A Viúva

Terça-feira, 16 de Abril de 2013 às 14:24

Às 8 da manhã ela já lá estava. Sentava-se num banco de madeira gasta na estação, na linha dois, onde chegavam os comboios vindos de Lisboa e deixava-se ali ficar, o dia inteiro, até passar a ligação das 20h - que era  o último a chegar da capital. Sempre que entrava na estação cumprimentava-me com um sorriso e um aceno de cabeça.

Quando caminhava mexia os lábios mas não falava, parecia cantar mas não fazia som. Tentava ler-lhe o rosto mas não vestia nenhuma expressão, sem tristeza ou preocupação, alegria ou contentamento. Parecia-me apenas convicta do que a levava ali, àquele local, dia após dia - todos os dias. Era uma mulher tão bonita… de rosto esguio e contornos femininos, sempre muito elegante, de ombros atirados para trás, costas direitas, pernas altas… era ainda uma mulher nova, mas também mais velha que o tempo.

Eu ficava no meu gabinete de chefe de estação e via-a atravessar as linhas, arrastando a sua longa saia negra pelos carris, resoluta, agarrada a um papel amarrotado que me parecia ser o mesmo todos os dias. Vestia-se de preto, saia larga, camisa preta, sapatos pretos já gastos, e um lenço, também preto. Sentava-se cuidadosamente, dobrando os joelhos e inclinando-se para a frente, sem lançar o corpo para a madeira do banco, repousando-o apenas.

Continuava nas minhas tarefas diárias — a carimbar papelada, verificando os horários e transmitindo para os apeadeiros seguintes os respectivos atrasos dos comboios que passavam. De quando em vez olhava lá para fora e via-a tranquila, atenta nos seus bordados como se desfiasse os dias na linha que lhe encruzilhava os dedos.

Só interrompia a sua pose sempre que eu anunciava na estação a chegada de um comboio vindo de Lisboa. Deixava cair para o seu colo os punhos, com as suas rendas e via-a esticar o pescoço, espreitando primeiro as cancelas ao fundo da linha fecharem, e quando o comboio se apresentava no horizonte, com o apito que se ouvia no resto da aldeia, levantava-se, atirando com as linhas para o saco e juntava as mãos - parecia que esperava alguém. Ficava atenta, vendo os passageiros descerem das carruagens, a recolherem as suas bagagens. E quando terminava o frenesim e se ouvia o eco do apito do comboio novamente, sentava-se, sem mudar de expressão, e continuava a desfiar o dia, com as suas malhas e rendilhados.

Uma desses dias comentei a história da Miquelina com a minha mulher, à mesa durante o jantar, expliquei-lhe o curioso da situação, da menina que se veste de viúva e que segue para a estação todos os dias.

     — E fica ali, hora após hora. Vai comendo uma maçãs de vez em quando. Outras vezes reparo que fita o céu e murmura algo, embora eu não consiga perceber o quê.
     — Ó António… a Miquelina está à espera que o marido regresse da guerra…
     — Mas o Vasco não tinha já chegado? Há uns 3 meses ou que foi?
     — Parece que sim. Mas a Miquelina uma vez no mercado, umas semanas depois dele ter chegado, começou a chorar e em pranto berrava "ele não é o meu marido! ele não é o meu marido! o homem que voltou da guerra não é o meu marido!"…

E todos os dias a Miquelina sentava-se na estação, com as suas malhas e rendilhados, desfiando os dias, como se os pudesse desfazer e ordenar…



pra escrever como deve ser noutro dia.


J

XXXIV

Segunda-feira, 15 de Abril de 2013 às 14:31

num instante
o flash resgata a memória

          deixa-me sonhos debaixo da língua

escrevo o teu nome nas paredes e no céu
em andas, nos candeeiros das ruas
    na esperança que o vejas

é singular,
          estas letras que são tudo numa apenas palavra,

onde todos os sons dançam, e reverberam pelo espaço infinito,

sinto os cometas que se despenham nas palmas das mãos

          desenham-te amor
                    o improvável amor
          nas faces dos estilhaços da noite
          puxo-te para mim, em mim,
                    para este silêncio que guardei no peito
                              para ti, em nós.



J

XXXIII

Quinta-feira, 4 de Abril de 2013 às 14:31

o amor morre
e morre e morre
.

o peito bate com mais força
explode a cada solavanco
.

o candeeiro de mesa
faz tremer a chama, ali
.

as palavras vão de luto
e esmiuçadas
.

o futuro faz malabarismo
no fio do trapézio (sem rede)
.

as verdades socorrem-se de mentiras,
ditados e dizeres, quando espremidas escorrem
estórias
.

quando
saio da cama
levemente
és apenas sorriso
.

os segredos sine qua non
.

porque a morte morre
.



J

Texto XXXII

Quarta-feira, 3 de Abril de 2013 às 14:50

No comboio para a Covilhã não há destino porque a viagem é longa. Entre apeadeiros e paragens, somos embalados pelo crepitar das carruagens, do metal das rodas que carrega e segue pelos carris. Ignoramos os relógios ou a marcha do tempo, e sonhamos a paisagem que nos é desenhada pelo Tejo à janela, imaginando as batalhas que ali formaram montes e vales, ou os reis ali enterrados à sombra dos castelos erguidos, tomados e saqueados.

No comboio para a Covilhã viajam velhas e gordas, e velhas gordas, e velhas magras. Muitas moças também, roliças e sadias, de bochechas rosadas, que regressam a casa depois de uma semana de estudos em Lisboa. Se permitires aos teus olhos a indiscrição podes ver os namorados que se reencontram ao fundo da carruagem, que fogem dos cinco dias passados a correr e que apostam agora as línguas languidamente em duas noites escondidos na serra.

No comboio para a Covilhã deixo que a ternura da infância seja assombro do meu corpo. Recosto-me e o torpor leva-me as saudades e a melancolia das viagens no regional com os avós; do cheiro a laranjas; do xaile da Armanda; das estórias; de jogar à bisca; de ver o Joaquim jogar solitário. Gosto da tranquilidade, dos olhos fechados, do reflexo do sol nas águas que seguem a jusante.

O comboio para a Covilhã perde-se nos montes, paira nos caminhos que trepam os vales sequestrados pelo rio, abranda quando a maré invade o troço, e as águas tomam o corpo. Manda estremecer a terra com o peso do ferro gasto, com o peso dos corpos gastos que anseiam o regresso a casa.



J

Texto XXXI

Terça-feira, 2 de Abril de 2013 às 14:32

responde devagar
escreve cada palavra como se fosse a última
como se o tempo terminasse na ponta da língua
e os segredos fossem lápis-de-cor-azul

os dedos recortados em picotado
          abrem o papel de feltro amarrotado
                    em corações desbotados

e guardam,

guardam o sabor das bocas namoradas
          na brincadeira da escola
          entre carteiras, o negro do quadro
                    o recreio no pátio
                              as mãos dadas atrás do muro
          dos primeiros suspiros
                    até o primeiro trago de whiskey

          da roupa espalhada pelo chão do quarto
                    da incerteza da carne
                              à certeza do peito
   
          sem jeito, sem medos,
                    apenas envergonhados pela inocência

deixa, respira e responde devagar:
          Apostamos o futuro?



J

Texto XXX

Quinta-feira, 28 de Março de 2013 às 14:28

enquanto que os pés galgam caminho
a mente divaga
    — pega nas nuvens e escreve-lhes estórias no dorso
    — Às chaminés das casas dá-lhes nomes
entretém-se, sonha,
desfia as personagens que passam em parágrafos,
desdobra-as em diálogos,
dá-lhes tatuagens em copos de vinho,
e esconde-lhes o passado em brigas de facas
a bordo de navios que partem e regressam a lado algum.



E ela trabalhava num bar, um bar nocturno, mal frequentado, de copos partidos no chão e almas gastas ao balcão. Tatuado no braço direito um dragão porque, dizia, tinha esfaqueado o homem que a havia violado. Era confuso o ruído; ensurdecedor o fumo; as labaredas de discussões estremeciam o tecto. Jogava bilhar a dinheiro, e era boa jogadora. O decote generoso, o metro e sessenta, davam-lhe vantagem sobre os homens. A cara dura, a linguagem vulgar, sobre as mulheres. A única vez que saiu da cidade  foi para visitar os avós, quando era pequena, mas morreram, depois o pai abandonou-a, a mãe meteu-se nos copos e entregava-se a qualquer homem que lhe desse um pouco de atenção, sem ligar aos abusos. Quando conseguiu, fugiu e agora vive no fim do corredor, do bar, depois do balcão, encostada à parede onde estão colocados os tacos, a fumar um cigarro, a beber o seu vinho.

Texto XXIX

Terça-feira, 26 de Março de 2013 às 14:45

Há mais que o acordar, o revirar e dobrar o corpo na cama, para um lado primeiro, para o outro depois. Olhar o tecto e contar as razões para não mexer um músculo, para adiar o inadiável, mergulhar no desejo da eterna letargia, do eterno equívoco a que chamam vida.

Minguas a respiração com o peso que levas na alma e aceitas o inaceitável. Lentamente esticas as pálpebras e deixas as nesgas de luz que penetram pelas portadas das janelas entrarem pelo teu crânio dorido. Sentes os olhos dilatarem com a luminosidade e em contraponto, a dor de cabeça a aumentar, as têmporas a colapsarem - assíncronas, e riscos vermelhos cegam-te a vista em síncopes convulsas.

Respiras fundo.

É amanhã - dizes baixinho para ti, em confidência - é amanhã que renasço em mim. E rastejas para fora dos lençóis - derrotado e nu - mas só mais um, só mais este dia.



J

Saudade

Sábado, 16 de Março de 2013 às 10:18

A saudade é alimento da solidão
um roubo de vergonha da salvação
do abraço, do momento em que a voz do vento enche o peito
e o sorriso é alento
          — na fotografia guardada
          — no eco do pensar
o resguardo que a cabeça encontra junto ao bater do peito
          — que já não bate
          — já não respira

mas ri, e sorri, e é ensurdecedor
e leva da boca o fôlego,
e o silêncio do vácuo
          — fico sozinho com a transpiração que me desce pela nuca

e a saudade come, e a saudade morde
e mente e conta-te segredos ao ouvido
e come e morde e explode
e geme e morde e come
e quando te arranca o último pedaço de carne do esqueleto
do teu branco, nu esqueleto,
ainda ouves o leve murmurar do vento que desliza
serpenteia serpente
e te envolve no abraço da saudade
que se alimenta da solidão



se ao menos deixasse de ouvir o teu nome entre-dentes, à noite...



a saudade mancha-te as mãos em acordes de preto
escorre pela garrafa de tinto
          injectada nas veias
balança na torpe melancolia onde dança
          celeste
sempre enferma, débil
sem nunca dormir longe, vazia,
de cores tão verdadeiras,
          perfeitas na mentira.

Tu és absoluto, um caos esquartejado pelas
          bocas que te recordam,
e eu tenho ainda este abraço teu,
          esta vergonha ou fraqueza minha
neste amor que é meu.



e por fim, se não tiveres para onde ir,
          não te poderás perder
porque quando o teu corpo se transformar em geada
e levares à boca estas palavras
lembra-te:
          enches o peito de estrelas porque és infinito.





J



Texto XXVIII

Quinta-feira, 7 de Março de 2013 às 14:30

suspiro
em fumo
semeando chamas na ponta dos dedos
e as tuas pernas torneiam-me
estrangulam-me
libertam
          os medos na boca
num sonho azul
desenhado, rodeado neste abraço
          vil

os soluços são sorteados em lotaria
          na solitária paixão
          — a verdadeira prisão
quando o falso delinear de planos
          no espelho da noite
é gume rombo,
          memória de madrugadas
          queimadas no vermelho crepúsculo

as palavras mergulham da boca para o chão
          caiem pesadas sobre os pés
                    — o soalho de carvalho estremece
          e danças no reflexo dos espelhos
bandas sonoras de filmes em acordeão
          murmurando nuvens sem forma

só porque podes sorrir não quer dizer que o escolhas fazer.

e nem a pequena luz da demência me guia a bom porto
          nem os teus olhos esperam os meus quando acordo
                    — a tela continua branca aos pés da cama



J

Texto XXVII

Terça-feira, 5 de Março de 2013 às 12:49

Adormecemos e conto os dedos
as sombras, os esqueletos,
os braços dentro da cama
um coração que bate
no outro coração que morde
            — reviro os olhos à procura do espelho na penumbra

            Os suspiros nocturnos são destroços no limite dos estilhaços, filhos órfãos do teu corpo-explosão.

Pinto-me com a luz fosca, tosca, do candeeiro de rua acima da janela, por onde deixo o amor entrar em dilúvio.

Dizes-me para amputar o destino
e rodeias-me,
levas-me o oxigénio da garganta para nela plantares silêncios
            — sem porquês
com a triste melodia desfiada aos olhos hesitantes,
guardada na caixa de música de madeira áspera
e rubra.

Ofereces-me o refúgio,
entre as portas que falam e dançam,
            — é no escuro que os meus medos aparecem
e tiras fotografias às convulsões
roubas, levas as sombras que apanhas escondidas no brilho do flash,
quando o meu corpo oscila para ti em púrpura-azul,
em movimentos fantoche, de corpo marioneta,
de boca aberta, de ferida aberta.



Confesso em segredo que o lamento dos relógios quando acusam os momentos que passam foi ideia minha.

Sorris porque já conheces o enredo.





J

Texto XXVI

Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013 às 15:00

Eu sei que esta dor, este queixume barato e/ou os constantes desabafos aborrecem. A novidade desaparece rapidamente e o tédio estala e instala-se. Limitas-te a um leve abanar basculante da cabeça enquanto lês um livro, deitada, inclinada no sofá em suspiros sôfregos, com os teus pequenos peitos escondidos entre as dobras do antebraço que vira as páginas desse romance. Não te censuro, o jovem rebelde sem causa perde o interesse quando morre velho e aposta em dores invisíveis contra as causas sem lei.

Mas pinto os breves instantes em que fechas os olhos de vermelho-púrpura assim, no pulsar da língua contra o palato, porque sinto o teu cheiro ainda; ou o desejo de te despir a boca com a sombra dos dedos, e é só (e é tudo).

Tenho saudades da gargalhada rouca, do abraço apertado, do amor dele.

E uso o teu para me esconder das minhas sombras.

E é só (e é tudo).




Tenho dois dedos na boca e mastigo-os
           — gosto do sabor da carne enquanto te desenho em sonhos na nuca
e reviro o corpo inquieto nos soluços da noite
neste martírio demorado/preciso/exacto
onde escolho ser o espelho baço, o destino oxidado,
traçado a regra e esquadro,
delineado nos ângulos rombos do meu quarto.



Sempre que viajo numa carruagem e um outro comboio cruza a minha janela de passageiro, vejo-o abrandar, imagino os corpos sem vida, ensanguentados, do outro lado do vidro e do alumínio frio, alguns ainda a estremecer um qualquer resto de vida; e quando a fluorescência das luzes abranda e fica na intermitência ou indecisão entre a luz e a escuridão, vejo o reflexo da tua sombra na janela, na minha janela, de pé, atrás de mim.




J

Sombras sem asas

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013 às 15:26

Colecciono pedaços de mim em frascos de vidro fusco, numa sala fumarenta com chão de carvalho, rodeado de papéis velhos, cartas — umas abertas, outras por abrir, recortes de jornal e postais que fui recebendo ao longo do tempo.

Oiço na minha cabeça um duo de saxofone e contra-baixo. Marcam o ritmo dos meus movimentos enquanto verifico se o frasco está limpo, à lupa, e escrevo a etiqueta (esta diz "1974"), passando o mata-borrão e, no verso, uma solução ou mistura de água com cola de madeira, ensinada pelo meu pai quando encadernava os recortes e fotocópias recolhidos minuciosamente, como se fosse o curador da história.

Não era.

E eu limito-me a coleccionar os meus pedaços.

O ar bafiento havia tornado a minha pele num amarelo macilento, enrugada, seca. Entorpecia-me a vista, subjugava-me em corcunda, velho, torto, gasto, feições meio desfiguradas, meio cadavéricas.

Nos dias com mais vento sentia por vezes vozes em surdina a soprarem-me na nuca através da janela de portadas cerradas que ocultava esta azáfama lenta e exacta. A sua sombra recortava-se pelas frestas de luz à altura e largura da janela, por cima dos meus ombros, bem longe do lá fora, do há-de e podia ser, quando já o era.

Raramente me levantava do velho cadeirão forrado a veludo verde (agora roto e queimado pelas cinzas dos cigarros). Por vezes parava, recostava-me enquanto respirava o fumo e demorava-me a fitar os dois quadros pendurados na parede, com imagens de pessoas das quais não me recordo dos nomes,

Texto XXV

Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012 às 00:24

o meu planeta tem duas luas
duas luas que guardas nos teus olhos
minto.

no meu planeta não crescem árvores em pranto

tenho larvas nos olhos, vês?

Quando te conheci tinha dois anos. Era primavera, trocávamos as vezes no baloiço do parque, havia um barco e um avião, velhos e ferrugentos, estávamos descalços e cheirava a terra molhada. Sorrias sorrias sorrias. Para mim, só isso. Éramos brincadeira, manchados de terra, felizes no nosso trepa trepa escorrega escorrega, no fazer sem pensar, no cair e levantar, era fácil, tu eu, a vida, o socorro, os nomes, as bocas, os olhos, eram fáceis.

E agora vendes-te a quem licitar mais. E eu ainda tenho o teu gosto na boca.



Dizem que gosto de cadáveres. É mentira. Juro.



Vejo as luas e sei: todo o destino percorre o passado e futuro que escondes nos teus medos e por aquela que morres. Deixa, se sonhas que morres é porque no fundo, sabes que irás acordar. É tudo tão simples. E incomensuravelmente difícil. Ah, se ao menos soubesses o quão bom que é adormecer nos teus braços, acordar com o bafo quente, doce, da tua boca, o sorrir porque te danço sem razão, porque é bom saber que a minha memória ainda é bem-vinda nos teus braços.

Não te sei explicar o que se sente quando o amor nos aceita sem razões. Pode questionar, ter ciúmes, amuar. Mas no fundo? ainda é o mesmo amor, desembrulhado; e isso é tanto.



Se eu morrer amanhã ou depois, levem o meu corpo a jantar, beber e dançar, escrevam-lhe cartas de amor de morte porque de amor vivo nunca recebeu notícias ou postais. Repartam a carne e mordam o osso, dá sorte. Com os olhos podem fazer bonitos colares. Evitem o desperdício da morte; a vida já não vai a tempo.

Peço desculpa: se eu amo é porque não o sei fazer com compromissos. Por mim ainda estaria no escorrega a comer gelado contigo, a espreitar por debaixo da tua saia.



Os meus ossos fedem ao passado. Rangem; velhos. O Futuro é miseravelmente igual. Resta-me apanhar lenha para a fogueira, esperar pelo solstício. Dizem que este ano irá ser soberbo. Quando a cegueira me abandonar podem pintar-me um desenho em forma de segredo. Até lá, olhem-me nos olhos e, de faca na mão, cosam-me as mentiras albas que me cercam as vísceras às vistas. Sem medos, sem medos.



É um desespero muito grande quando já sabemos o fim do livro, como acaba a história, e como se repete, vezes sem conta, num tédio escrito a sangue e merdas que julgamos serem a verdade absoluta, com alguma ironia aqui e ali, recheada de enredos de contos muito maus, em plágios sem imaginação. E é aí que nasce a vontade de pousar o livro e seguir caminho.

E verdade seja dita: o meu único ritual pagão segue outra... hm... religião.




J

Texto XXIV

Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012 às 00:07

A saudade é grande, apertada,
rebenta nos ouvidos e estala nos dentes,
escreve-te pequenos bilhetes que encontras nos bolsos
e, voraz, devora-te as noites.

A saudade inunda-te de perguntas, sela-te os lábios com as sílabas onde ecoam todos os porquês da palavra. A noite é apenas passageira neste veículo negro conduzido pelas sombras. Tu és o retrovisor. O motor que ruge e destila venenos, nas câmaras onde os pistões empurram tempestades. És o escárnio, a violência inata, o sádico desequilíbrio inconsciente para a verdade, o metrónomo parado. Deixa-me lamber-te os lábios retorcidos, recortados com tanta paciência ao amor coleccionado, filtrado e destilado às mentiras que te segredam ao ouvido.

A saudade pinta a paz nas incertezas, nas fraquezas humanas, no corpo descoberto, nu. Devias ter fugido quando criaste a oportunidade. Ela não é justa ou apela à razão, veste-te de madrugadas porque tens luas nos olhos, e o vento bate à janela e olhas e julgas que é, que são vozes, que são danças, abraços, a ilusão à hora marcada, o sorriso que morre no crepúsculo — mas são apenas os muros que não consegues derrubar porque, por mais que tentes, até o amor pode rodar sobre si mesmo e cair morto.

Viajas para longe e o que encontras? Perdeste o tempo, julgaste que atirar os dados à tua sorte era melhor que o vago, o incerto; e sem mostrares os trunfos escondidos nas cicatrizes que coseste perpendiculares aos teus pulsos deixas que a tua sombra te carregue (como sempre fez), mas agora leva dois cadáveres; e ambos sabemos o quão imperdoáveis que são as areias do teu deserto.

Não há como explicar o vulnerável.

Escolhe dançar, escolhe a música que ainda tens no corpo, pinta-lhe memórias nas asas e escreve-lhe cartas, não me importa se em ternário, empresto-te a minha linha preta (mas atenta: a agulha é usada, não te fures).

Tomba o êmbolo e preenche a câmara com o teu sangue, revela-o na câmara escura quando regressares ao hotel. Não te esqueças de o meter na cama antes de te deitares, limpa-lhe a comida da roupa (para a mãe não ver), passa-lhe um pano molhado na boca, descalça-o, tapa-o, e cresce, porque a vida come meninos ao pequeno almoço.

E sim, o tecto tem 38 manchas de sangue seco que desbota as três demãos de branco.




J

Texto XXIII

Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012 às 11:02

Reencontro-me.

A chuva lateral despe-me até ao branco osso
— sorri
— resta-me o esqueleto em dança.

Os meus dedos são longos e destemidos desfiladeiros, abismos de onde as sombras não escapam. A entropia do sorriso vermelho sangue, dos lençóis onde levo a enterrar o teu corpo todas as noites enquanto percorro a avenida pintada pelas ambulâncias apressadas, leva-me o sono sem razão de ser.

Desconheço as imagens, o filme sem personagens, o revirar desconfortável do coração que assiste enfático ao sopro desperdiçado
— mas tu não percebes;
a vida não é a aposta ou a incerteza do resultado,
a vida não é mais que um longo manual ou manuscrito ilustrado de como morrer.
O teu optimismo apenas torna os teus medos mais evidentes, dá-lhes um nome, uma face, uma sombra que nunca está presente nos nadas.

O vestibular crepúsculo dos meus olhos adivinha as formas das nuvens no céu.

O meu pé esquerdo treme, não sei, esquece-se que é um pé talvez, julga-se pássaro por momentos.

O papel de parede desbota-se por um segundo, assíncrono com o pesado movimento que os pulmões exercem contra o chão, toma como suas as formas roubadas às páginas do livro que me emprestaste.

As minhas mãos escondem-se dentro do peito quente e perscrutam as suas histórias, atentas.



J

Sonho II

Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012 às 00:05

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Tenho frio, só, o comboio pêndula na linha e leva-me a casa - vejo belas caveiras de osso negro no reflexo da janela, entre os gritos do passageiro e a parede exterior. Mas depois dos anos de anos de espera encontrei um sítio quente.

As carruagens chocalham e os corpos agitam-se, roubo-te um momento de atenção, penso, decido mostrar-te a inquietude em flash, o encanto dos meus amantes passados, e aposto os futuros, sem nada para morrer - porque a morte nunca tem tostões trocados.

Tubos de metal cromado alongam a passagem até à próxima carruagem de onde não podes voltar.

Apeadeiro. Saio e subo as escadas, os degraus amontoam-se nos meus olhos e a vertigem sacode-me violentamente, luz flash luz, os transeuntes olham desgraçados para dentro, lá em cima esperas-me com o teu exército. A mulher que trouxe ao mundo um império num quarto de hotel, e só porque tens esse olhos esqueces-te da cruz que carregas. Mas as lágrimas, essas, aniquilam o vácuo.

O quarto está escuro, a sala fria, o ar cheira a bafio e julgo que as paredes tombaram. Resguardo-me. A vontade era esta, já to disse, e sei que é errada, eu sei, mas que queres?, se não premir o gatilho o quarto continuará escuro e a sala permanecerá fria.

E o letreiro de néon continua a anunciar vagas no inferno. Anda, vamos passar um bom bocado.



Caio em mim, frio súbito, aperto as pálpebras com força. Sinto os dentes doerem, os maxilares cerrados. Exalo...

Fecho os olhos, ainda posso tentar.



Suspiro. Chove novamente, e já não sei onde deixei o casaco, sabes? onde?, resolvi despir-me e não preciso dele - algo me diz que não irei voltar. As nuvens saqueiam a cidade. De onde estou o cheiro a enxofre é até suportável, penso. Tudo se move em balanço marcado, lento, soberbo, redundante, tenho náuseas e dentro em pouco acordo, eu sei que sim.

As pedras da calçada têm sangue, movem-se, trocam de padrões, vês?, agora formam tentáculos e sobem pela fachada onde duas silhuetas discutem junto à janela. Pássaros abrigam-se da chuva debaixo dos alpendres e fitam-me o passo nu com os seus oito olhos de aranhas. As suas penas são cruas, de carne e onde deviam ter bicos têm covas com dois pequenos braços.

As náuseas.

Apoio-me no muro e olho em redor.




J

Texto XXII

Quarta-feira, 28 de Novembro de 2012 às 23:07

Conheço a revolta profunda que te rouba as feições, fui eu que a pintei com as gotas da chuva. Eu sei, tropeço nas palavras e enrolo-as na língua, dou-lhes o nó fatal, digo, (souvenir ou algo que o valha). Descanso.

À noite
todas as vozes ocupam
o ruído rosa,
desconstroem o espaço,
o tango apressado.

Sinto o ranger dos ossos 

da noite
à noite
sossego respiro vivo
amanhã ainda é dia e o ontem já não.



Declaro-me: sou a fome, a miséria, a dança triste do fim da noite, o olhar para baixo de cabeça pesada resguardado ao LARGO da vida, porque ela é vasta, e contínua.



Deixa-me divagar no teu corpo, no limiar da janela, onde a esquina desfaz a rua. Acena-me um adeus, ou olá, ao longe, e escreve-me em sonhos.



Sou ventríloquo de aluguer sem fantoche.
Carta de amor sem memória.
Corpo sem texto.

O vácuo.




J

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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012 às 23:33

Durmo de olhos abertos
porque alguém me regou os sonhos com gasolina
e girassóis

Não existe tempo
para o vento que me levas do peito

Roubo décadas à memória vermelha presa nos faróis dos carros que passam, e balanço o corpo no turpor de estar acordado. Tenho sangue nas mãos, sonhos, esfarelo o teu peito com a ponta dos dedos, somos grãos de areia eu e tu, grãos com que alguém escreveu a nossa luta na brisa de Outono.

O que farias tu com a faca quando todas as cartas do baralho são jokers?

Não me assombres com o teu amor, não me assombres com o teu sorriso, deixa-me à sombra da melancolia, das linhas tortas onde nascemos, que colorimos da maneira que sabíamos, como podíamos.

Sou amputado.


eutentomasnãoconsigo.

Desabafo em Mi Maior

Quinta-feira, 25 de Outubro de 2012 às 14:01



A mãe perguntou-me se iria escrever um texto sobre ti Zé. Ela vai ler um dos meus esta sexta-feira em Almada (a honra! eu pela voz da mãe, misturado com o Ary dos Santos e o Saramago!) e perguntou-me, disse-me "mas se escreveres um sobre o teu irmão eu prefiro ler esse".

Eu não consigo, "agora não" disse-lhe. Por isso vai em jeito de desabafo. Estou muito cansado, estou tão cansado Zé, só quero um abraço teu. Tu viste o pai feito corpo. EU vi o TEU. Não se faz meu filho da puta (desculpa mãe, mas ele merece). És um cabrão, um otário, um estúpido, O MAIOR IDIOTA QUE EU ALGUMA VEZ AMEI. Tinhas a testa tão fria meu cabrão de merda que mais valia ter arrancado e beijado o meu coração. E sabes que mais? Sou igual a ti, merda, fodasse. Merda de orgulho da família pá. Merda de machos românticos e orgulhosos. Merda para o pai e merda para ti e merda pra mim. Caralho. COÑOS DE MIERDA!

Dóiem-me os joelhos, vacilam quando caminho, tremo das mãos, os braços estão doridos não sei porquê, tremo das mãos, descobri que os canais lacrimais podem doer quando lhes damos demasiado uso, dói-me a cabeça inteira, à frente, atrás, dos lados, toda, e tremo das mãos.

Fumei três maços de tabaco na segunda. Um novo recorde.

E depois veio terça. E eureka. E dancei com a mãe junto ao caixão do meu irmão. Quantas pessoas é que podem dizer isso? Só TU Zé para me fazeres uma piada destas! Peguei-lhe nos braços e dancei junto ao teu cadáver — não eras tu, eram só os teus ossos, esqueleto. TU estavas ali connosco, até acho que me empurravas os pés, cantavas e ainda te ouvi desafinar uns acordes na guitarra, juro. O primo André apareceu (somos tios de um puto maravilhoso Zé, parabéns! olha por ele daí de cima!), a tia, a Alejandra, o Carlos, o Det, o Tosta, a Rute.. eram tantos irmãos teus; foram tão irmãos nossos. Foi tão bonita a festa Zé.

Fui sempre o mano mais novo. O puto. O pila murcha. E deixei de ser algures no tempo e davas-me ouvidos e respeitavas-me, olhavas-me atento. Que mudança que foi, ser aos teus olhos, um puto igual a ti. Dentro da tua imperfeição, dor, procuravas-me. E eu fechei-me tanto tanto tanto, com tanto medo que me roubasses o meu irmão que tinha guardado dentro de mim, novamente. Desculpa. Chamaste-me tantas vezes de injusto para contigo. Talvez tivesses razão, talvez, não sei.

Na terça feira apercebi-me que muita da minha raiva para contigo, que muita da minha mágoa derivava de seres irmão de toda a gente. E eu queria, precisava, amava ter um irmão só para mim. E tinha-o. Eu é que era demasiado cego para o partilhar. Desculpa.

Sabes que me lembro de me levares à apresentação da primária? Das segundas-feiras em que o pai estava de folga, completamente ébrio, a roncar na cama, em que tu me dizias para não fazer barulho? Do brilho nos teus olhos quando te disse que ia casar? E do calor dos teus braços quando me descasei?

Aprendi a dar abraços contigo Zé. Aprendi como as mulheres devem querem e merecem ser amadas com o avô. Aprendi a guardar tudo para mim com o pai. Mas o coração, esse é teu, é tão teu, copiei todas as arestas, todos os recantos, mudei-lhe os quadros e tapetes, mas é teu, teu.

Ouviste na terça quando te disse que aprendi tudo o que não queria ser contigo? É verdade. Ouviste quando disse que tudo o que eu queria era ser como tu? É verdade.

Devias ser tu a dançar junto ao meu caixão e não eu.


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Merda para estes joelhos.

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Ouvi-te domingo à noite a dizer "estou aqui, eu estou aqui" quando me deitei no chão da sala para tentar descansar. Eu sei que estás Zé. Todo eu sou TU. Todos nós somos TU. Todos os abraços são o TEU abraço. Todos os sorrisos são o TEU sorriso. Acredita nisso.

Sábado levo o que resta fisicamente de ti para um sítio onde passei uma das melhores noites da minha vida, que tu me apresentaste. Espero que gostes.


Amo_TE! Quero_TE! Beijo_TE! Abraço_TE! Choro_TE! Danço_TE! Canto_TE! Toco_TE!

_TE! Sempre. Sempre. Sempre.


Até já meu irmão, meu palhaço. Obrigado por me teres ensinado o verbo Amar.






J

Perdidos & achados VI

Domingo, 23 de Setembro de 2012 às 15:40

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Partilho contigo a minha falta de jeito
a fantástica habilidade que tenho para escrever coisas que ninguém percebe
palermices, pieguices, lamechiches, choros e lágrimas avulsas,
coisas de criança
de menino sem mãe que perdeu o pai
viciado no absurdo requinte da sua solidão
ou a desilusão que é abrir os olhos às quartas-feiras.

Estou preso em púrpura. É isso. Não percebes?

Explico: encosta a cabeça no meu peito e escuta. Não ouves o sangue a circular-me pelas veias, os pulmões a lutarem pelo oxigénio em vez do alcatrão ou o bater oco de um coração. Não. Ouves um leve ranger. Ouves o esqueleto debaixo da pele, cartilagem, músculos; é um viver preparado para o destino. Não?

Não escrevo para ti, sobre ti, a pensar em ti. Escrevo porque não choro. Porque o papel não me responde — é-me solidário no meu silêncio. Escrevo porque tenho em mim palavras-nuvem. São parágrafos resilientes, sabotados à nascença, cremados em cadernos sempre de luto. Eu não existo para ti — não espero que compreendas, nem tão pouco te peço que me leias. Ama-me, só. Não quero que te identifiques com a inércia do movimento pendular que o pulso leva à boca em sangue.

Sabias que quando ergo um copo e o levo à boca, se lhe vejo o fundo, reparo nos monstros que no fim do líquido se escondem?

É.

A verdade é que a demência, esta clausura de orações, me mantém livre. E ao contrário do que me dizem, vezes e vezes sem conta, o meu amor é a minha única arma. E sem ele seria igual a ti.

Não estou perdido, somente à deriva.



J