Troca de palavras, cuspir verbos preguiçosos, enrolados em raios de sol que convidam à letargia profunda, numa amena cavaqueira onde trocamos a gramática por dedos de cerveja. Ficas com inveja. Dedos pelos lábios molhados e já está. Regressa a vontade de ficar, espreguiçar a alma num copo qualquer.
Os braços juntam-se, as veias dissolvem-se em artérias que bombeiam o gentil sorriso, na sede pela carne, de lábios molhados em sonhos, do corpo que traz a sombra do desassossego no peito, a inquietação nos olhos, na boca, que nos veste a pele de arrepios estelares, desembrulhados um a um, - somos líquido um aglomerado que se deixa escorrer pelas mãos abertas.
Rodopiamos a nossa queda em sintonia, trocando caretas e esgares silenciosos, lendas de cabelo ao vento, braços abertos, para roubar o sol do céu, guardá-lo dentro de nós.
Calamos os mortos que já não dançam, penduramos crianças em dentes de lobos, arrancamos as vísceras do chão e pintamos a paz rubra.
A tua boca é afrodisíaco púrpura, graciosamente cheia do esperma quente.
uma gota de sangue que fluí,
cresce nas linhas da mão ressequida,
afagada num momento grave e solene,
de rasgos porosos semeados nas férteis rugas dos teus olhos.
a tranquilidade morosa,
digestão eterna do leite dos teus seios,
débeis sombras entrelaçadas do futuro sobranceiro,
de sabor frio, cuja realidade desembaraçada serve.
Acusar o asfalto com os dedos
- desfazê-los em castelos de cartas
retorcidos num grito histérico
- frenético morder de lábios
nos teus braços
- ranger os dentes em pó
saliva na boca
- escorrer a alma em suór
unhas para fora
- dançares de cintura
somos carcereiro e carrasco,
arriscamos com o gume de 7 facas rombas,
à espera da derrota.
Bom, aqui vai o meu motivo, desespero de causa de tudo aquilo que esqueci, escolhi lembrar depois, talvez amanhã - não interessa, quando decidimos viajar em direcção... espera, esqueci-me. Rias. Leva para casa esta lista - assenta tudo - e espera por mim; precisamos de baionetas, pólvora negra, estrelas - das normais ou económicas, linha preta e de uma agulha. Derrama a pólvora no teu ventre com cuidado, e usa a linha para coseres os olhos, e espera, por mim, sentada nas baionetas. Não demoro.
ele havia levantado a taça para comemorar o seu aniversário, corsário, gozava o sol como quem goza uma cerveja no fim de um longo dia de trabalho, descansado, com a luz do entardecer, dourado, num outono profundo. Levantava a taça e cantava, dizia, mentia a si próprio, de como havia de comemorar mais aniverários, rodeado de amigos, de gente que lhe cantavam as mais doces verdades, criadas naquele momento, reveladas no negativo das fotografias que lhe tiravam naquelas máquinas antiquadas que ainda usavam potássio e alumínio, sorrisos de alumínio, vagos, que lhe lembravam o calor do fim do dia no outono, quente, delicioso, tão belo e tão, tão certo.
deixava para o fim os presentes, as facas que escondia na face, desleixadas, rombas, com a ferrugem que tingia o bolor das suas pernas, enfraquecidas, ocasos da infância que se debruçava à mesa, com desdém pelas vagas lembranças que, vinha, -se, sem mistério.
balouçar incómodo, um actor desajeitado a fazer pela vida, sem saber todas as as as as as as linhas do papel, engasgado pelo guião que o fazia sentar, colado à pele, cabedal barato, vinil, entre as feridas que lhe nasciam nas virilhas, brotavam santificadas pelas palavras que tranquilizavam a todos, estas: calmas pessoas que nos abordam na vida, que nos perguntam quando pensamos deixar ou desocupar a vida, pois estão com pressa, muita, de sede -> revolta -> amarga, e ainda lhes cheira a gasolina.
um texto que se escrevia na parede seca, regada de vinho verde, na véspera da colheita, sem poder escapar, sem luta desistia facilmente.
recuava dois passos e dizia que estava tudo bem. as suas velas hasteavam dor q.b. naquela viagem só de ida que nos deixava a todos rias laços na garganta púrpura, deixados ao acaso da vida.
rebolávamos por entre as cobertas, nas frestas da luz do sol que era sobejo no teu cabelo, soberbo. Acalmava-me.
e seguíamos destino adentro, por entre as frestas da solidão, amparados no carinho da chuva,
na vida que nos sobrava,
de mãos dadas, entregues ao mundo,
de incentivos frágeis,
na distância fácil das carroças que passavam,
a melodia difícil que me escapava.
estrondoso o eco que despejava a vida por cima de nós, forte, como um tumulto entre a multidão, sem qualquer razão, apenas o profundo desejo carmim, muy bueno, da alma estelar deixada ao acaso.
e dormia. deitava-me e dormia. as coisas aconteciam à minha volta, vagaroso, tornavam-se vivas, para sul, enjauladas no sonho com significado, com a importância urgente do mundo, e embarcávamos de amarras soltas.
amar o teu amor, junto ao fim do mundo, precipício vertiginoso, de mergulho no tempo intacto das estações da nossa infância, lembras-te? pés descalços na areia quente, entre beijos teimosos e a plenitude errada das carícias que desfaziam a ganância do tempo, preguiçoso, entre ventos,
e subia a maré errada.
quando acordava, sabia-te nas minhas mãos. era tudo o que tinha sem verdade. apenas era. sabes? corrigia o texto rapidamente e entregava-o dactilografado a linha e meia, na antiga máquina de escrever que usava no teu corpo, o verão da minha consciência.
descobria a mensagem que usava para abandonar toda a fé e esperança, a intíma saudade do vento.
debruçava uma leve história que roçava os teus lábios, vergados ao sabor da alma, clandestinos da noite vaga, da memória vaga, em mim, na vaga que se levanta no horizonte, deslumbrante em toda a sua mortalidade, rápida ascensão à vã lembrança, memória AZUL do fundo do tempo, essa garrafa sem fundo que bebo sem perguntas, para sempre AZUL e para todo o sempre AZUL, algo escondido, na verdade.
as palavras que caíam sem ecos nas margens do rio, deixavam tombados os lábios que lentamente bebiam da sua água, provando cada pétala flutuante da flor que imitava as pálpebras dos olhos fechados, tingidos de cor-fechada, como lírios abandonados num jazigo qualquer, tatuados em nu
em castelo branco regam-se as nuvens com o suor das mãos, enquanto se carregam as vidas de cima para baixo, na azáfama desconhecida que resguardamos no corpo do outro que se deita ao nosso lado, esta noite e as outras que lhe antecederam, enrolados no fastio da cidade farta e gasta, solta-se sem querer um abraço que nos atira p'lo ar.
and the militant revolutionaries... ask 'em to show you one revolution that turned out to be what it promised, militantly. Let's take Russia, or France, or England, what have you, what they do is they smash the place down, and they build it up again and the people who build it up hang on to it and then they become the establishment.
as ideias que rebentam no limite do abismo, fogos-fátuos que iluminam a verdade remediada, na penumbra do dia o esgar de um sorriso que sopra ventos de tempestade, que dançam pelo sumptuoso, desejo incrível, a morte suculenta.
sonhava um dia poder levantar com orgulho a cabeça, em direcção ao sol que nascia no horizonte, rodeado pela imaginação que nunca me tinha falhado, embarcado nas vagas naufragadas de homens destroçados, restos das suas sombras e guerras, no amanhecer de uma nova vida que me abraçava forte, quente, bafejado pelos raios de luz que abriam os olhos semicerrados pela escuridão.
sonhava um dia ser quem querias que eu fosse.
sonhava um dia criar coisas com as mãos, pegar no barro húmido e dar-lhe forma, moldá-lo nas loucas ideias que me escorrem pelas frestas das guelras, em homem tubarão ou lobo solitário, longe de casa, perdido nas memórias do futuro certo, já gasto de tão calculado, destruído nas vagas sílabas que arrancava a cada soco, pancada seca na verdade cuspida em sangue, lobisomem ancião.
sonhava um dia poder rapar o cabelo da cabeça com a ponta dos dedos cravados na carne.
sonhava um dia crescer, perder a inocência frágil que abençoa a brisa fresca da primavera, naquela quinta onde cresci, rodeado de pântanos e galeões de piratas, distraído das palavras que me ecoavam rápidas sem vontade, apenas um destino, não havia que justificar, apenas fazer. mergulhar na lama de sorriso na cara, crente na fé humana, aquele ardor que nos vem de dentro quando sabemos que algo está certo, não há como negá-lo, não há possíveis nem impossíveis, apenas há o tempo que serve para gastarmos gulosos.
sonhava um dia poder morrer com todas as dívidas pagas.
sonhava um dia subjugar a vontade, dobrá-la, chamá-la à atenção da virtude, à carne fétida que explode em bolhas de pus, envaidecida que está pelas vozes na minha cabeça, sabes. sei o que está do outro lado e não quero trepar o muro se posso continuar a ser rei do meu castelo. alegre e feliz. alegre, feliz. não me lembrava de como era, da raiva de não conseguir estalar os dedos, ser dependente das sombras que nem se lembram do meu nome, escolhido ao acaso para liderar a marcha solene do leve caixão que segue vazio com vinte-e-nove cavalos negros que o escoltam atrás.
sonhava um dia poder conversar com o meu esqueleto, contar-lhe piadas e assim.
sonhava um dia, sonhava um dia poder tocar-te, dizer-te baixinho ao ouvido "consegues ouvir a voz que me cega? consegues ouvi-la? diz-me, consegues?", e mostrar-te o mundo, arrancar os olhos das órbitas e dar-tos, mostrar-te o meu mundo, e crescem-me as unhas, esgota-se a pele das paredes da casa, e sobejam orgãos - rins, fígado, o pâncreas guardo para mim, coração - sobejam em pestilência uníssona junto à lareira, perto do copo de vinho quente, com o estranho gengibre que me mancha os dentes, ah... a doce cicuta.
sonhava um dia poder dormir embalado nos teus braços de celofane.
a vida que deixa de ser controlada, cronometrada ao segundo, que deixa de ser minha, vertigo brusco pelas entranhas da morte que me busca apenas mais uma vez.
rasgar-te a boca e arrancar-te cada mentira que te apodrece os dentes, uma a uma, desligados do caos que ousa perturbar os sonhos dos gigantes adormecidos, surpreendidos pelas vozes, irão levantar-se para esmagar todos os opositores, tombando os vultos que te cercam do passado, aqueles que se escondem nas brincadeiras que nada mudam, não há maneira de regressarmos aos casulos que nos protegiam da centelha cósmica impregnada pela dor caustica dos meus olhos.
poderia arranjar maneiras de viver com a dor, lutando contra as marés que vazam as sementes das minhas mãos, como os gafanhotos que dizimam as novas colheitas da primavera, resistindo à maneira como posas com a navalha perto do pescoço, uma graça, o sorriso de menina leve - navegas pelas estrelas! e consegues afundar-me as veias em estranhos dias de suór.
queria tocar as tuas vinte-e-nove faces.
consegues sentir a fresca tinta que tinge as paredes de vermelho, aquele cheiro asfixiante da resina dos meus braços secos, enrolados no sexo virgem de uma prostituta com vinte-e-nove braços, e sentir a fresca tinta que tinge os meus olhos de purpura?
lembras-me o fastio que é lamber as farpas que se prendem na carne.
escolho a solidão estável, o saber que se morre apenas, agarrado à vontade de existir inocuamente, na criação celestial dos astros que me cercam o esqueleto, aqui, enterrado na derradeira mortalha, um vago sorriso sem sal, de olhos esquecidos para o mundo.
Mecanizados em esferas lisas, no movimento perpétuo das engrenagens que fazem o mundo girar, rodeados das fraquezas que não conseguimos evitar, ver, que se erguem à nossa volta, nas nuvens, descendo em queda abrupta sobre o chão, estremecendo tudo, crateras de sorrisos, desenterrando os vermes que nos devoram a carne dos ossos.
É clássico, é bom, como é bom, eu lembro-me.
Dançamos sempre ao sabor das ferroadas nos dedos, de arrependimentos sentidos nos olhos, sem névoa que esconda a vergonha, com as dentadas esbatidas no horizonte das nossas costas, que acariciam os momentos passados e presentes, naquele desdém incerto - o futuro.
Violetas plantadas nos cantos das nossas sepulturas, semeavam o vento no nosso esqueleto, enganadas pelas palavras hesitantes deixadas por semear, no trovejar das vidas que passavam.
Quando a noite desceu no bosque, as bruxas saíram para cantar à lua cheia. Os demónios acompanhavam-nas num sussurro sibilante que lhes iluminava os corpos. Corriam por entre as trevas que as árvores protegiam, desprovidas de qualquer vestuário, com os seus seios voluptuosos pintados com as cores do sol. A mais bonita, de cabelos negros capazes de fazer corar qualquer abismo, dançava sem parar, absorvida pelo espirito maléfico da noite. Bruscamente, do meio do arvoredo, eis que surge uma luz intensa e poderosa donde nasce o filho das trevas, que assume a forma de dragão. Este colosso dourado, com os olhos vermelhos de fogo, preparava-se para comer a refeição que as bruxas lhe haviam prometido, a filha do rei. Esta encontrava-se desmaiada, deitada num altar de pedra, nua, com os seus longos cabelos que reflectiam o ouro mais puro a cobrirem-lhe os seios, que eram desejados por todos os homens do reino. A sua virgindade iria garantir a renovação dos poderes do monstro que a contemplava gulosamente. Nisto, o nosso herói sai do escuro para matar o dragão. A sua armadura, feita de asas de anjo, iluminava toda aquela escuridão, cegando mesmo o dragão. As bruxas caíram, uma a uma, pela lâmina da sua espada, que parecia sorver o sangue das suas vitimas. A mais bonita de todas as bruxas conseguiu fugir, colocando-se por detrás do altar, sufocada por toda aquela emoção. Quando o jovem guerreiro se preparava para atingi-la, pronto para executá-la com a sua lâmina, os seus olhares cruzaram-se e as suas mãos tocaram-se. A lâmina caiu com um estrondo, desfazendo-se em pó, enquanto que a bruxa e o nosso herói se tocavam, apaixonadamente. O dragão tinha desaparecido, receando aquele amor repentino. O sol ameaçava já romper as trevas e a jovem princesa havia fugido daquele cenário, aventurando-se pelos caminhos proibidos, onde os salteadores saqueavam e violavam as suas vitimas. O guerreiro e a bruxa uniram-se num amor eterno, transformados em pedra com a luz do sol. Agora, as bruxas reúnem-se de volta deles todas as luas cheias, nuas e puras, para celebrar o amor.
O sonho é uma das características mais importantes do homem. Sem sonhos ele não é ninguém. Se o homem não se atrever a sonhar e a conquistar esse sonho, ele nunca ganhará a (dita) experiência da vida. Morrerá arrependido de ter nascido. Nunca poderá ver-se privado de algo, nunca conseguirá viver.