Partilho contigo a minha falta de jeito
a fantástica habilidade que tenho para escrever coisas que ninguém percebe
palermices, pieguices, lamechiches, choros e lágrimas avulsas,
coisas de criança
de menino sem mãe que perdeu o pai
viciado no absurdo requinte da sua solidão
ou a desilusão que é abrir os olhos às quartas-feiras.
Estou preso em púrpura. É isso. Não percebes?
Explico: encosta a cabeça no meu peito e escuta. Não ouves o sangue a circular-me pelas veias, os pulmões a lutarem pelo oxigénio em vez do alcatrão ou o bater oco de um coração. Não. Ouves um leve ranger. Ouves o esqueleto debaixo da pele, cartilagem, músculos; é um viver preparado para o destino. Não?
Não escrevo para ti, sobre ti, a pensar em ti. Escrevo porque não choro. Porque o papel não me responde — é-me solidário no meu silêncio. Escrevo porque tenho em mim palavras-nuvem. São parágrafos resilientes, sabotados à nascença, cremados em cadernos sempre de luto. Eu não existo para ti — não espero que compreendas, nem tão pouco te peço que me leias. Ama-me, só. Não quero que te identifiques com a inércia do movimento pendular que o pulso leva à boca em sangue.
Sabias que quando ergo um copo e o levo à boca, se lhe vejo o fundo, reparo nos monstros que no fim do líquido se escondem?
É.
A verdade é que a demência, esta clausura de orações, me mantém livre. E ao contrário do que me dizem, vezes e vezes sem conta, o meu amor é a minha única arma. E sem ele seria igual a ti.
Não estou perdido, somente à deriva.
J
Perdidos & achados VI
Perdidos & achados V
Amon Tobin - It's a Lovely Night
o segredo tinto derramado sobre a toalha de mesa
e suspiras
o copo cai-te da mão
redondo
na queda
resoluto porque no final só dançam os estilhaços
+
o corpo resvala-te na nuca
e balanças os ossos na madrugada que chega
molhas a boca na atenção retirada de uma revista antiga
inspiras
os dedos cerram-se como as costelas do cadáver a quem retiram o esterno
+
apodreces no teu sítio frenético
atordoado pelo envidraçado das cores soltas
às teclas negras do piano
tentas fechar os olhos
mas o negro é demasiado ruidoso
e as estocadas não te matam
+
ergues um braço, o direito julgo, e tentas pendurá-lo na parede, tentas escrever mentiras, tentas o mergulho encarpado para o chão, mas o teu corpo imóvel é a massa uniforme na vontade letárgica do engano, e nem a gravidade te atura.
+
Flutuas
e suspiras outro segredo tinto.
Dói-te o lado esquerdo do peito, pensas; já nem a morte te chega.
—
J
Perdidos & Achados IV
Resgato das notas o teu retrato, encontro o teu sorriso quando me dizes pra fechar os olhos e esqueço, esqueço que nao guardo memoria das tuas feições ou da loucura destilada pelo tempo na manhã vermelha que se expande, e ocupa a parede erguida na penumbra dos beijos rasgados um a um, das cartas que te escrevi, das linhas perfeitas que a minha saudade desenha no riacho sibilante de fundo púrpura onde te encontro flutuante em mim, onde eu me encontro em ti, flutuante.
Sinto os destroços do dia ainda por fragmentar e espero que leias mais esta carta e a envies a alguém que conheças, alguém de quem tenhas saudades, alguém que tenha deixado saudades.
Em segredo confesso — o lento lamento dos relógios que acusam o movimento centrífugo dos momentos que passam foi ideia minha. Sim, eu sei. Sou incêndio, e cá dentro coses a garganta com a corda sobre as qual penduras os teus lamentos.
E no entanto, escolhes sorrir, porque já conheces o enredo.
J
Perdidos & Achados III
Os incêndios extinguem-te os olhos, furam a pele naquele abraço absorto só para te levar todo o ar dos pulmões. A terra alastra na garganta. A negra tez. As cicatrizes.
Quando descobrirem o meu cadáver a única parte de mim que irão reconhecer serão os meus ossos deixados na vertente imaginária do espírito, do ébrio consciente da fogueira, nas achas e no ar nocturno — o teu rodopio de cintura.
o oxigénio evade-me os sonhos,
sou negra visão futura
— desembrulham-me o novelo de veias, meu e teu
descobrem tesouros,
tormentas de latão.
A luz pinta-me monstros na face — descobre-os?
e subitamente oiço a sombra do meu coração.
J
Perdidos & Achados II
Os teus olhos são cicatrizes que usas orgulhosamente no rosto.
Deles brota o vidro que espelha o meu reflexo.
Somos estilhaços da saudade, esse engenho que implode.
J
Perdidos & Achados I
Desce
e cresce nos dedos
a noite
de sonhos fantástica
o sono
cortado, separado pelas linhas
da loucura voraz
e a luz brota nos sítios onde plantaste as mãos.
Abraço
o cansaço da boca
frágil
amarrada à mentira
fácil,
a felicidade na montra
de vidro frio
onde as veias translúcidas não servem de câmbio.
—
Fecho os olhos e cauterizo os lábios.
—
J
