Fôlego

terça-feira, 14 de julho de 2015 às 00:54

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olha estes pés dançantes engolidos nessa gargalhada
nossa
na luz com que saudamos o sol
às histórias de romances que fazem dormir a noite

    sê fogo de artifício ou cicatriz deste beijo

deixa que a linha se cruze nas letras do meu nome
e vê como a agulha puxa a carne
    destas palavras desenhadas nos meus olhos

restam-me as mãos nuas, mergulhadas em vertigens
    de oceanos inteiros
        e tu lá no fundo
        és toda, um novelo de saudade

o meu corpo é naufrago desse abraço.


quero acordar na luz da resposta
quando quiseres fugir
    e ir

nessa brincadeira
arrepiada

destas costelas quebradas.



J

O tio da Alice

segunda-feira, 23 de março de 2015 às 14:33

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A Alice era uma menina que passava a vida a brincar com lagartas e gatos. Organizava festas de chá e atirava ovos contra o muro do vizinho. Rodopiava pelas folhas de outono e roubava tabaco ao pai, fumando cachimbo às escondidas. Às terças-feiras organizava corridas — usava o velho relógio de bolso do avô que havia roubado à sua mãe para cronometrar as suas passadas e desatava-se em pressas de chegar a lugar nenhum.

Um dia, ao voltar para casa ajudou a menina Ofélia (a octogenária ceguinha que vivia do outro lado da rua) a subir os degraus que a separavam da sua porta de casa. “Obrigado minha querida — és a Alice não és?” disse, amparada no conforto daquelas pequenas mãos que a guiavam “és tão bonita por dentro minha querida, muito obrigado”, e fechou a porta sem que a Alice tivesse tempo de lhe perguntar “por dentro?”.

É. Alice ficou a pensar nisso. Como é que a menina Ofélia conhecia o aspecto das suas entranhas? “Será que alguém me virou do avesso durante o sono e espreitou cá pra dentro?” Seria a Ofélia uma espécie de bruxa que apesar de cega, conseguia ver as pessoas por dentro? Os segredos e mentiras que carregavam consigo?

Intrigada, frustrada até por não saber as respostas a tanta pergunta, Alice decidiu fazer uma experiência: naquela noite, antes da visita que o tio costumava fazer até ao seu quarto, Alice arranca o seu olho esquerdo e engole-o. Queria muito descobrir como era por dentro, se seria realmente bonita. Queria ver o que Ofélia havia visto.

Rapidamente se arrependeu.

Logo no esófago, conseguiu vislumbrar pela primeira vez o seu interior — e não era bonito. Ali, escondido entre as artérias e músculos que lhe apertavam a garganta, encontrou o seu coração, cansado e gasto — havia tentado fugir-lhe pela boca.




J

Curto

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015 às 21:09

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A vida é curta demais para tanta preocupação, tanta cerimónia e falsos tímidos. O amor tem que ser cantado, gritado, sussurrado, lembrado e mordido. Não cabe num talvez nem no fundo de uma garrafa. Não se esconde com medo ou respeito, não se contenta e não é bem educado. Passam demasiado tempo a imaginar futuros para vocês próprios, sem se lembrarem que tudo acaba sem que vos peçam autorização ou sequer um aviso com sete dias de antecedência, em carta registada.

A vida é agora — não depende de um aumento ou do carro nem da casa. A vida abraça-se porque é música e tem asas e é tanta, e rodopia e cai e levanta de novo aos céus.

Somos os nossos irmãos, mães, pais, amigos e amantes. Somos as árvores com que nos cruzamos e o vento que empurra o rio. As ondas que desabam e castigam a praia. Um sorriso trocado com estranhos a caminho do trabalho, a preguiça que nos prende à cama. O cheiro do sexo, do soberbo sexo, do suor que trocamos com quem nos usa como tela. O tempo não nos mede pois somos infinitos. Hoje. Agora.

As memórias que iremos deixar a quem ficar não serão nossas. Não existiremos mais nesta dimensão. Voltaremos às estrelas em caudas de cometas, meteoros a rasgar os céus nocturnos. Em quem ficar restará uma impressão ténue, borrões de memórias boas e outras más — e só podemos desejar que se riam sem nós, por nós.

Somos energia — átomos colados como que por magia.


Esbanjamos demasiado tempo a pensar que não.




J

XXXIX

segunda-feira, 26 de agosto de 2013 às 14:30

Na imaginação deixava os braços descaídos
dados como vencidos,
mas quão alto que era o voo
embalado nas mandíbulas frágeis do momento
    envoltos numa névoa de brilhante azul
diamante, meteoros eternos na queda eterna
e sentia o peito saltar fora
    no sussurro do nome
        com a delícia do eco
            na boca



não havia ilha maior
para tamanho naufrágio





J

As manhãs sucedem-se

terça-feira, 13 de agosto de 2013 às 23:27


I


Havia sempre algo que restava na mesa, um pouco de mim ali ficava, esquecido entre as frases trocadas à refeição, no tilintar dos talhers usados com avidez, à gula da vida levada em pedaços mínimos fatiados com delicadeza e etiqueta. Eram banquetes à deriva, digo. A mesa continuava a flutuar nas vagas do lago, sacudido pelo vento que havia arrancado o telhado à casa, e a chuva amaldiçoava-me os ossos e estalava-os

— e pelo canto do olho continuava a observar-te, de dedos curiosos a esticarem as feridas abertas, a romperem os fios das cicatrizes, e deixava-te olhar para dentro enquanto me tiravas as medidas e as guardavas nos frascos coleccionados durante as tuas psicoses ou paixonetas sobre rapazolas, e dava-te a mão, apertava-te a mão.

Esta tempestade era diferente. O assobio do vento não me amedrontava, e o lodo levantado do fundo da água pela turbulência quase que me abraçava. Não, não tinha medo. Os relâmpagos mantinham-me acordado, a alma sobrevivia quando a cabeça já não conseguia. A sala era nosso navio e os mortos continuavam a bordo, mudos na sua inocência, eles também sobreviventes, baixando os olhos com o passar do cortejo.

— diz, por favor, diz ao miúdo que já pode sair de debaixo da mesa, as visitas já há muito que se foram embora e o tempo não lhe vale o esforço. Diz-lhe das flores. Sim, conta-lhe das flores mas não o pressiones. Atira-lhe porquês e guarda os porque-sims. Dá-lhe asas, ele conhece o caminho.

Há poucos sítios onde gostaria mais de estar. Tenho um prato vazio mas não tenho fome, e os pés já não os vejo por debaixo da água negra. Os cotovelos continuam apoiados na mesa, mão direita num copo por encher, a esquerda vai marcando o ritmo daquela música. Os meus bolsos enchem-se de água e ainda não encontrei o que de mim ali ficava...

— quando nadares até à terra com os teus frascos não te esqueças de os etiquetar bem.




II


As manhãs sucedem-se aos pecados
e a minha vista esquerda sucumbe, desaparece entre as gargalhadas
normais.

Não te enganes
— este amor morre comigo
não é para guardar em caixas
coleccionar em frascos
etiquetar e constar em inventários.

DEIXA. Quando passeava pelas ruas
reconhecia as janelas
imaginava-lhes reflexos, histórias
paixões acesas pelos meandros das palavras
amores arrancados às necessidades das carnes
filhos perdidos nas memórias dos pais
irmãos órfãos de irmãos
lágrimas derramadas em rezas a deus e à virgem santa.

Levava à boca palavras
sem estas terem sido inventadas ou pensadas
em bicos dos pés, junto aos telhados da cidade,
— tomava-as como minhas
esborratadas sobre os lábios de puta
de noites recortadas em suspiros.

É a única desculpa para a vida.




III


Quando me for e ouvires os meus passos arrastarem lá fora, junto à da tua janela,
não ligues — é porque levo comigo o peso da lua
num pequeno soluçar azul,
e deixa que o turpor da noite te leve em sono novamente
para dentro das feridas e das dúvidas e da dor
- mas por favor, se me deter à porta da tua casa não acuses o meu nome
os mortos não sabem ler
e as lápides esmagam-lhes o peito, impedindo-os de respirar.






J

XXXVIII

terça-feira, 30 de julho de 2013 às 14:21

deixei-te em todas as coisas
no caminho estreito onde nuvens se pintam de água negra
quando as saudades são o tracejado das fronteiras
nos mapas dos teus olhos, e o amanhã
é a envolvência.



o gato que sempre quis ser rato,
a memória que somente mente quando ousa ser verdade
porque - e sejamos sinceros
todos os sonhos o são.



a pincelada de azul,
centelha arrancada por um punho erguido
quando o amor é segredo
quando o amor é arma
e somos dança
o medo
das palavras
    à boca da noite,
        do segredo que mentia só porque queria ser verdade.




J

XXXVII

quarta-feira, 10 de julho de 2013 às 14:43

…sentado neste apeadeiro, sigo com os olhos o comboio da vida que já vai longe, desenhado apenas pelo fio da linha no horizonte. E o que vejo não são as carruagens que se desvanecem na distância ou o fumo da locomotiva atirado em nuvens pelo ar, mas o meu corpo que fica para trás… é como se os meus olhos fossem espelhos ou reflexos dos passageiros para quem fico cada vez mais aqui, mais longe.

Deixo que o corpo seja apenas pensamento, breve e fugaz constante universal, aquele ou outro qualquer momento de erro —
crer em absolvições ou actos de piedade.

não há mais trunfos no baralho.

deixo que a rua entre em mim
que os passeios altos escondidos nos vultos de quem passa
tombem em mim
com todas as formas escuras desenhadas por alguém
gigantes e trapezistas
— não, suspiro — deixo-me levar pelo calor que me deixa a boca seca

só não te conto todas as estórias
todas as palavras, letra a letra,
porque sei que sempre foi tudo teu
e é um tudo grande, redondo, uma liberdade imensa
tua
é como se a poesia futura
caísse em trambolhões, escada abaixo
para dentro da boca
dentro dos olhos
da boca.

ainda não inventei nenhuma maneira
uma singular vontade
capaz de encurtar as verdades
ceifadas.



J

XXXVI

terça-feira, 2 de julho de 2013 às 14:21

dos meus olhos não leves a esmola de prata,
deixa-a para que os diabos me levem em carroças de fogo
e iluminem a noite nas centelhas azuis
    labaredas de dedos
        fumo de gente

Deixem que a memória da poesia seja espalhada no topo de um monte a plenos pulmões
até que todo o cosmos se dobre no infinito.

As palavras sem lábios que as molhem não têm cor,
fendem-se.



J

XXXV

terça-feira, 18 de junho de 2013 às 14:25

A saudade substitui a água dos pulmões, deixa as manchas negras desbotarem dos dias, das fronteiras onde o meu sorriso termina e as memórias do teu começam.

Confundo-lhe os nomes, é como acordar e sem abrir os olhos saber que se está cego. E no entanto é nessa certeza azul que escolho traduzir todas as maleitas de que padeço, em ai's e ui's comuns. A inabilidade ou impossibilidade em adubar as espinhas de peixe nascidas na ponta dos meus dedos obrigam-me a viver nesta casa sem janelas, fruto da árvore antiga que se desembrulhou nos teus olhos.




Raios. Quando cuspo para o chão é apenas, e só apenas, para ver se continuo a sangrar.



E nada disto faz sentido. E é tão verdade quanto o céu ser apenas uma mera sombra do teu reflexo.


Aqui não há paixão ou amor,
apenas contos abruptamente terminados.





J

A Viúva

terça-feira, 16 de abril de 2013 às 14:24

Às 8 da manhã ela já lá estava. Sentava-se num banco de madeira gasta na estação, na linha dois, onde chegavam os comboios vindos de Lisboa e deixava-se ali ficar, o dia inteiro, até passar a ligação das 20h - que era  o último a chegar da capital. Sempre que entrava na estação cumprimentava-me com um sorriso e um aceno de cabeça.

Quando caminhava mexia os lábios mas não falava, parecia cantar mas não fazia som. Tentava ler-lhe o rosto mas não vestia nenhuma expressão, sem tristeza ou preocupação, alegria ou contentamento. Parecia-me apenas convicta do que a levava ali, àquele local, dia após dia - todos os dias. Era uma mulher tão bonita… de rosto esguio e contornos femininos, sempre muito elegante, de ombros atirados para trás, costas direitas, pernas altas… era ainda uma mulher nova, mas também mais velha que o tempo.

Eu ficava no meu gabinete de chefe de estação e via-a atravessar as linhas, arrastando a sua longa saia negra pelos carris, resoluta, agarrada a um papel amarrotado que me parecia ser o mesmo todos os dias. Vestia-se de preto, saia larga, camisa preta, sapatos pretos já gastos, e um lenço, também preto. Sentava-se cuidadosamente, dobrando os joelhos e inclinando-se para a frente, sem lançar o corpo para a madeira do banco, repousando-o apenas.

Continuava nas minhas tarefas diárias — a carimbar papelada, verificando os horários e transmitindo para os apeadeiros seguintes os respectivos atrasos dos comboios que passavam. De quando em vez olhava lá para fora e via-a tranquila, atenta nos seus bordados como se desfiasse os dias na linha que lhe encruzilhava os dedos.

Só interrompia a sua pose sempre que eu anunciava na estação a chegada de um comboio vindo de Lisboa. Deixava cair para o seu colo os punhos, com as suas rendas e via-a esticar o pescoço, espreitando primeiro as cancelas ao fundo da linha fecharem, e quando o comboio se apresentava no horizonte, com o apito que se ouvia no resto da aldeia, levantava-se, atirando com as linhas para o saco e juntava as mãos - parecia que esperava alguém. Ficava atenta, vendo os passageiros descerem das carruagens, a recolherem as suas bagagens. E quando terminava o frenesim e se ouvia o eco do apito do comboio novamente, sentava-se, sem mudar de expressão, e continuava a desfiar o dia, com as suas malhas e rendilhados.

Uma desses dias comentei a história da Miquelina com a minha mulher, à mesa durante o jantar, expliquei-lhe o curioso da situação, da menina que se veste de viúva e que segue para a estação todos os dias.

     — E fica ali, hora após hora. Vai comendo uma maçãs de vez em quando. Outras vezes reparo que fita o céu e murmura algo, embora eu não consiga perceber o quê.
     — Ó António… a Miquelina está à espera que o marido regresse da guerra…
     — Mas o Vasco não tinha já chegado? Há uns 3 meses ou que foi?
     — Parece que sim. Mas a Miquelina uma vez no mercado, umas semanas depois dele ter chegado, começou a chorar e em pranto berrava "ele não é o meu marido! ele não é o meu marido! o homem que voltou da guerra não é o meu marido!"…

E todos os dias a Miquelina sentava-se na estação, com as suas malhas e rendilhados, desfiando os dias, como se os pudesse desfazer e ordenar…



pra escrever como deve ser noutro dia.


J

XXXIV

segunda-feira, 15 de abril de 2013 às 14:31

num instante
o flash resgata a memória

          deixa-me sonhos debaixo da língua

escrevo o teu nome nas paredes e no céu
em andas, nos candeeiros das ruas
    na esperança que o vejas

é singular,
          estas letras que são tudo numa apenas palavra,

onde todos os sons dançam, e reverberam pelo espaço infinito,

sinto os cometas que se despenham nas palmas das mãos

          desenham-te amor
                    o improvável amor
          nas faces dos estilhaços da noite
          puxo-te para mim, em mim,
                    para este silêncio que guardei no peito
                              para ti, em nós.



J

XXXIII

quinta-feira, 4 de abril de 2013 às 14:31

o amor morre
e morre e morre
.

o peito bate com mais força
explode a cada solavanco
.

o candeeiro de mesa
faz tremer a chama, ali
.

as palavras vão de luto
e esmiuçadas
.

o futuro faz malabarismo
no fio do trapézio (sem rede)
.

as verdades socorrem-se de mentiras,
ditados e dizeres, quando espremidas escorrem
estórias
.

quando
saio da cama
levemente
és apenas sorriso
.

os segredos sine qua non
.

porque a morte morre
.



J

Texto XXXII

quarta-feira, 3 de abril de 2013 às 14:50

No comboio para a Covilhã não há destino porque a viagem é longa. Entre apeadeiros e paragens, somos embalados pelo crepitar das carruagens, do metal das rodas que carrega e segue pelos carris. Ignoramos os relógios ou a marcha do tempo, e sonhamos a paisagem que nos é desenhada pelo Tejo à janela, imaginando as batalhas que ali formaram montes e vales, ou os reis ali enterrados à sombra dos castelos erguidos, tomados e saqueados.

No comboio para a Covilhã viajam velhas e gordas, e velhas gordas, e velhas magras. Muitas moças também, roliças e sadias, de bochechas rosadas, que regressam a casa depois de uma semana de estudos em Lisboa. Se permitires aos teus olhos a indiscrição podes ver os namorados que se reencontram ao fundo da carruagem, que fogem dos cinco dias passados a correr e que apostam agora as línguas languidamente em duas noites escondidos na serra.

No comboio para a Covilhã deixo que a ternura da infância seja assombro do meu corpo. Recosto-me e o torpor leva-me as saudades e a melancolia das viagens no regional com os avós; do cheiro a laranjas; do xaile da Armanda; das estórias; de jogar à bisca; de ver o Joaquim jogar solitário. Gosto da tranquilidade, dos olhos fechados, do reflexo do sol nas águas que seguem a jusante.

O comboio para a Covilhã perde-se nos montes, paira nos caminhos que trepam os vales sequestrados pelo rio, abranda quando a maré invade o troço, e as águas tomam o corpo. Manda estremecer a terra com o peso do ferro gasto, com o peso dos corpos gastos que anseiam o regresso a casa.



J

Texto XXXI

terça-feira, 2 de abril de 2013 às 14:32

responde devagar
escreve cada palavra como se fosse a última
como se o tempo terminasse na ponta da língua
e os segredos fossem lápis-de-cor-azul

os dedos recortados em picotado
          abrem o papel de feltro amarrotado
                    em corações desbotados

e guardam,

guardam o sabor das bocas namoradas
          na brincadeira da escola
          entre carteiras, o negro do quadro
                    o recreio no pátio
                              as mãos dadas atrás do muro
          dos primeiros suspiros
                    até o primeiro trago de whiskey

          da roupa espalhada pelo chão do quarto
                    da incerteza da carne
                              à certeza do peito
   
          sem jeito, sem medos,
                    apenas envergonhados pela inocência

deixa, respira e responde devagar:
          Apostamos o futuro?



J

Texto XXX

quinta-feira, 28 de março de 2013 às 14:28

enquanto que os pés galgam caminho
a mente divaga
    — pega nas nuvens e escreve-lhes estórias no dorso
    — Às chaminés das casas dá-lhes nomes
entretém-se, sonha,
desfia as personagens que passam em parágrafos,
desdobra-as em diálogos,
dá-lhes tatuagens em copos de vinho,
e esconde-lhes o passado em brigas de facas
a bordo de navios que partem e regressam a lado algum.



E ela trabalhava num bar, um bar nocturno, mal frequentado, de copos partidos no chão e almas gastas ao balcão. Tatuado no braço direito um dragão porque, dizia, tinha esfaqueado o homem que a havia violado. Era confuso o ruído; ensurdecedor o fumo; as labaredas de discussões estremeciam o tecto. Jogava bilhar a dinheiro, e era boa jogadora. O decote generoso, o metro e sessenta, davam-lhe vantagem sobre os homens. A cara dura, a linguagem vulgar, sobre as mulheres. A única vez que saiu da cidade  foi para visitar os avós, quando era pequena, mas morreram, depois o pai abandonou-a, a mãe meteu-se nos copos e entregava-se a qualquer homem que lhe desse um pouco de atenção, sem ligar aos abusos. Quando conseguiu, fugiu e agora vive no fim do corredor, do bar, depois do balcão, encostada à parede onde estão colocados os tacos, a fumar um cigarro, a beber o seu vinho.

Texto XXIX

terça-feira, 26 de março de 2013 às 14:45

Há mais que o acordar, o revirar e dobrar o corpo na cama, para um lado primeiro, para o outro depois. Olhar o tecto e contar as razões para não mexer um músculo, para adiar o inadiável, mergulhar no desejo da eterna letargia, do eterno equívoco a que chamam vida.

Minguas a respiração com o peso que levas na alma e aceitas o inaceitável. Lentamente esticas as pálpebras e deixas as nesgas de luz que penetram pelas portadas das janelas entrarem pelo teu crânio dorido. Sentes os olhos dilatarem com a luminosidade e em contraponto, a dor de cabeça a aumentar, as têmporas a colapsarem - assíncronas, e riscos vermelhos cegam-te a vista em síncopes convulsas.

Respiras fundo.

É amanhã - dizes baixinho para ti, em confidência - é amanhã que renasço em mim. E rastejas para fora dos lençóis - derrotado e nu - mas só mais um, só mais este dia.



J

Saudade

sábado, 16 de março de 2013 às 10:18

A saudade é alimento da solidão
um roubo de vergonha da salvação
do abraço, do momento em que a voz do vento enche o peito
e o sorriso é alento
          — na fotografia guardada
          — no eco do pensar
o resguardo que a cabeça encontra junto ao bater do peito
          — que já não bate
          — já não respira

mas ri, e sorri, e é ensurdecedor
e leva da boca o fôlego,
e o silêncio do vácuo
          — fico sozinho com a transpiração que me desce pela nuca

e a saudade come, e a saudade morde
e mente e conta-te segredos ao ouvido
e come e morde e explode
e geme e morde e come
e quando te arranca o último pedaço de carne do esqueleto
do teu branco, nu esqueleto,
ainda ouves o leve murmurar do vento que desliza
serpenteia serpente
e te envolve no abraço da saudade
que se alimenta da solidão



se ao menos deixasse de ouvir o teu nome entre-dentes, à noite...



a saudade mancha-te as mãos em acordes de preto
escorre pela garrafa de tinto
          injectada nas veias
balança na torpe melancolia onde dança
          celeste
sempre enferma, débil
sem nunca dormir longe, vazia,
de cores tão verdadeiras,
          perfeitas na mentira.

Tu és absoluto, um caos esquartejado pelas
          bocas que te recordam,
e eu tenho ainda este abraço teu,
          esta vergonha ou fraqueza minha
neste amor que é meu.



e por fim, se não tiveres para onde ir,
          não te poderás perder
porque quando o teu corpo se transformar em geada
e levares à boca estas palavras
lembra-te:
          enches o peito de estrelas porque és infinito.





J



Texto XXVIII

quinta-feira, 7 de março de 2013 às 14:30

suspiro
em fumo
semeando chamas na ponta dos dedos
e as tuas pernas torneiam-me
estrangulam-me
libertam
          os medos na boca
num sonho azul
desenhado, rodeado neste abraço
          vil

os soluços são sorteados em lotaria
          na solitária paixão
          — a verdadeira prisão
quando o falso delinear de planos
          no espelho da noite
é gume rombo,
          memória de madrugadas
          queimadas no vermelho crepúsculo

as palavras mergulham da boca para o chão
          caiem pesadas sobre os pés
                    — o soalho de carvalho estremece
          e danças no reflexo dos espelhos
bandas sonoras de filmes em acordeão
          murmurando nuvens sem forma

só porque podes sorrir não quer dizer que o escolhas fazer.

e nem a pequena luz da demência me guia a bom porto
          nem os teus olhos esperam os meus quando acordo
                    — a tela continua branca aos pés da cama



J

Texto XXVII

terça-feira, 5 de março de 2013 às 12:49

Adormecemos e conto os dedos
as sombras, os esqueletos,
os braços dentro da cama
um coração que bate
no outro coração que morde
            — reviro os olhos à procura do espelho na penumbra

            Os suspiros nocturnos são destroços no limite dos estilhaços, filhos órfãos do teu corpo-explosão.

Pinto-me com a luz fosca, tosca, do candeeiro de rua acima da janela, por onde deixo o amor entrar em dilúvio.

Dizes-me para amputar o destino
e rodeias-me,
levas-me o oxigénio da garganta para nela plantares silêncios
            — sem porquês
com a triste melodia desfiada aos olhos hesitantes,
guardada na caixa de música de madeira áspera
e rubra.

Ofereces-me o refúgio,
entre as portas que falam e dançam,
            — é no escuro que os meus medos aparecem
e tiras fotografias às convulsões
roubas, levas as sombras que apanhas escondidas no brilho do flash,
quando o meu corpo oscila para ti em púrpura-azul,
em movimentos fantoche, de corpo marioneta,
de boca aberta, de ferida aberta.



Confesso em segredo que o lamento dos relógios quando acusam os momentos que passam foi ideia minha.

Sorris porque já conheces o enredo.





J

Texto XXVI

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013 às 15:00

Eu sei que esta dor, este queixume barato e/ou os constantes desabafos aborrecem. A novidade desaparece rapidamente e o tédio estala e instala-se. Limitas-te a um leve abanar basculante da cabeça enquanto lês um livro, deitada, inclinada no sofá em suspiros sôfregos, com os teus pequenos peitos escondidos entre as dobras do antebraço que vira as páginas desse romance. Não te censuro, o jovem rebelde sem causa perde o interesse quando morre velho e aposta em dores invisíveis contra as causas sem lei.

Mas pinto os breves instantes em que fechas os olhos de vermelho-púrpura assim, no pulsar da língua contra o palato, porque sinto o teu cheiro ainda; ou o desejo de te despir a boca com a sombra dos dedos, e é só (e é tudo).

Tenho saudades da gargalhada rouca, do abraço apertado, do amor dele.

E uso o teu para me esconder das minhas sombras.

E é só (e é tudo).




Tenho dois dedos na boca e mastigo-os
           — gosto do sabor da carne enquanto te desenho em sonhos na nuca
e reviro o corpo inquieto nos soluços da noite
neste martírio demorado/preciso/exacto
onde escolho ser o espelho baço, o destino oxidado,
traçado a regra e esquadro,
delineado nos ângulos rombos do meu quarto.



Sempre que viajo numa carruagem e um outro comboio cruza a minha janela de passageiro, vejo-o abrandar, imagino os corpos sem vida, ensanguentados, do outro lado do vidro e do alumínio frio, alguns ainda a estremecer um qualquer resto de vida; e quando a fluorescência das luzes abranda e fica na intermitência ou indecisão entre a luz e a escuridão, vejo o reflexo da tua sombra na janela, na minha janela, de pé, atrás de mim.




J