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rock & roll

segunda-feira, 2 de agosto de 2010 às 01:10

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Interpol - Lights
Existe algo que nos liga,
algo que nos surpreende e nos leva a dançar,
amedrontam-nos sempre em doces loucuras
que as bocas cometem na sombra da maré
que enche e afoga a enseada.

E vagarosamente,
sem a mínima pretensão,
vemos...

Olhamos as estrelas,
as ilustres lembranças do êxtase,
da inveja que leva a carne e o sangue,
que nos deixa apenas os esqueletos das nossas sombras.

E isso é tanto.

Dançavas as verdades que emboscavam os abraços,
enquanto que o azul púrpura da tua língua limpava os ossos da minha gasta carcaça.


J

*ahem*

terça-feira, 8 de julho de 2008 às 13:00

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ahem

faltam...

terça-feira, 24 de junho de 2008 às 22:49

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inverno do mundo

segunda-feira, 23 de junho de 2008 às 11:40

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as ideias que rebentam no limite do abismo,
fogos-fátuos que iluminam a verdade remediada,
na penumbra do dia o esgar de um sorriso que sopra ventos de tempestade,
que dançam pelo sumptuoso, desejo incrível, a morte suculenta.


J

demência

domingo, 22 de junho de 2008 às 23:12

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sonhava um dia poder levantar com orgulho a cabeça, em direcção ao sol que nascia no horizonte, rodeado pela imaginação que nunca me tinha falhado, embarcado nas vagas naufragadas de homens destroçados, restos das suas sombras e guerras, no amanhecer de uma nova vida que me abraçava forte, quente, bafejado pelos raios de luz que abriam os olhos semicerrados pela escuridão.

sonhava um dia ser quem querias que eu fosse.

sonhava um dia criar coisas com as mãos, pegar no barro húmido e dar-lhe forma, moldá-lo nas loucas ideias que me escorrem pelas frestas das guelras, em homem tubarão ou lobo solitário, longe de casa, perdido nas memórias do futuro certo, já gasto de tão calculado, destruído nas vagas sílabas que arrancava a cada soco, pancada seca na verdade cuspida em sangue, lobisomem ancião.

sonhava um dia poder rapar o cabelo da cabeça com a ponta dos dedos cravados na carne.

sonhava um dia crescer, perder a inocência frágil que abençoa a brisa fresca da primavera, naquela quinta onde cresci, rodeado de pântanos e galeões de piratas, distraído das palavras que me ecoavam rápidas sem vontade, apenas um destino, não havia que justificar, apenas fazer. mergulhar na lama de sorriso na cara, crente na fé humana, aquele ardor que nos vem de dentro quando sabemos que algo está certo, não há como negá-lo, não há possíveis nem impossíveis, apenas há o tempo que serve para gastarmos gulosos.

sonhava um dia poder morrer com todas as dívidas pagas.

sonhava um dia subjugar a vontade, dobrá-la, chamá-la à atenção da virtude, à carne fétida que explode em bolhas de pus, envaidecida que está pelas vozes na minha cabeça, sabes. sei o que está do outro lado e não quero trepar o muro se posso continuar a ser rei do meu castelo. alegre e feliz. alegre, feliz. não me lembrava de como era, da raiva de não conseguir estalar os dedos, ser dependente das sombras que nem se lembram do meu nome, escolhido ao acaso para liderar a marcha solene do leve caixão que segue vazio com vinte-e-nove cavalos negros que o escoltam atrás.

sonhava um dia poder conversar com o meu esqueleto, contar-lhe piadas e assim.

sonhava um dia, sonhava um dia poder tocar-te, dizer-te baixinho ao ouvido "consegues ouvir a voz que me cega? consegues ouvi-la? diz-me, consegues?", e mostrar-te o mundo, arrancar os olhos das órbitas e dar-tos, mostrar-te o meu mundo, e crescem-me as unhas, esgota-se a pele das paredes da casa, e sobejam orgãos - rins, fígado, o pâncreas guardo para mim, coração - sobejam em pestilência uníssona junto à lareira, perto do copo de vinho quente, com o estranho gengibre que me mancha os dentes, ah... a doce cicuta.

sonhava um dia poder dormir embalado nos teus braços de celofane.

a vida que deixa de ser controlada, cronometrada ao segundo, que deixa de ser minha, vertigo brusco pelas entranhas da morte que me busca apenas mais uma vez.



J

carne pus sangue morte.

teodolito

às 16:48

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why can't you look the other way..
rasgar-te a boca e arrancar-te cada mentira que te apodrece os dentes, uma a uma,
desligados do caos que ousa perturbar os sonhos dos gigantes adormecidos,
surpreendidos pelas vozes, irão levantar-se para esmagar todos os opositores,
tombando os vultos que te cercam do passado,
aqueles que se escondem nas brincadeiras que nada mudam,
não há maneira de regressarmos aos casulos que nos protegiam da centelha cósmica impregnada pela dor caustica dos meus olhos.

poderia arranjar maneiras de viver com a dor,
lutando contra as marés que vazam as sementes das minhas mãos,
como os gafanhotos que dizimam as novas colheitas da primavera,
resistindo à maneira como posas com a navalha perto do pescoço,
uma graça, o sorriso de menina leve
- navegas pelas estrelas!
e consegues afundar-me as veias em estranhos dias de suór.

queria tocar as tuas vinte-e-nove faces.

consegues sentir a fresca tinta que tinge as paredes de vermelho,
aquele cheiro asfixiante da resina dos meus braços secos,
enrolados no sexo virgem de uma prostituta com vinte-e-nove braços,
e sentir a fresca tinta que tinge os meus olhos de purpura?

lembras-me o fastio que é lamber as farpas que se prendem na carne.

escolho a solidão estável, o saber que se morre apenas,
agarrado à vontade de existir inocuamente,
na criação celestial dos astros que me cercam o esqueleto,
aqui, enterrado na derradeira mortalha,
um vago sorriso sem sal, de olhos esquecidos para o mundo.



J


pleasurable lust.

nude

segunda-feira, 9 de junho de 2008 às 23:09

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nem mais. fodasse. original aqui. fodasse.


J

ossadas

sexta-feira, 30 de maio de 2008 às 17:26

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como se não houvesse amanhã, rugia o leão do topo da montanha, rodeado das ossadas dos seus adversários.

como se não houvesse amanhã, subias a escadaria de vinte-e-nove degraus que terminam em queda abrupta.

como se não houvesse amanhã, enxugavas as lágrimas do rio, lavando o sangue das mãos naquele rolo interminável de.

como se não houvesse amanhã, tossias os pulmões a cada golfada de ar fresco, merda.

como se não houvesse amanhã, fodias, pois já ia longe o dia em que deixaste de ser e a noite continuava intermitente nos olhos.

como se não houvesse amanhã, decidias terminar o dia de hoje, todos os dias.

como se não houvesse amanhã, mordias a língua para ti.



J

*ahem*

domingo, 25 de maio de 2008 às 15:53

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sem um destino marcado, incerto, nos cruzamentos que nos levaram de encontro a esta palpável realidade infeliz, coroados como reis neste burlesco cabaret, sem contra-mestre ou algo que o valha, entregues apenas às vicissitudes do sempre inadiado futuro, enquanto que a minha face se desfaz em fragmentos mil, negros e afiados, onde o corpo se entrega sem vontade às manhãs que se seguem.

por isso, vão buscar as vossas vinte-e-nove facas e arranquem todos os pedaços negros de mim. rasguem a tenra carne com se fosse a de um bebé fresquinho - daqueles acabadinhos de fazer, ainda com o leite das tetas da mãe a escorrer-lhe pelos cantos da boca, lambão - entregue às tormentas dos mares que estalam sobre as nossas cabeças, todas as noites até ao fim dos tempos, os meus e os vossos.

por favor.


J

vinte-e-nove lugares vazios

sábado, 24 de maio de 2008 às 12:36

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vinte-e-nove

vamos retirar as raízes da terra,
movimentar o tronco da velha árvore,
leve inclinação para a frente,
espelhar a longa sombra de gigante tombado pela relva ocre,
deixar que o vento agite os galhos, sem a mínima consequência directa.

vamos deixar que os nossos pés dancem,
em bicos, apoiados nos dedos,
ao verem o caixão passar,
acorrentado aos vinte-e-nove cavalos brancos,
alimentados naquele circo pandemónio,
na breve chuva de verão que tinge o céu de sombras púrpuras,
de reis e imperadores caídos,
deitados por terra, sem raízes.

vamos entrar pela porta,
deixar as janelas e os outros atalhos para quem deles precisa.

vamos guiar até casa naquele carro vermelho,
movendo o sol e as estrelas para longe,
empurradas pelo caleidoscópio das línguas entornadas pela verdade,
em graças dadas pela igreja e pelo papa,
- olha como a lâmina se sente confortável nos meus ossos.

vamos deixar a economia de palavras para quem percebe de números,
escolhendo a facilidade das vãs promessas que são cumpridas,
escolhidas aleatoriamente pelas sílabas que descem pelo pescoço,
em gotas de mel colhidas gentilmente pelas mãos que te acariciam,
falsas, gastas, escondidas pela gentileza da vida que sopra em nós,
e a sobriedade que flutua pelo ar, suave, rangendo os dentes à nossa volta.

vamos buscar os nossos brinquedos, os de brincar e os outros,
para rasgar as feridas que jazem cruas na pele estaladiça e condimentada,
e fazer mil acepipes - fantásticos! - que nos alimentarão as bocas para sempre,
esperançados numa esperança melhor, algo melhor, de mais fácil digestão,
entregues ao rio de sangue que escorre pelo espaço que te sobeja entre dentes,
quando mordes o céu com todas as ganas que cresceram selvagens todo este tempo,
deixadas à vontade divina daqueles homens e mulheres que jogam à vida como deuses.

vamos dormir como se não houvesse amanhã porque amanhã é já daqui a bocado, e isso, é muito tempo.

vamos brindar à escuridão que nos envolve, a mítica e feroz viúva da morte,
aquela dama que se recusa, que não é dada, que tem de ser reconquistada todos os dias,
nos jogos de guerra criados para entretenimento da plateia ávida por mais,
mesmo quando nos restam vinte-e-nove lugares vazios.

vamos ouvir a orquestra do tempo que faz soar os tambores das tempestades,
sentir os calafrios na espinha quando a terra ruge por mais carne pútrida,
na doce melodia desesperada da vingança nascida nas rugas dos beijos deixados sós,
quando os rios se transformam em soldados ferozes de ideias puras,
comandados pela seda suave da pele que se consome frágil,
pelos vermes que irrompem em discursos de batalhas perdidas nas vinte-e-nove noites solitárias.

vamos abraçar o nosso esqueleto e dizer-lhe o quanto lamentamos.



J

bendita sejas

domingo, 18 de maio de 2008 às 18:43

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úúúú

farto dos teus sucedâneos de felicidade instantânea, daquilo de juntar água "e já está", queria-te puxar para mim e arrancar-te os olhos da cara com a ponta dos dedos, mas apenas me consigo rir ao ver-te deitada, desamparada e abandonada, no meio da urina a pedir por mais, com aquele riso libidinoso e olhos de menina traquina, num outro universo qualquer que te ampara a queda, mesmo depois das trinta noites de coito ininterrupto com todos os arredores desta bela localidade - merda - mesmo com as mães solteiras e os pedófilos chupistas que te engolem o sangue que te sangra das pernas às catadupas.

tentas construir uma prisão, qual redoma de vidro, palco ou régie, de marionetas, e entretens-te a puxar os fios, com o dedo no recto, e chupas - que bem que chupas! - derretendo a carne bolorenta nos lábios, de olheiras deslavadas, as rugas que te revelam a idade - uma pita por sinal - de rua. falta-te o discernimento para haver um poder, um verdadeiro poder, com o qual possas conquistar o mundo. até lá, és uma piada barata, daquelas escritas nos compartimentos individuais e urinóis deste magnífico país.

ainda me lembro do teu belo esqueleto que me sufocava há umas eternidades atrás. e tudo o que sobrou foi uma mancha ácida, aquele fétido sabor a morte na língua, sabes? claro que sabes. e agora entretenho-me, voyeur, na magia que é ver-te pedir por mais, em exclamações e interjeições gesticuladas em desespero - uma busca de perdão talvez? - mergulhada num belo saco de merda, daquela fofinha e verde.

gosto da maneira de como a tua carne se separa dos ossos à medida que tentas esboçar um sorriso. felicidade, bliss. uma diáfora quadrada que te descreve perfeita - como? como como? como como como - e continuas, os teus membros agitam-se frenéticos a tentar trepar pela parede de pilas que não têm cerimónia em jorrar, possuir-te, todas as vezes em que piscas os olhos. e o teu pus - catarro da alma? - escorre-te pelos joelhos, numa poça amarela e laranja, que enxambra desembaraçada pelo escoadouro que te leva, dejecto pestilento, para o oceano de merda que escondes debaixo da cama para ninguém ver.

bendita sejas mulher.



J

duas moedas

sábado, 17 de maio de 2008 às 19:28

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tu disseste que não interessa e eu encolhi os ombros, concordei, e fitei-te "olha lá, tens a certeza?" e tu começaste com aquele discurso sobre a eternidade, aquela tranquila eternidade de abraços, agarrados à morte, sem romper o frágil, o ténue arrepio que nos rasga o peito, envoltos na mortalha velha, disseste "o tempo não espera por nós" de olhos arregalados, grave, lá do alto do teu sacramento, e gesticulavas sobeja, como se te saissem dos lábios a música divina, música dos anjos, daqueles sem sexo, anafados e rosados. "onde é que ficamos" perguntei, viraste costas, e apontaste, primeiro o braço esticado e depois o dedo, para norte, "ali" sublime. não sei quantas vidas fiquei ali detido, a olhar para ti, em estado de consolo, numa qualquer espera ou marcha matrimonial, sagrada.

o vento soprava forte, e conseguia ver os teus seios rodopiar, ali à solta, assim. murmuravas palavras de esperança para passar o tempo, "é muito longe" cuspia eu, mal educado como sempre, e tu "não", seco, "mas olha, tens a certeza que é por aqui", nem te dignavas com uma resposta e continuavas a tilintar as duas moedas de ouro na mão, espalhando o teu perfume inebriante pelo vale, em passos seguros, contornando as crateras da minha língua.

"é ali" e estacaste, "toma, entrega-as e vai". desci até à margem e saltei para o cais, estava com os pés em farrapos, dei as moedas ao barqueiro e segui viagem.



J

um bicho estranho

às 16:39

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via ao longe os campos de batalha,
os rostos desfigurados,
esmigalhados no lodo pelas lagartas dos tanques,
fumegantes pedaços carbonizados de seres,
amontoados sob a luz do luar,
vencedores, prémio: a paz!
e via os humanos a consumir a carne dos seus compatriotas,
partilhar, sem conseguir um osso, egoístas.

e tu deixaste-o escapar.


J

uma existência vaga

terça-feira, 6 de maio de 2008 às 23:25

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Tool - Vicarious
pá, mas ouve lá, que merda é esta? que raio de filme é este em que esperas uma plateia exausta e sem reacção, sem heróis e heroínas, apenas um enredo onde macacos fazem malabares com objectos cortantes e afiados - dá para ver pelas lâminas - e saltimbancos brincam com a vontade de te foder, calmamente.

comes merda às colheres, deve ser isso. drama queen.

olha para aqui, longe, vês? não não, não é isso, rasga essas cartas e lê esta, não leias as entrelinhas escondidas no sexo e nas veias que rasgo a cada sílaba que te sai da boca trémula, elas não estão lá. lê aquilo que te digo, escrevo ou como preferires - não importa, mas lê! - não achas que já chega de voos pelo infinito que nos separa, e enfrentares a realidade enterrada na merda que criámos, entrelaçados naquelas noites em que nos separávamos naquele sexo delicioso? porque insistes? porque tentas recuar para paisagens que nunca visitámos, nem mesmo quando te escorria metade de mim pela boca.

tentei chegar até aqui e foi difícil - o diabo e deus divertiram-se, sem dúvida alguma - não deites tudo a perder com clichés baratos. não preciso de mais amigos, de conforto que se escreve com todas as letras na minha pele, roendo-me a carne com a luz negra das mentiras que tatuas cá dentro, caralho, sorri e sê feliz com a existência vaga que deixaste.

saio pela porta e acendem-se as luzes, o espectáculo é teu.

deixaste cair as tentações que eram minhas - e deixa-me - reage, reage fodasse. minha, és minha, e não tentes ignorar o simples facto de que ÉS MINHA. e acredita, que a tua hora irá chegar, hoje ou amanhã, amanhã provavelmente, embrulhada em mais vinho que tinge os nossos olhos de vermelho a cada trago, abençoando o doce sono que procuro.

deixa-me, embrulha as tuas roupas caras e sai. que venha a luz, ou a falta dela. farto da madrugada rosácea, minha, no lusco fusco reencarnado, e do salve-se quem puder.



J

como ovelhas

às 01:50

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baaah
Saber que se morre, devagar naquela morte lenta.

subia-se o monte devagar, passeando pelas nuvens acima, regadas pelos ventos da primavera, que empurrava aqueles dias de sol para as nossas mãos, sempre a construir castelos e a criar maremotos nas nossas guerras de piratas, lembram-se?

corria o mundo para nós, naquela vasta ideia de não termos dono, sermos livres e senhores absolutos, de todas aquelas chagas que transportamos mais tarde, entediados da vida e daquilo que nos oferece, demasiado embriagados para nos recordarmos que os castelos se constroem nas areias das praias que conquistamos e não nas margens das nossas impenetráveis ilhas, bolhas de bolor e pús, que cimentamos a cada passada larga para a cova.

quando velejávamos rio judas abaixo, pelas nesgas de relva que brotavam dos pântanos, reino de pijamas e de capas gastas, em buscas por tesouros por ali perdidos, caveiras e restos de outros vilões ali enterrados, perdidos na busca necessária em tornar a vida misteriosa e rápida, sem distracções daquilo que importa, descíamos o rio de sorriso nos lábios.

naquelas tardes, enchíamos os balões d'água que trazíamos nos bolsos rotos, cheios de cromos e berlindes, escudos e espadas, talvez um rebuçado ou outro - o tal dente fácil, e naquele sol que brilhava forte para nós, descarregávamos aqueles gritos de guerra, batalhas em planícies deitadas de barriga para cima, pela noite dentro, em sonhos e outros jogos.

trazíamos a vida nas feridas com crosta nos joelhos raspados e nas mãos pretas de terra. como é que passámos disto para ovelhas à espera do matadouro?

huh. eu sei eu sei!



J

PS: a foto foi tirada em mértola e não nas beiras, caso estejam interessados. ou seja, estas ovelhas são mais simpáticas. i dunno why.

passes milimétricos

quinta-feira, 1 de maio de 2008 às 06:21

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podia perder o meu tempo a falar da bola, de como o rui finta tudo e todos, naquelas jogadas cheias de mestria e raça, passes milimétricos, misseis de precisão, o terror em qualquer campo inimigo, onde qualquer soldado com dois dedos de testa borra as calças, especialmente quando sente os tomates apertados pela ínfima probabilidade de sobrevivência à guerra que vem até ele, não porque ele a procura, mas porque não lhe pode escapar, é inevitável, contam assim os tempos, os longínquos e os mais recentes.

mas não o vou fazer.

podia até contar-vos das noites em que me perdia sem olhar para trás, agarrado àquelas belas pernas até ao infinito horizonte que se nos revelava pela noite dentro, enquanto que os contentores do lixo eram levados pelos homens que o tiravam da rua, embalados naquela recôndita profissão que todos preferimos esquecer ou olhar de lado, seja pelo cheiro ou pela indiferença, nojo, os restos humanos de uma prostituta.

mas também não o vou fazer.

vou simplesmente deitar a cabeça - está pesada - naquela almofada que tenho desde os meus 3 anos, e mordiscar n'algo para adormecer. roer os pulsos quiçá.



J

6 de abril

segunda-feira, 7 de abril de 2008 às 10:54

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Podia continuar aqui neste ritmo frenético, na dança de corpos embriagados pela noite, adormecidos na doce letargia do suor nos lábios, de olhos fechados às luzes brilhantes, que cegam o sentir. Braços que se abandonam no ar, resvalados em passos fantásticos e choques rasos de cores azuis. 24 horas mais, e dormimos sós uma outra vez.

Ainda espero por lá, encostado a uma sombra qualquer na nossa rua.


J

mãos cansadas

sábado, 22 de março de 2008 às 00:13

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Senta-te no chão.

Vamos ponderar toda a loucura que não nos deixa dormir, agarrados às drogas, viciados nos teus olhos, inaptos neste inferno que ousa em deixar-nos em paz. Não há coisa mais fácil e segura do que considerar alegremente a hipótese de passar lixívia nos nossos ressentimentos, na distância que nos separa de mais uma noite feliz.

Dispo a roupa, sem ressentimentos. Vê como olhas para mim, sem vergonha como se te pertencesse, rápida e lentamente, ou como quiseres, pelo preço de mais uma noite passada alheia à vida fora deste palco. Dispo-me para ti porque tens vinte faces e preciso de cada uma delas para sobreviver a mais uma noite sem.

Era uma vitória sermos mais do que naufrágios abandonados pela sorte.

Não há fronteiras para o asco que provocas nas minhas insónias, como as moscas que insistem em morder a luz cega que arde na noite ténue, amor gasto na sarjeta solitária da fama que redesenho a cada sussurro feito espada que corta e rasga o núcleo de todas as intervenções e conquistas, lembradas no ocaso da minha elegia.

E todas as noites me dispo para ti, na esperança de que voltes para casa connosco, com os anjos que nos amaldiçoam.

As mãos estão cansadas e trémulas de segurarem os sonhos que pesam na minha cabeça.


J

coisas felizes

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008 às 19:23

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são bolas de sabão que te acordam,
com a gentil brisa de verão,
transportando sonhos e risos,
que deixaste junto ao rio,
onde as flores irradiam
toda a luz do mundo.

deitada na relva,
olhas as nuvens que te embalam,
ouves o vento que canta
por entre as folhas das árvores,
sentes a terra húmida e viva
e cheiras
- a fragrância doce dos dias que não acabam.

baila descalça,
festeja com os pássaros que chilreiam melodias que só tu conheces,
abraça o sol com força e graça,
hoje, festa e alegria,
e mergulha os olhos no fogo de artifício que cai do céu,
espalhado em pétalas brancas que chovem gentis,
espreguiçadas no contentamento e euforia,
do meu funeral.



J

demasiado cansado

sábado, 29 de dezembro de 2007 às 02:52

etiquetado como e e e e e e e

é como te vi pela última vez,
tão cheia de vida
como se nunca tivesses caído, tropeçado,
rasgaste uma veia, e mudaste,
puxei o teu ouvido para perto dos meus lábios,
e menti-te,
deitados, encostados, sujos do nosso suór,
os sexos calmos, num ritmo rápido, suave,
dançam e bailam,
nas brasas da fogueira que nos consome,
prazer frágil, dfe tanto medo,
de te sentires,
tão cheia de vida.

- e gostas disto?
- sim.

não há hesitações possíveis,
segue-se a vontade dos corpos,
agora que és heroína e eu herói,
tentamos deter as mentiras,
de regresso a nós,
em ti e dentro,
clímax, os braços que se desarmam,
aquilo que fazes,
respondes,
detens as mentiras em ti,
nada mais interessa,
agora que és verdade,
mentira.

respiração pesada e sais do quarto,
despes a roupa que vestias,
limpas os cortes, o cheiro a liberdade,
sais.

pintas as ruas reflectidas nos teus olhos,
brilhantes, pintadas em luz,
e rezas,
- quero saír da multidão, saír da almágama de carne que me sufoca, deixar de brincar ao faz de conta e enfrentar o mundo nua, sem mentiras em mim.

e é o mesmo dia, depois de novo dia,
levas-me em braços e flores,
é tão doce, bonito em ti,
um carinho maravilhoso.

e nem sabes o meu nome.


largas amarras, soltas o lastro, voas, direcção nenhuma, apenas até ali, devolver àquela rua todos os sonhos que tu ou eu e todos nós lá deixámos, apaixonados, ébrios pela saudade de sermos fáceis, sem orgulhos, simples, criaturas nascidas para amar.


era domingo lembro-te, não saía ninguém à rua naquele dia, estavam todos trancados, em igrejas, isto de dia, à noite era em sacristias.
- não importa, as mãos guiam-me pelas paredes, costas imponentes da rua, dos ecos deixados pelo êxtase do quotidiano a que tu não dás valor, e o amor é o mesmo, de dor menor é certo, mas a cantiga é a mesma, os corações partem-se à mesma, jorram sangue, igual ao meu e ao teu, ao nosso. quem és tu para...
- o sujo e tão belo futuro.
- esquece o futuro, eu não lá estarei, só mais tarde, quando for mais tarde.



J