...e foi à noite que procurei os teus olhos, enrolado no calor do meu corpo que se debatia com os lençóis na cama onde o tentavam sufocar, de mãos errantes tacteando o vazio absoluto, dividindo realidade e sonho com as palmas das mãos; a minha cama é embarcação à deriva num oceano cujo horizonte é revelado pelos flashes da tempestade, entre recifes que rasgam a espuma rubra, os cantos das sereias e os monstros marinhos alados com onze olhos encrustados, assombrado por fogos-fátuo; ou é simplesmente o meu corpo que se afunda no centro do quarto.
Sinto o desespero de estar acordado.
Quando o infinito é demasiado e se torna em nada, porque o sentimento de assombro é maior, porque o imenso sentimento de solidão é tudo, porque o ponto exacto onde o nosso ser se separa da carne, ossos, veias e artérias, esmagado pela tormenta, é eterno. Tudo o resto são vertigens. Tudo o que somos, toda a realidade se distorce nesse minúsculo ponto. O rufar dos trovões, o rugir dos tufões, as vagas que nos puxam para o fundo, o peso da água que nos rouba o ar dos pulmões; ou a morte ou o querer viver. Somos apenas um momento dentro de um suspiro que alguém desenhou quando fechou os olhos. Maldição de ser humano.
Não sinto o meu corpo cansado; a minha mente perde-se nas ordens que lhe deve dar.
Escorre-me suor atrás dos joelhos, tenho frio; o tecto forma uma abóbada com as fracas luzes da cidade que conseguem entrar pela janela, projectando memórias que nunca vivi. Imóvel; a cama teima ranger com o tremer involuntário das minhas mãos e pernas. Perco a consciência em convulsões abruptas, espasmos que me retiram a dor; o corpo contorce-se e esboça cadáveres entre os lençóis; sinto apenas o primeiro choque, como se todos os músculos que seguram o meu esqueleto se atirassem de um abismo em câmara lenta, um de cada vez, esticando todos os membros do meu corpo que ficam para trás em posições impossíveis; os ossos estalam; a boca morde; os olhos gritam; e quando termina sobra-me apenas o tempo em que encho o peito de uma só vez, a face coberta de vidros, a garganta rouca que engole o oxigénio; e recomeça; e espumo da boca; e todo eu sou a face do medo.
Perco a noção do tempo, de tempo, quando regresso a mim. Todo o corpo me dói, todo eu sou frágil, todos os ossos estalam. Recolho-me em mim mesmo.
Tento sentar-me, colocar os pés no chão. Tremo de frio. Os músculos retraem-se com violência; tento apoiar os cotovelos nos meus joelhos e amparar a cara com as mãos; choques atravessam-me a pele; luto comigo mesmo para deter o meu corpo que é sacudido em vagas de dor; grito com ele, deve-me obediência.
E todo o tempo se detém, os meus olhos abrem-se e respiro fundo, os espasmos cessam, fito o escuro e sinto-a no quarto. Fico sentado, mãos atrás das costas, braços esticados, lentamente a romper o torpor. Passam uns segundos, horas, talvez uma mão cheia de minutos. Ganho a coragem de me levantar. A minha mente regressa sem muita vontade ao meu corpo.
Quando me projecto para a frente, para me tentar erguer, colapso; tudo o que sou irrompe pelo chão; mero espectador; os meus braços agitam-se atravessados, desordenados; os dedos das mãos esticam; oiço-os a quebrarem, um a um; a minha cabeça pesa todo um universo; os dentes mordem a língua; sangue e saliva misturam-se nas frestas do chão de madeira; está quente; as minhas pernas dançam retorcidas, fora de tempo, embatendo contra as traves da cama; o meu peito dispara; a dor em mim ruge, a volátil presença da minha vida escapa-se e sei que é tempo; a visão desvia-se, turva, afunila-se ao centro, abismo negro, tudo o resto é um borrão desfocado. Perco os sentidos; adormeço numa metamorfose em estilhaços de vidro.
J
Recortes de papel
rock & roll
Interpol - Lights
algo que nos surpreende e nos leva a dançar,
amedrontam-nos sempre em doces loucuras
que as bocas cometem na sombra da maré
que enche e afoga a enseada.
E vagarosamente,
sem a mínima pretensão,
vemos...
Olhamos as estrelas,
as ilustres lembranças do êxtase,
da inveja que leva a carne e o sangue,
que nos deixa apenas os esqueletos das nossas sombras.
E isso é tanto.
Dançavas as verdades que emboscavam os abraços,
enquanto que o azul púrpura da tua língua limpava os ossos da minha gasta carcaça.
J
soporífero forte
Velha verdade queimada viva, nas sombras que engoliam as tuas palavras, escondida na leve brisa, soporífero forte, que emanava aquele ardor grave, pendor que balançava nas nossas cabeças, leve, pronto para desferir o golpe final, sempre pronto e hesitante, espreitava a mínima falha na enorme esfera de metal polido que explodia a cada instante, frágil, em mentiras, as tuas.
E hoje, esta noite estamos mais perto de casa, neste bólide vermelho que navega as estradas à velocidade da luz, pelos mapas deitados por terra que indicavam o caminho para lado nenhum, esvaídos de qualquer consciência, boa ou má - e agarravas o volante com força, sangravas dos olhos, rindo histérica, com os lábios rasgados através da tua face, fantasma negro, pintada de cabelos que flutuavam etéreos na tua caveira pálida.
Caías em mentiras, uma e outra vez.
Velha verdade vem até mim,
abraça-me rasgada, soberba na noite que me acaricia e que me leva até ti,
velha verdade vem até mim,
segura-me as mãos e ajuda-me a rezar, limpa-me as feridas abertas com sal,
velha, vem até mim,
fica comigo e mostra-me o teu negro interior, deixa-me beijar a tua carcaça gasta,
vem até mim,
rompe a luz com o teu manto e leva-me.
Deixa-me lamber-te os dedos e rugir o teu nome de baioneta em punho,
estou cansado do cheiro da pólvora que ainda estala nos meus ouvidos,
daquelas batalhas que pintam os amantes com negros corações,
trata-me bem e lembra-te de mim, eu esqueço-me, vem-me buscar.
Derruba os muros, vem lesta e ágil, pelas trevas do amanhecer,
embrulhada nas boas novas, nos trovões que hesitam em cair dos céus,
traz contigo as vinte-e-nova lâminas para um festim com os meus ossos,
ardem alto as fogueiras da saudade pelos teus lábios, de outros tempos.
J
tela branca

deixado para trás, para morrer, levantava-se uma e outra vez, fustigado pelo vento e a areia que lhe fendia a face, caía morto apenas para erguer-se uma e outra vez, sem vergonha de resistir à vida que lhe negavam, entregue a si mesmo. tropeçava nos passsos, enquanto que seguia caminho, decidido a percorrer aquele deserto sangrando a noite nos olhos, chupando as bolhas que lhe estalavam nos lábios, queimaduras, nas quebras de equilíbrio que o empurravam para baixo, dificultando a respiração, e tremiam-lhe os dedos. era difícil distinguir os trapos do ser humano. e lembrava-se do medo ilusório, parábola seca, daquela catarse que o guiava - e as sardas que pintavam o céu.
guiava o instinto até à tela branca, para que ele a pintasse de cor única, a dela.
J
Teresa
The Doors - LA Woman
- e tudo cai em ordem perfeita,
num peito apressado, com fúria e mais,
onde sabemos que a estrada termina,
naquele precipício que nos rasga o ventre,
empurrando a saliva dos dentes,
gulosos por mais.
- podendo parecer perfeito,
são ondas que rebentam no areal,
explosões de cores e braços que se agarram,
embaraçados nos cabelos que nos levam,
elevam a um passado próximo,
irreal sonho na verdade banal,
deixada no ocaso de mais um beijo roubado.
são lágrimas que nos separam,
aquelas que descem dos céus,
minguando os riachos e oceanos,
bravos, nos nossos olhos,
naquela verdade, de garganta decepada,
naquela verdade enganada.
a impossibilidade do impossível,
improbabilidade, choque entre cometas,
largados à deriva, à distância de uma estrela,
em 31 órbitas, esganadas,
na queda em chamas, crash and burn.
J
3 de abril

Segurar-te os joelhos, queria,
ver o mar contigo, queria,
as amarras na nossa janela, lançar,
as probabilidades, morder,
rasgar-te o ventre com toda a força do amor.
Teresa, minha paixão,
esta noite sonhei novamente contigo. Julgava que me desfazia em água quando acordei, sobressaltado com mais uma cortina de bombas que fendiam o chão do outro lado da fronteira. Sonhava, como quando te conheci, que seguíamos pelo caminho na quinta do teu avô, na direcção do rio, a descer pelo campo, com a brisa fresca da noite nas nossas asas. Éramos tão jovens, lembras-te? As margens do rio embalavam-nos naquele vaivém lento que nos fazia dançar, traziam-nos para dentro de nós, escondidos nos ramos das árvores, com a lua ao topo, a sorrir para baixo.
Crescemos árvores, de raízes profundas nas mãos, a flor no sorriso do fruto doce no peito.
Escrevo-te novamente, quando a guerra se aproxima cada vez mais de mim, ainda escondido com o meu pelotão nestas trincheiras cheias de lama e homens, assustados, como no dia em que saíram do ventre das suas mãe, à espera dos minutos que passam até à morte certa. Temo que nos chamem para a frente da batalha hoje, e de não te voltar a ver, nem sonhar com o brilho dos teus cabelos, deitados, naquela noite tão nossa.
Escrevo-te novamente, porque sei que vou morrer em breve. Sinto-o nos ossos. A noite esvai-se, trazendo a luz com que te escrevo estas últimas palavras. Perdoa o vento por não conseguir levar até ti as palavras com que te beijo, esta última vez.
Até um dia,
J
mãos cansadas
Senta-te no chão.
Vamos ponderar toda a loucura que não nos deixa dormir, agarrados às drogas, viciados nos teus olhos, inaptos neste inferno que ousa em deixar-nos em paz. Não há coisa mais fácil e segura do que considerar alegremente a hipótese de passar lixívia nos nossos ressentimentos, na distância que nos separa de mais uma noite feliz.
Dispo a roupa, sem ressentimentos. Vê como olhas para mim, sem vergonha como se te pertencesse, rápida e lentamente, ou como quiseres, pelo preço de mais uma noite passada alheia à vida fora deste palco. Dispo-me para ti porque tens vinte faces e preciso de cada uma delas para sobreviver a mais uma noite sem.
Era uma vitória sermos mais do que naufrágios abandonados pela sorte.
Não há fronteiras para o asco que provocas nas minhas insónias, como as moscas que insistem em morder a luz cega que arde na noite ténue, amor gasto na sarjeta solitária da fama que redesenho a cada sussurro feito espada que corta e rasga o núcleo de todas as intervenções e conquistas, lembradas no ocaso da minha elegia.
E todas as noites me dispo para ti, na esperança de que voltes para casa connosco, com os anjos que nos amaldiçoam.
As mãos estão cansadas e trémulas de segurarem os sonhos que pesam na minha cabeça.
J
a braços com a vida errada
arms of fake plastic grow and stretch out from your bellybutton.
agarra uma gota de chuva que cai do céu com a língua. espera pela volta do correio pelo teu sorriso. desespera com o cavaleiro destroçado, de espada tombada no campo de batalha. ergue-te quando sentires os primeiros raios de sol a cegarem o tempo que esbanjaste.
e, como chegaste aqui?
será suficiente saber que te pareces com o vácuo deixado pela saudade para não deixar de sentir, sentimento, ajustar a televisão, um canal errado. desgastas os dentes com a premissa de seres quem procuras, a braços com a vida errada.
e, como chegaste aqui?
se te dissesse que conheço o outro lado da lua, da entrada em órbita dos teus sonhos, faria alguma diferença? esquece o hoje, amanhã, ou depois. não há melhor momento do que aqueles que deixaste para trás. rasga um sorriso do peito e entende, não há melhor foda nem melhor sensação que enfrentar-te de frente, sem medos, de punhos fechados.
J
palhaços e trapezistas
podias vaguear, cruzar as pernas sem outros interesses ou intenções,
piscar os olhos e saber que, ao voltar a abri-los tudo estaria na mesma,
correr, trotamundos indomável, numa fuga sem fim à vista,
e ter aquele sorriso estampado nos lábios,
aquele despreocupado que usas tão bem.
vê, palhaços e trapezistas, mágicos e leões ilusionistas,
cores nos dedos e algodão doce, as notas da vida de luzes mil,
e os violinos que tocam para ti, junto ao ouvido, junto do coração,
dizem-te que não termina aqui, tudo começa, tudo cresce e vive,
sente, sente a primavera do teu primeiro beijo,
e os abraços do teu primeiro amor.
ah, a chuva que desce alegre num dia de verão,
e as bicicletas que te levavam ágeis de chegar a lado nenhum,
sem destino, por paisagens de cabelos espreguiçados na tua cara,
rumando ao inicio, de onde tudo começou,
naquela fotografia que guardas em ti, junto ao peito,
que acarinhas, tesouro de mil almas e paixões.
como era belo o dia em que morremos.
J
na tua dança
não durmo não descanso,
e a noite que se torna dia.
ouve-me, aqui sofro, somos dois e nada mais, nús, de tempos sempre perdidos, calculados na rápida conjugação dos astros, amantes e tudo o mais, abre a janela, abre-a, e vê, quem é que se importa com o mundo quando nos temos um ao outro e quando tu estás morta?
acalma-te, não empurres a vida com a pressa de chegar a noite, o corpo que levantas na rotina do fechar de olhos não é o meu. desejo que fosse.
gostava, uma morte lenta, sofrida, em brasas espalhadas nos sete pontos, levar ao fim e ficar, sereno, longe de uma eternidade, vida inferno.
ainda te vejo a tirar a roupa, a transformares-te em lodo, na tua dança, aquela que fazes tão bem.
e sinto-me tão vivo.
J
que caminho
sombras e vultos, falta algo aqui.
talvez consigas tudo aquilo que queres, envolvida em significados das coisas que encontraste pelo caminho, sem surpresas ou amuos instáveis, a estabilidade da rotina fácil e todas as outras coisas que surgem a horas, marcadas e pré-combinadas, negociadas, sempre.
estás cansada e apenas precisas de paz. de ver o nascer do sol como apenas o nascer do sol.
lembras-te naquela noite, em que apontei para a lua, cheia estava cheia
- não te lembras, a luz que nunca nos guiou para nós.
escondias-te, demasiado frágil existência para tentares descobrir aquilo que és, sonhos e tudo o mais, sem outros nomes sem resultados metafísicos que só a ti diziam respeito, nunca. não entendo ainda hoje como é possível ter tanta magia numa vida desprovida de ilusão, vazia em sonos lentos, juntos, sujos nas mãos que segurávamos tão calmamente nos gritos que silenciavam.
as lágrimas que se despedem de ti iram levar-te a casa, sem medo, mestres da realidade absoluta.
J
um sítio bonito onde viver
eram 5 horas, levantou-se, cedo, doíam-lhe os olhos, não conseguia mais dormir. a mão palpitava junto ao sexo latejante, erguia-se quente, em movimentos largos, por entre os dedos. era dia julgava, talvez ainda fosse de noite, o dia e a noite eram iguais desde há... tempo, um intervalo de tempo sem definição, talvez todo o sempre, ou uma curta eternidade de dias.
letárgicos, os pés tocaram o chão, estava frio. a dor nos olhos fazia-o retorcer o rosto em busca de alívio - como se uma careta resolvesse o problema. nesta casa não se desperdiçava o vinho. e era de dia, ainda, um raio de luz, tímido, espreitava pelas entrelinhas dos estores semi-cerrados, pautados em fá bemol (ou era mi sustenido?) nas janelas. dia. quem diria.
tentava raciocinar, meter as ideias num saco e retirá-las uma a uma, ver se achava uma ordem, um sentido, forma/maneira/lógica de dar significado àquele espaço lúgubre e despido, que se mostrava submisso à sua dor. estava escondido. mas de quem? e porquê? que o teria trazido para aquele lugar, gélido - estava frio - para que fim? que propósito?
as hesitações formaram-se, juntaram-se em tentativas de se manter de pé. muito esforço, os joelhos que vacilavam uma débil sombra, fusca, por detrás dele. parecia dançar, dança dos mortos.
mão esquerda no joelho esquerdo, frágil, a segurar o mundo - vá tu consegues - mão direita esticada, erguida além dos ombros, leme que guia os ombros pela solidão, frio, muito frio, nem um som, um carro que não passa, nem a criança que chora, mas frio. atravessou a sala. de rir, um velho, pálido, magro, alcança a ombreira da porta - ela foge - e detém-se.
a sala parecia agora mais escura, ainda mais escura, grande, enorme, um túmulo. teria sido enterrado vivo? inquiria ele. os joelhos já se compunham, dormentes, mas sólidos o suficiente para se manter de pé. as pregas das carnes penduravam-se, velhice velhice, toda uma vida, curta sempre, para isto. abandonado numa sombra qualquer.
a sala - estava eu a dizer - era larga, as paredes simples, brancas - pareciam, ao longe duas portas altas, com os estores corridos, apenas uma fresta deixava escapar uma nesga de luz, sem cortinados. um tapete largo, vermelho ou talvez bordeaux corria pelo centro da sala, o sofá onde tinha dormido, derrotado/encostado a um canto, era velho, talvez tivesse a sua idade, 100 anos ou mais, ou menos, que interessa.
atrás de si erguia-se um corredor, estreito parecia, muito fundo, conseguia vislumbrar 3 portas, talvez 4 ou mais. fez caminho para a primeira porta, traçar rota, largar amarras, e um pé de cada vez naquela tijoleira fria, enrugados, unhas compridas e gastas, amarelas, enrolavam-se pelos dedos, já tinham perdido toda a definição da juventude de outrora - teria havido uma juventude? - metamorfoseando-se em bolas de carne, amálgama de gente, passadas vagas, sem pressa de quererem seguir caminho, deixava-se ir.
primeira porta, abre-se, luz muita luz, fica encadeado por momentos, sangue, cheiro a tripas, lavadas de manhã no rio pelas mulheres, a seguir à matança do porco, uma banheira, um braço que acena de fora e uma farta cabeleira, pareceu-lhe morena, encostada à branca cerâmica. o cheiro forte, nauseas, um murro no estômago e três passadas fortes e confiantes, boca encostada na borda da retrete. da boca saiem-lhe ais e uis, e muito vinho. muito.
limpa a boca ao plástico, escorrega e senta-se, frio, muito frio. tudo faz sentido agora. é de dia, há que aproveitar o dia e enterrar o cadáver. mais uma noite se aproxima.
os cadáveres daquela casa.
J
demasiado cansado
é como te vi pela última vez,
tão cheia de vida
como se nunca tivesses caído, tropeçado,
rasgaste uma veia, e mudaste,
puxei o teu ouvido para perto dos meus lábios,
e menti-te,
deitados, encostados, sujos do nosso suór,
os sexos calmos, num ritmo rápido, suave,
dançam e bailam,
nas brasas da fogueira que nos consome,
prazer frágil, dfe tanto medo,
de te sentires,
tão cheia de vida.
- e gostas disto?
- sim.
não há hesitações possíveis,
segue-se a vontade dos corpos,
agora que és heroína e eu herói,
tentamos deter as mentiras,
de regresso a nós,
em ti e dentro,
clímax, os braços que se desarmam,
aquilo que fazes,
respondes,
detens as mentiras em ti,
nada mais interessa,
agora que és verdade,
mentira.
respiração pesada e sais do quarto,
despes a roupa que vestias,
limpas os cortes, o cheiro a liberdade,
sais.
pintas as ruas reflectidas nos teus olhos,
brilhantes, pintadas em luz,
e rezas,
- quero saír da multidão, saír da almágama de carne que me sufoca, deixar de brincar ao faz de conta e enfrentar o mundo nua, sem mentiras em mim.
e é o mesmo dia, depois de novo dia,
levas-me em braços e flores,
é tão doce, bonito em ti,
um carinho maravilhoso.
e nem sabes o meu nome.
largas amarras, soltas o lastro, voas, direcção nenhuma, apenas até ali, devolver àquela rua todos os sonhos que tu ou eu e todos nós lá deixámos, apaixonados, ébrios pela saudade de sermos fáceis, sem orgulhos, simples, criaturas nascidas para amar.
era domingo lembro-te, não saía ninguém à rua naquele dia, estavam todos trancados, em igrejas, isto de dia, à noite era em sacristias.
- não importa, as mãos guiam-me pelas paredes, costas imponentes da rua, dos ecos deixados pelo êxtase do quotidiano a que tu não dás valor, e o amor é o mesmo, de dor menor é certo, mas a cantiga é a mesma, os corações partem-se à mesma, jorram sangue, igual ao meu e ao teu, ao nosso. quem és tu para...
- o sujo e tão belo futuro.
- esquece o futuro, eu não lá estarei, só mais tarde, quando for mais tarde.
J
há dias assim
há dias em que me apetece levantar da cama, abrir a janela e sentir o sol a bater-me nas ventas, como quem diz, acorda p'rá vida, ergue-te, vive a vida, e sê feliz.
são raros os dias.
conto os minutos,
preciosos momentos em que irei cair nos teus braços.
loucura desgarrada, desmedida e embriagada,
em diamantes mil de luzes reflectidas
vejo os teus olhos,
longe, longínquos,
um até já, fiel destino,
igual em tudo e para todos.
há que percorrer todo um caminho que não importa
- não se interessa.
de um recomeçar, como eu gostaria,
aos ouvidos, gritar-te,
que cortam o corpo, os segredos,
que ficaram por escrever, em cartas.
uso as mãos para te trazer de volta, trazer-te de volta para perto de mim.
J
enroscar-nos no sofá
pudesse eu esmagar-te os dedos num embate frontal com os meus olhos:
agarraria nas tuas côxas e iria saboreá-las, uma e depois a outra, e talvez ambas ao mesmo tempo, num lume nada brando, feito festim canibal, lambendo o sangue dos dedos (tudo sem lavar as mãos claro está).
estaria na linha de chegada a aplaudir-te sempre que chegasses em último, violada e gasta, pelo ardor dos fãs, sempre que as bandeiras descessem, lá estaria eu, com a tua sobremesa favorita, aplaudindo, com troféus de lama, memórias de outros cursos de outros percursos, sei.
gostaria de te esmagar os dedos num embate frontal com os meus olhos.
e depois podíamos-nos enroscar no sofá e ver tv e envelhecer e assim e juntos.
- piada macabra, sei.
J
