por onde começou, mas onde termina,
sei, apenas sei que não errei,
torcendo os dedos na busca da última gota,
o suór de vinte-e-nove buracos negros,
- étecetera, étecetera.
flores, lilases, a gravata negra,
guardadas, as luvas brancas na caixa,
cartas empilhadas num canto da casa,
o cigarro que não arde,
as árvores que sopram o vento,
maré que não sobe por medo,
desligada do cimento frio,
as marcas da velocidade no alcatrão preto,
pedras do passeio que piscam os olhos,
à deriva, à deriva,
e eu sei que não faço ideia,
na espada veloz que decepa o ar,
que corta as asas dos anjos,
disfarçados de relógios de parede,
tique, toque, tique, traque,
livros que caiem das estantes e rodopio,
- vertigem a vinte-e-nove metros do mar
queda de joelhos,
a tosse infernal na perca de sentidos iminente,
estamos vivos.
sustém as ligaduras, apertadas em laço bonito,
e embrulha as caveiras no saco tenso,
deixa de reagir, despe-te, é fácil,
pinta o corpo com o cheiro do sexo banal,
e agora que te encontraste,
imagina os soldados que partem para a guerra,
que conquistam planetas púrpuras,
viajando pelas palmas das mãos,
vendendo medalhas e pechisbeques,
cuspindo fogo de saltimbancos,
naqueles jornais de vinte-e-nove exemplares,
cada um tingido, na cor que quiseres.
esconderam os tesouros no fundo do mar,
abandonados à chuva que irrompe pelas portas,
sem que ninguém saiba, sem aviso,
e só tu podias crer na viagem das aves que rumam ao sul,
quando éramos devorados pelos tentáculos gelatinosos da verdade,
perdidos nas vagas que se formavam ao longe,
nas prisões perdidas no deserto dos vinte-e-nove olhos,
deitando abaixo todas as miragens,
esperançosos, a realidade de sorriso amarelo.
J
banquete
Deitava-se a meu lado, toda a noite,
resplandecia naquelas fotografias engasgadas,
e rasgava-as com os dentes.
As chamas transformavam-lhe a pele sedosa,
macia, branca tez,
em bolhas lentamente afeiçoadas, claras,
que rebentavam na carne fétida,
e sorria,
face caveira, imponente,
dona do tempo, e imortal,
fácil, e fazia sentir-me tão bem.
Aqueles longos beijos,
com o pus que me deglutia a língua, ácido,
de olhos sem fundo,
apenas a escuridão imensa, esmagadora,
noite eterna, avassaladora,
abraçava-me,
obrigando-me a sentir todos os pedaços,
estilhaços do seu corpo,
vasos sanguíneos, implodidos,
naquela pasta lamacenta, verde,
enquanto que lhe lambia a ponta dos dedos,
e gostava.
Condizia com o sítio,
sangrando sem controlo,
toda a rapidez da vida a cada investida,
naquele lodo espesso,
das chamas que lhe subiam pelas costas,
e fazíamos amor,
trocando os dentes podres pelas palavras,
embriagados, exaustos - os nossos sexos,
sem consolo, naquela eternidade.
Deglutir a carne gasta,
numa só dentada,
cortar a tenra gordura,
naquele tom roxo, doente,
de prazo expirado,
por onde a vida passou os esguios dedos em tempos,
segredando confissões de amor descuidado,
em lentos jogos de azar,
na mesma mesa de autópsias,
naquela igreja morgue,
onde apenas o primeiro corte nos faz sentir vivos.
E vi-te mudar em ti.
Especialmente dócil, a fragrância,
aquele banquete,
deitados na terra de flores pintada,
abraços e outros artigos perdidos,
ao acaso,
em brincadeiras de sombras de luz,
algo bom, ocaso.
Como se tu nunca, tivesses tido essas asas.
J
jeux d'amour
Rodrigo Leão - Jeux d'Amour
dançavam juntos, ao som dos seus beijos, naquela sala, quarto perfumado a tabaco, cujo fumo balançava pelas frestas da luz que espreitava à janela. calmos, intocáveis naquele momento que recuava até ao futuro, sem esperarem pela música, sentiam apenas os seus corpos, enganados um no outro, com as pernas que se trocavam, revezavam, desfazendo os nós complicados dos fios que lhes pendiam sobre as cabeças, de olhos despidos para dentro, rasgavam os dentes na carne que lhes pertencia, era sua, mastigando cada palavra que lhes salivava da boca, animais que desapareciam numa sombra, pintados numa parede, de asas no tecto, eram anjos, demónios, electricidade viva, intensa, ligação tremenda à vida, rápida, naquela lenta maneira com que se desejavam, com que desejavam poder acabar tudo ali, num golpe fatal, a fuga.
e ela despia-o, calma, serena, deitados, rastejando um no outro, deitados na carpete rubra, trocando os olhos pelos dedos, naquele mito de corpos embalsamados pelo passado, larvas que se metamorfoseavam naqueles casulos, por dentro e para dentro, onde tudo o que ficava para trás partia para longe, lentamente, numa carícia.
ele jantava e saciava-se, lentamente descobria a razão para a qual tinha recebido a dávida da vida, imitando seres celestiais e despia-a, frágil, escondida nas sombras da luz, mas de tão viva imagem, daquelas vidas que haviam deixado para trás, reconhecendo-se mutuamente naquele estranho espaço e tempo, mesmo passados tantos anos. e ambos conheciam ainda o caminho a seguir.
seria louco se não seguisse os seus olhos.
J
they're not gonna happen
you paint yourself white
and fill up with noise
but there'll be something missing
now that you've found it, it's gone
now that you feel it, you don't
you've gone off the rails
so don't get any big ideas
they're not going to happen
you'll go to hell for what your dirty mind is thinking
Teresa
The Doors - LA Woman
- e tudo cai em ordem perfeita,
num peito apressado, com fúria e mais,
onde sabemos que a estrada termina,
naquele precipício que nos rasga o ventre,
empurrando a saliva dos dentes,
gulosos por mais.
- podendo parecer perfeito,
são ondas que rebentam no areal,
explosões de cores e braços que se agarram,
embaraçados nos cabelos que nos levam,
elevam a um passado próximo,
irreal sonho na verdade banal,
deixada no ocaso de mais um beijo roubado.
são lágrimas que nos separam,
aquelas que descem dos céus,
minguando os riachos e oceanos,
bravos, nos nossos olhos,
naquela verdade, de garganta decepada,
naquela verdade enganada.
a impossibilidade do impossível,
improbabilidade, choque entre cometas,
largados à deriva, à distância de uma estrela,
em 31 órbitas, esganadas,
na queda em chamas, crash and burn.
J
apetece-me
escrever no meu blog. porquê? porque me apetece.
queria escolher as carícias que me fazem tremer o corpo, daquelas recheadas com doce, talvez rebuçados, assim com pó de estrelas por cima, mergulhadas em fios de dedos, e sabor a pouco.
gostava dos tropeções trôpegos, aqueles com o sal que nos estalava dos dedos, estátuas estáticas entrelaçadas enquanto estrelas estranhas naquela névoa cósmica.
J
uma existência vaga
Tool - Vicarious
comes merda às colheres, deve ser isso. drama queen.
olha para aqui, longe, vês? não não, não é isso, rasga essas cartas e lê esta, não leias as entrelinhas escondidas no sexo e nas veias que rasgo a cada sílaba que te sai da boca trémula, elas não estão lá. lê aquilo que te digo, escrevo ou como preferires - não importa, mas lê! - não achas que já chega de voos pelo infinito que nos separa, e enfrentares a realidade enterrada na merda que criámos, entrelaçados naquelas noites em que nos separávamos naquele sexo delicioso? porque insistes? porque tentas recuar para paisagens que nunca visitámos, nem mesmo quando te escorria metade de mim pela boca.
tentei chegar até aqui e foi difícil - o diabo e deus divertiram-se, sem dúvida alguma - não deites tudo a perder com clichés baratos. não preciso de mais amigos, de conforto que se escreve com todas as letras na minha pele, roendo-me a carne com a luz negra das mentiras que tatuas cá dentro, caralho, sorri e sê feliz com a existência vaga que deixaste.
saio pela porta e acendem-se as luzes, o espectáculo é teu.
deixaste cair as tentações que eram minhas - e deixa-me - reage, reage fodasse. minha, és minha, e não tentes ignorar o simples facto de que ÉS MINHA. e acredita, que a tua hora irá chegar, hoje ou amanhã, amanhã provavelmente, embrulhada em mais vinho que tinge os nossos olhos de vermelho a cada trago, abençoando o doce sono que procuro.
deixa-me, embrulha as tuas roupas caras e sai. que venha a luz, ou a falta dela. farto da madrugada rosácea, minha, no lusco fusco reencarnado, e do salve-se quem puder.
J
Paz & algo mais
Ela queria vê-lo nu. Despia-lhe a língua primeiro, roubando a atenção dos olhos, vagamente lembrando-o da razão de estar vivo, saboreando cada momento de vitória daquele jogo de resultado viciado. Esperava ele pela ordem última, entrega cega e embriagada naquele doce momento que julgava seu, campo de batalha do qual julgava ser general imperador.
Os dedos dela vergavam-no à sua vontade, imaginando-a sua, acreditando naquela mentira folgada, fugaz névoa que lhe rasgava as roupas - és minha - dizia ele, encostando-a à parede, enquanto que ela lhe negava os lábios carnudos, rindo-se lasciva, guiando-lhe a boca para o pescoço, aquele deleite de carne viva, sentir-lhe o coração bater, o aroma de ópio, em afogamento selectivo.
Havia razões para acreditar. As pernas esforçadas desfaleciam, o sangue corria quente pelas veias, conseguia sentir a vida largar amarras lentamente, com destinos mais a sul, enganado pela vulva, rubor, mergulhando a língua, lentamente sufocando a morte dos lábios. Os joelhos tremiam-lhe, olhos fechados, focados, e ela prendia-o ali, naquele éden de pernas, suor, o animal humano, frágil pulsação carmim, comandando o exército de sensações que lhe tomavam o corpo, empurrando-lhe os dedos para dentro, contorcendo-se em mil sombras, flashes de uma sobrevivente, naquele seu escravo que a bebia à velocidade a que ela mentia.
Sorria, o plano era perfeito. A verdade, e mordia os lábios, e ele fácil, de dedos e músculo, a saliva junta naquele muco espesso que os pintava de luz, a cada sombra que passava. Era dela, até ao clímax, uma e outra vez, dobrava-se sem vontade, sem força para resistir às ondas de prazer que lhe atravessavam o corpo, rápidas, mas lentas, frágeis, mas esmagadoras, e era bom, era tão bom. Dançava com a sua sombra, pintando um dragão no tecto daquele quarto.
Cansada, não precisava mais dele, gasto. Cansada, contou-lhe toda a verdade, num só golpe, a mão erguida, braço estendido e o luminoso reflexo da lâmina à luz, desferida na jugular. A verdade, cansada, esvaía-se a seus pés, sangue, lentamente enganado, com um sorriso nos lábios, morto.
J
bolas ao poste, tipo isaías
Aquele sorriso que usaste ontem ficava-te bem, quando me fazias o relato do jogo, erguendo o cachecol do benfica alto, e vê-lo voando ao vento, respirando toda aquela tensão grave, que me lembrava o quão mortos que estávamos.
Foi uma bela tarde, recheada de golos e bolas à trave. Fintámos umas boas conversas. Fiquei triste quando me mostraste o teu cartão de sócia do Sporting.
Foi uma rasteira à entrada da área, e eu caí, feito um joão vieira pinto de outros tempos. Incrível a maneira de como driblaste aquela bola para fora de jogo. Nem o São Costa me valeu.
paz!
J
Paz & Amor
Sentia a falta do doce ronronar do metal da ponte, saudades daquelas ruas ásperas que serpenteavam através do coração da cidade. Havia noites em que me segurava perto da janela, enquanto que ela olhava para mim, gulosa, à espera do momento certo para se saciar, em lentos movimentos da minha carne quente. Apagava o cigarro e respirava fundo, projectava a cabeça para trás e começava, primeiro a mão na perna, pouco acima do joelho, com os dedos - os malandros - a sentirem o todo do interior da minha côxa, e suava. Aquele ritual era tudo para ela.
A mão direita juntava-se também, bem aberta, com os dedos garra, acariciando com fervor o meu escroto, ao de cima das calças, tentando acordar o resto do corpo - e conseguindo-o. Os seus olhos famintos, abriam-se e brilhavam ao sentir cada investida do acordar da pila latejante, dormente, em espasmos de prazer e calor, que lhe diziam - é hora.
Olhava-me nos olhos. As suas mãos já me desabotoavam as calças, e os joelhos dela, no chão, com os ombros apoiados nas minhas pernas, a separá-las, violenta, para não se intrometerem entre ela e aquele naco quente, delícia que já fervilhava nas suas hábeis mãos, carne ansiosa por carne e o êxtase da sua língua provava-o.
A cidade olhava-nos curiosa, feliz, com o desfecho anunciado.
Ela começava sempre de baixo para cima, escorregando a sua língua pelas veias salientes que esperavam já a sua respiração quente, ofegante, que me arrancava em pedaços, rasgado e torcido, cuspido naquela fracção de segundo, e segurava-lhe o cabelo com força, convicto, para não me perder no feitiço daqueles olhos que me reflectiam, moribundo.
Segurava-me com as duas mãos e começava, primeiro lenta, naquela dança cíclica, embalo fácil da maré da sua saliva que lhe escorria pelos lábios, abundantemente, queimando-me em todas as ondas, letárgicas, quando embatiam de encontro ao prepúcio saliente e inchado, pintado rubro por todos os nervos daquela língua que brincava e atiçava fogo que ardia ali, entre nós.
Os pelos na nuca eriçavam-se, os espamos tornavam-se gemidos e o olhar inocente, a metamorfose da imperadora meretriz, concubina da carne que fraquejava a cada carícia, cada vez mais violenta, rápida para ser frenética, e os dedos cravavam-se fundo no parapeito da janela, com vertigens daquele vôo alto - e ela gemia e gostava, pedia mais e gostava, rasgava-me a carne naquela corrida pelas portas do inferno e gostava, perdia o controlo e gostava, afundava a boca em naufrágios sem âncora, uma e outra vez, feita tempestade a embater naqule farol, fálico, e gostava de sentir a saliva quente que lhe sobejava, soberba.
Escorria-lhe o meu esperma quente nos lábios e gostava, abandonada à sua sorte.
Puxei calmamente o meu casaco, clímax, e tirei a glock do bolso, fácil, encostando o frio metal do cano àquelas bochechas saudáveis e rosadas, e sorvia lenta, olhou-me brincalhona, no instante antes, e puxei o gatilho.
J
já são horas se?
viajar a correr, a transcrever a realidade para sonhos, nas pétalas dos teus olhos, que nasceram mortas, caídas nas palmas das confidências, da confiança quebrada, o lacre selado pelos nossos lábios.
todas as cores incertas, a cada passo violento, deixando a pegada do tempo para trás, reagindo rápido e incessantemente à vida que queres para mim, nos fins do caminho e nas direcções pedidas, perdidos sem razão, fodasse a joie de vivre, quero tocar os teus cabelos e sentir o acre da terra na boca.
e descer, tecer os mais belos comentários nas tuas asas, deitados nas linhas que trocámos, escorregando lentos, nas sílabas que se engasgam, o destino salivante da merda em que insistes crer, a solução para a longa espera no apeadeiro, inconsciente, pancada seca na nuca, e os dentes que separam a língua-coração, deitado no cimento cansado, à espera de cantar, agora e já, aquilo que nos faz dançar.
viajar a correr, um pé à frente do outro, prova vertiginosa, um teste às capacidades sobre-humanas de desperdício, O TEMPO QUE DESPERDIÇÁMOS A OLHAR UM PARA O OUTRO NAQUELA RUA ILÍCITA QUE FAZIA O TEMPO ANDAR PARA TRÁS, adivinha, é para quem o quanto que queres, de bem ou mal, ninguém sabe.
despia a roupa quando,
e descia a rua,
perguntei ao velho que bradia para,
poderia dizer-me - já são horas se?
podia ser tudo aquilo que vier e, se deixar de ser. doente ou tanto faz, morto.
J
romance
Deftones - Passenger
rezamos todos por um outro, porque ninguém tenta ser surpreendido, as mãos suadas nervosas, um punhado de dentes espalhados no chão.
podia ser um daqueles dias, podias voar até ao outro lado da montanha, ver o espectáculo de luzes que te abate, migalhas estelares do cometa que foste em tempos áureos.
rasgados os sorrisos e as cartas que beijaste, segredos no vento, podias ter sido maior que a tua sombra e tentavas hipnotizar-me a cada passo.
segue bebendo, partirei antes da alvorada.
vou procurar uma resposta no mar, navegar feito espuma num abraço com o areal, procurar estrelas do mar e cometas, cruzar as ondas explorar os tesouros
Gostava de te poder mostrar os tesouros que se escondem enterrados nas palmas das mãos, nas linhas que contorcem as dunas do deserto, brilhantes demónios reflexos da vida que escolheste, quando decidiste envelhecer, apodrecer, fruto doce. Queres uma segunda oportunidade de ficar quieta, junto ao cais do tempo, a ver os navios que prosseguem viagem sem escala, sem nos esquecerem, levando notícias nossas a outros mundos. Lembra-te de mim quando envelheceres. Lembra-te dos nossos beijos quando morreres.
Queria poder levar o teu espírito para um último mergulho nas verdade que cobria o céu, com os nossos amigos vestidos de negro, de luto, todos de roda, as pétalas que descobrem o caminho até ao cemitério e toda a gente que te ama, sem receio.
Queria poder levar os teus dedos a descobrir a terra, esgravatar o sal na lama, de brincadeiras inocentes e risos fáceis, tranquilos, sujos no romance de uma vida, em escavar uma sepultura.
Queria poder levar-te flores, de todos os cantos do mundo, amarelas vermelhas azuis, vis lembranças da vida que se esgotou há muito dos teus olhos, vê, cheira o aroma acre da morte.
Queria poder levar a chuva até ti, para que pudesses dançar na tua loucura, debaixo das cerejeiras em flor, sem coração para a família, sem os tropeções que mataste na metáfora, nos milhões de coisas que amavas em mim, baile de máscaras, rodopios e cais fatigada, esgotada, e a torrente de sangue que te engole uma, indivisível para todo o sempre com o solo que te abraça firme, como o nosso último encontro.
Queria poder levar as minhas condolências, mas não te encontrei. Gostava que ainda aqui estivesses comigo. Sem arrependimentos.
J
umgajoperdido
levantou-se cedo. um dois um dois um dois, e eram umas seis, seis e meia da manhã. apalpou os lençóis, punhos secos, gretados, cérebro ainda meio desconjuntado.
estava doente, tossia, catarro, cheiro a bílis, vómito, era um asco. revistas e livros faziam de tapete, espalhados, ordenados um a um num caos pleno pelo chão do quarto. tentou acender a luz, em movimentos atabalhoados, à procura do interruptor, da claridade. larvas de ideias, tomavam os casulos e agitavam as asas multicoloridas, esvoaçando pela cabeça fora, ideias que iam e não voltavam.
- ouvi dizer que está frio lá fora.
- quem te contou?
a voz, surpresa, eco, actor factor translúcido da sua demência, anunciava a multidão que se agitava lentamente junto à cabeceira. o suor quente escorria pelas virilhas, irritava as pequenas borbulhas que se alastravam pelo corpo - de líquido amarelo as que ainda estavam por rebentar, um rio de pus as outras, de pele queimada e rubra, com cortes ensanguentados.
- vou voltar a dormir.
- eu não vou a lado nenhum.
huhuh.
J
burlesco
todos fingimos, despojados de esperança,
longe das comparações, de coroas criadas no momento de desprezo,
longe da luta, peluche querido,
ainda nos agarramos à lua cheia,
analgésico de toda a dor, que purga pesadelos,
e arranco o coração, veias e sangue que espirra descontrolado, que escorre pelas paredes, lexívia e o cheiro que não sangra, despedaçado em tempos que ainda me acordam todas as noites, em sôfregos nadas, passageiros de viagens esquecidas.
não consigo deixar de pensar que podíamos ter sido uma sombra, uma nuvem projectada na terra dos sonhos, cor-de-rosa, embelezados a folha d'ouro, criados para nosso contento, esmagados no nosso degredo.
é segredo.
fiel, há mais de 20 eternidades. 20 facas guardadas no bolso, para esfaquear cada um dos teus 20 olhos. estranho vento que nos bafeja, queda lesta de mergulho propagandeado. não consigo encontrar a rosa da manhã, as vestes de lobo que tantas vezes vestiste. fantasias de écrans prateados: tenta o teu tiro, gatilho, cão, morde, bala que sopra a justiça do vento.
sou o que sobra de mim, mergulhado na sombra de outro que foi, em nós.
desço até ao último andar, porta escura, entra, resgato o tesouro, não há como evitá-lo, como evitares andar pela corda do trapézio, sem segredos, não há raiva nas palavras apenas um resgate do sorriso que abandonei no elevador que me trouxe até aqui. nada me ama, uma brisa sopra-me. que espera de mim este mundo. nada. um breve desejo, inspiração divina de crise social, humana, em quem confiar e tudo isso. guarda-se tudo na gaveta, não vá o diabo surgir de uma nuvem disfarçado com o teu nome e tudo isso. sinto saudades de quando eramos dois.
e gostaria de saber como chegaste até esta memória, embrulhada em luzes de espectáculo esquecido, burlesco, e as tuas mamas que tapam a sombra da compreensão humana de tudo o que esqueci. não é impossível que tenhas esquecido os obsctáculos destruídos pelo desejo criado a pulso neste lado da fronteira, da felicidade, da indiferença lamentada nos cometas que passam.
lembras-te da noite que esquecemos, acordámos em esquecer?, era um dia infernal, escorríamos um para outro, novelos nas mãos, desenrolados na curiosidade dos nossos sexos, nascidos do ventre teu, faísca que brotava dos nossos olhos. ninguém conseguia perceber porque é que pertencíamos um ao outro. gostava tanto de te foder. e sei que não há nada mais sagrado que isso.
arrancar-te-ia os ossos das mãos se isso te fizesse ver.
não te quero segurar, prender o espírito. não há volta a dar-lhe. não me sinto culpado por ouvir as sombras que me segredam que chegou a hora, hora do termo, fim da sessão.
se há coisa que aprendi em regras que criaste em nós, é a dificuldade da criação, deuses deitados em lençóis viscerais, que segregam pus no seu amor.
imagino a cara surpresa de quem toma por certo o destino. quero perder o tempo que deixámos gasto no último abraço que podia ser doce.
a escuridão trevas de quem fomos.
dançámos
sem deixar
rasto
todas as noites
até à morte
de todas as estrelas
queimadas violadas
na loucura do som
dos teus gritos
enclausurados
no meu peito.
J
dormentes
Deftones - Dai The Flu
maldita existência, curta, para as memórias do teu corpo,
encontro-te uma e outra vez,
efusão, loucura esbanjada num piscar de olhos,
a pele que se despe,
nossa, doce saliva nos dentes,
dedos lânguidos, de misteriosos propósitos.
sentes o cheiro, delírio,
um despertar antigo,
reviras os olhos dedicada, egoísta,
ama-me e não olhes para trás,
a surpresa, guerrilha de corpos,
aqui mesmo, agora.
desequilíbrio, momento,
instante de espasmos azuis,
êxtase abrupto, sombra de nós em um,
mãos que procuram as costas,
ancas que queimam a cintura,
e um último beijo, depois do próximo.
punhos cerrados, fechados em cadeados,
veias que palpitam o vermelho das promessas,
e olhos que se procuram num último gesto de raiva,
as unhas cravadas e um grito seco,
somos restos, desamparados e dormentes,
nos múrmurios de saudade da brisa que passa.
J
vítimas
Radiohead - 2+2=5
o desejo, a ideia que respiras,
habituação às somas e subtracções,
anjos caiem do céu quando abres as mãos.
mergulho fundo,
um produto de séculos em nascimentos consecutivos,
nos joelhos, de pele gasta, estou vivo,
sinto os murmurios cálidos da manhã que desperta.
vens-te, um oceano.
seguro o casaco com força
- não me caiam as mãos
as ondas que esmagam violentas,
os abraços abafados em segredos tremeluzentes,
porque ficam na memória, porque seguimos enraivecidos,
para aquele sítio onde moras,
com a água na boca do teu orgasmo.
seguir-te-ia até ao fim, adeus,
longe deixei os tempos idos,
depois de todos se terem ido embora,
adormecidos pelo mundo.
estranha guerra esta,
vítimas que cambaleiam sujas,
sózinhas de agressores.
J
caixa de arsénico para a mesa 5 sff
dói-me a cabeça, latejante o desejo,
quero encontrar-me nos teus braços, crú,
enterrado todo e faz-me perdoar,
os sonhos que se mantêm, lentamente,
no olhar dela.
via-a eu via-a novamente e era apenas eu,
aborrecido,
no cruzamento,
vulgar doença, e sorris,
- encontramos-nos junto dos segredos que deixaste, são teus não os quero.
fútil esperança de querer mais, sempre menos daquilo que consegues ter.
não é uma fuga do senhor,
ele nunca existiu nos meus dedos.
o meu tempo é finito, fora de prazo, validade expirada há muito.
não queres entender que
- julgo estar atrasado para o meu funeral.
mas ninguém nos pode salvar?
J
cortes e recortes
irei surpreender-te um dia, lento,
num amanhecer trivial,
mostrar-te novos mundos além do muro que te cerca,
enquanto que se recuperam os velhos tempos.
mostra-te, espalha o pó que te eleva pelas cinzas do passado, nada irá mudar, apenas tu és capaz, alcança as estrelas, aquelas que luzem no fundo do poço, lá fundo, sem respirar, e o tédio que se afoga lentamente.
é da maneira que desces, e não durmas, nunca.
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sei que me apoiaste, que não lá estive para ti, não me importo. era a força que te empurrava para mim que me interessava, nada mais. desejo-te num filme pornográfico, numa foda em privado com o asfalto, em queda abrupta de braços abertos, desejo-te novamente, regressa.
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escrevo porque me interesso em carne viva pelas tuas reacções
- ficas tão bonita assim, frustrada.
quero que te fodas, especialmente se for comigo
- especialmente se for comigo, a sério.
dorme bem, agarrada a mim, memória vaga da névoa onde vislumbraste o teu d. sebastião, salvador patriota, merda da pátria. foste enganada. subida em cometas, descidas ao inferno.
como eu lamento, só deus sabe - não esse deus, o outro - como eu o lamento.
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ergue-te e caminha, disse... alguém, não me lembro quem, que interessa, tinha razão - eu e não ele. baah. isto não é uma manifestação, não há nada para ver aqui, move along, move along.
J
demasiado cansado
é como te vi pela última vez,
tão cheia de vida
como se nunca tivesses caído, tropeçado,
rasgaste uma veia, e mudaste,
puxei o teu ouvido para perto dos meus lábios,
e menti-te,
deitados, encostados, sujos do nosso suór,
os sexos calmos, num ritmo rápido, suave,
dançam e bailam,
nas brasas da fogueira que nos consome,
prazer frágil, dfe tanto medo,
de te sentires,
tão cheia de vida.
- e gostas disto?
- sim.
não há hesitações possíveis,
segue-se a vontade dos corpos,
agora que és heroína e eu herói,
tentamos deter as mentiras,
de regresso a nós,
em ti e dentro,
clímax, os braços que se desarmam,
aquilo que fazes,
respondes,
detens as mentiras em ti,
nada mais interessa,
agora que és verdade,
mentira.
respiração pesada e sais do quarto,
despes a roupa que vestias,
limpas os cortes, o cheiro a liberdade,
sais.
pintas as ruas reflectidas nos teus olhos,
brilhantes, pintadas em luz,
e rezas,
- quero saír da multidão, saír da almágama de carne que me sufoca, deixar de brincar ao faz de conta e enfrentar o mundo nua, sem mentiras em mim.
e é o mesmo dia, depois de novo dia,
levas-me em braços e flores,
é tão doce, bonito em ti,
um carinho maravilhoso.
e nem sabes o meu nome.
largas amarras, soltas o lastro, voas, direcção nenhuma, apenas até ali, devolver àquela rua todos os sonhos que tu ou eu e todos nós lá deixámos, apaixonados, ébrios pela saudade de sermos fáceis, sem orgulhos, simples, criaturas nascidas para amar.
era domingo lembro-te, não saía ninguém à rua naquele dia, estavam todos trancados, em igrejas, isto de dia, à noite era em sacristias.
- não importa, as mãos guiam-me pelas paredes, costas imponentes da rua, dos ecos deixados pelo êxtase do quotidiano a que tu não dás valor, e o amor é o mesmo, de dor menor é certo, mas a cantiga é a mesma, os corações partem-se à mesma, jorram sangue, igual ao meu e ao teu, ao nosso. quem és tu para...
- o sujo e tão belo futuro.
- esquece o futuro, eu não lá estarei, só mais tarde, quando for mais tarde.
J
