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sinónimo

sábado, 17 de setembro de 2011 às 14:03

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Os momentos que vi junto à janela
não voltam,
não crescem novamente,
— transplantados do meu peito para as tuas mãos
nos vales semeados em palavras
que separam as grandes montanhas de ser.



e não sei se quero o medo
a verdade do desconhecido
que Ela semeia em mim
com os restantes raios do sol
do mundo que desaba em si mesmo.



Um sorriso é apenas um sinónimo de música.



Uma frágil constituição dos astros que se mantém apenas naquele instante,
na faísca de um olhar, naquele relevo ou aglomerado de sombras.



quando procuramos a virtude na verdade,
esquecemo-nos sempre que a verdade é irmã do pecado.

Mas dança que a vida não espera por ninguém.



Tudo o que queria era que o passado se encontrasse naquela tarde com o sincero, com os dias que não consegues enfrentar, nas regras erguidas a cada lançar dos dados, sentir o rebentar das ondas que foge de mãos dadas com o vento. Sentir os dedos que nos erguem a face aos céus, nos nossos momentos de azul profundo.



Deixava-me dormitar na minha sepultura,
se esta dança fosse eterna.

Mas já passou demasiado tempo desde que te vi de sorriso aberto ao mundo.





J

manhã

sexta-feira, 16 de setembro de 2011 às 16:30

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Segura-me a mão e vê como o pulso se desfaz na pedra,
apenas memórias de coisas que nunca foram
dois dedos de gente que se recusam.


Dança,



baila a vida como o copo de vinho que ergues
e saúda quem te rodeia
a vida é a festa que não acaba
sentida de pé no chão, raízes da alma
e música na boca.



Murmura a íngreme melodia na manhã quando esta floresce virgem.



A vida são dois dias, não percas tempo a pensar no que irás fazer se chegares ao terceiro.





J

metamorfose

sábado, 3 de setembro de 2011 às 13:45

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Meço a distância pelas palavras que trocamos no tempo que cresce infinito até à rosácea saudade embrulhada na ilusão roubada ao firmamento.

Vê como cresce a morte nas sombras dos dedos.



Gosto das ideias que se levantam nas tempestades,
em redes e arpões de velhos pescadores,
recusadas por determinados padrões valores sentenças e demais

na solidão do silêncio que aflige apenas quem já morreu

deixa o vento polir as memórias que guardas doces
trancadas nas estórias que não provaste
envolvidas no cetim brilhante das carícias dos nossos ossos



Gosto de funerais aos domingos



não tento compreender a eternidade
ou a frágil constituição dos astros
apenas a fuga constante
o pulsar rápido do sangue
à descida do inferno que ruge
a tranquilidade nas sombras dos meus dedos.



vou viajar, embarcar, negar a praia que desemboca nestes olhos
negar as palavras que se medem em distâncias
e rasgar o tempo finito até que um rio rubro se torne na vertigem dos teus olhos.



Deixa-me cair nos teus braços,
na doce doença dos teus suspiros,

sou a luz pálida que cresce vertiginosa
na sombra dos teus dedos.



Sou morte, o desespero das lágrimas encadeadas que jorram socorros.

Deixa-me abrir os olhos na escuridão absoluta da saudade
— o fastio do seu aroma
nas cores que sangram a metamorfose dos nosso beijos.



J

esboço para algo maior

terça-feira, 9 de agosto de 2011 às 23:15

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Beirut - Elephant Gun
A vida não é mais que a reviravolta dos sonhos - somos meros caprichos na mão do tempo, com o sentimento da revolta agrilhoado à saudade - sombras do nosso útero.

Reflexos da terra que nos viu morrer.

Deixa-me construír as paredes deste muro com jangadas
para beber o céu que te transborda os olhos,
em doces cascatas de vertigens bravas,
despidas nas rosadas mentiras a cada dentada.

Irei embarcar com todas as ideias
em movimentos perpendiculares à verdade da tua ausência,
- é a simbiose evidente, gratuita ou generosa
amarrar as palavras aos dedos pintados de morte.

Agarrar-te-ei o corpo com os dentes.


J

sujar as mãos

domingo, 1 de maio de 2011 às 23:01

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Senti que já era demais, que o sonho não se escreve assim sem sujar as mãos com a saliva do guloso tempo.

Já era demais sabias. Quase que quis que tudo acabasse um dia. E a verdade é que ficaste do meu lado - ainda sinto o aroma dos teus beijos nas minhas pálpebras - quando tudo era mentira.

E vejo como cresceste, como a vida te tornou segredo imortal, verdade absoluta, dona do amor que deixo vender todas as vezes que abres as pernas e arqueias as costas para trás no teu frágil orgasmo em vergonha.

E no entanto não queria mais que o vento que te sopra,
que mergulha e molda as marés dos rios e oceanos que engolfam as profundezas da terra
num enlace débil e tépido, a medos de médios meios e manias lentamente manietadas pelas encruzilhadas do caminho que se estende em linha recta na sombra da tua face.


Arranhar o crepúsculo vestido com as voluptuosas carnes que fedem à merda do amor.


E nem assim beijar a testa do tempo entre as frestas escondidas na penumbra do teu túmulo.




J

ressonância

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 às 00:20

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as vagas noções de tempo e espaço abandonadas em mim
- as pontas dos dedos ensanguentadas afiadas no rosto do peito

na face da terra que cobre a mortalha

queria dizer apenas em sentimentos sangue-púrpura
o pecado que levam as asas do vento
até às masmorras dos dedos abandonados na sua sorte
porque ninguém é apenas.



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a desgraça introduzida ao acaso, distribuída uniformemente em movimentos da língua.


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Saber que a vida era o que tinhas planeado
ou deixado sem vontade,
à sorte afogada na lama do rio,
naquele sabor adocicado das vagas que se apropriavam do teu corpo,
na tua vontade de conduzir a energia dos céus.

Descobriste as tuas maneiras de separar o sal e o calor
e dançavas a luxúria animal com o sabor do sangue nos dentes.

A agonia não tem vergonha - escolhe-te
sem decidires quando o sol nasce ou as estrelas no céu
morrem
apenas adias o sorriso do chacal que te espera na garganta do nó.

És apenas o peso morto na ponta da corda que se balança
nas lágrimas da terra recortadas às moedas de latão
deixadas esquecidas perdidas
na mesa da morgue.

Recorda a misericórdia dos sorrisos solitários.


X

as raízes dos nossos ossos

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 às 00:50

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Agride a voz que abafa os ecos dos nossos abraços,
as lágrimas desvanecem as memórias
que vagamente adormecem as nossas bocas.

A dormência boa do cheiro que teu corpo deixou no meu,
lembra-me as raízes que os nossos ossos criaram no mapa estelar,
das carícias que o teu sorriso me queima nos olhos.

Apenas sei da queda infinita,
regateada e desembrulhada na hesitação da saudade.

Irei sempre tomar-te o pulso ao cravar os meus dentes na tua carne.

Sinto arrepios nos dedos quando trocamos beijos
e a saliva escorre pelo peito quente,
neste grande mergulho azul em que as tuas mágoas me afogam.

Ignora as sombras que carregas nos meus ombros,
tudo aquilo de que precisas é a imagem da verdade,
dos olhares que mancharam o outono nas folhas caídas,
e as rugas que tingem a coragem com a sabedoria do tempo.

Pára.

Lembra a música e embala-me o peito na direcção do vento
na harmoniosa separação da garganta e da terra.

Recorda as lágrimas que chorámos na discreta indiferença da noite.

Fome - um motivo de calor para os lábios ofegantes. Conquista - ir para a guerra de barriga vazia. O meu oceano de dedos quando se deliciam na paisagem do teu corpo. Chorar pela gulosa volúpia das tuas ancas na cama que se deita vazia.

Irei deitar-me na campa à tua espera.

é apenas um casulo

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011 às 00:19

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Ninguém se importa com as vozes que cantam em vão,
com o tanto que há para nos socorrer no suspiro preso aos lábios
que desejamos roubar, tomar como nossos.

Ninguém quer saber dos segredos que deixamos no leito da morte,
quando espreitamos para além da rude caveira que nos espreita,
que range os dentes ao adivinhar o delicioso e requintado banquete.

Ninguém gosta de fazer amor com a sua morte.

Mas há quem a foda.


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Se por acaso leres isto, lembra-te de mim,
das vitórias raras que arrancaste ao meu sanguinolento sorriso,
lembra-te dos momentos que preferias ter guardado para ti,
de corpo rasgado, olhar macabro, a flutuar no rio.


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É tão bom sentir as tuas carícias com a luz do sol nos meus olhos,
cego, embriagado com o terno calor do coração que carrego nas mãos.


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Gostava que dançasses para nós,
para a vitória dos nossos corpos, abandonados a si,
entregues à luxúria que nos transborda do peito,
com a energia de universos que colidem
e rasgam a carne que nos estranha,
que nos separa os esqueletos da união eterna.

Corpos, mortalhas fúnebres ou algo pior,
apenas podemos perder, mesmo quando vamos a jogo.


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Ninguém se importa com o que estou a tentar dizer,
ou com as palavras que uso para descrever a felicidade que saboreio no teu corpo
- é a saliva quente que me escorre dos dentes, da boca em sangue,
que me acalenta a certeza da ternura dos teus ossos.


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J

árvores

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 às 23:59

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decorriam épocas

mas o mundo não era como tu
não ser

caia.

sentia o vento a delinear as tuas impressões digitais na minha boca

mas o meu amor caía, derrubava-se pela vasta paisagem. o deserto seco vasto,
a gota de sonhos
o sono sai
não sabia dele.

do amor.

e revirava-me,
transformava-me em gotas de

caíam.

o ventre
do amor
pestanejava

tudo que sei é permite-me dizer
desconheço o sonho.

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como a chuva forte na janela,
nos ecos da rua nas portadas,

separava os cordões umbilicais.

letras que,
não. sabia que não. quando me levantei
pisei terra e desci

revoltei as marés com o amor eterno.

vai/vem

quinta-feira, 12 de agosto de 2010 às 23:34

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Beirut - elephant gun
Seguir caminho,
Viagem,
Apeadeiro de passagem,
E encontramo-nos na bagagem
embrulhados,
Aconchegados no vai/vem fugaz
dos perdidos e achados.

Braços azuis rasgam o peito
de quem o rende,
no momento, na palma da mão, sua,
naquele beijo envergonhado,
efémera carícia,
delícia,
na volúpia da tua dança.

Escondidos
pintamos sorrisos,
Com o lesto sabor do ventre,
da gula, da dor.

Dançávamos.

Coloríamos paisagens eternas, imaculadas no terno espreguiçar dos dedos ao fim do abismo, quando as nossas vozes cantavam a metamorfose das saudades que julgávamos ter esquecido.



J

(misc. II)

quinta-feira, 29 de julho de 2010 às 23:23

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Them Crooked Vultures
se a memória me serve,
gostava,

queria apenas dizer-te ao ouvido,
palavras despidas na língua,
embrulhadas, ofegantes
da segurança que consigo encontrar
nos segredos de sonhos itinerantes,
ilusões de voos,
do chão fresco encostado à nuca,
a posição fetal,
mas não era suposto saber recuar.

Encontrava a frescura dos beijos,
dos abraços e cartas rasgadas,
como se fossem tuas as memórias que guardo
junto às lâminas que me vergam a carne.


Mergulha,
junta os braços e revolve o vento,
espalha as folhas que escondem o meu cadáver,
sopra a terra que cobre as nuvens,
e enrola a mortalha que abraça os meus ossos,
guarda-a junto aos espojos da guerra.

A toda a velocidade,
à sombra do que julgavas ser,
da verdade, da luminosidade do dia que te cega,
encolhe os ombros,
mas corre.

--

Gosto de escrever estórias nas raízes do tempo,
e talvez um dia as possa levar comigo.

--




J

(misc.)

terça-feira, 13 de julho de 2010 às 02:31

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Tom Waits - Shake It
Se a noite fosse calma, um segredo que se conta ao ouvido, num sussurro de primavera tingido com o calor do verão, as estrelas cairiam do firmamento, uma a uma, perdidas no destino de um encolher de ombros, de um capricho azedo desejado num qualquer festim onde os corpos se sonham carmim. Chegam-me os sonhos sem memória, sem pretensões de serem castelos ou muralhas, rasgões no tempo intermédio de um beijo ou da saudade, ou de frondosos diálogos com o meu ou o teu pai. São o sal que se rende à alma.

O sal que nos resta na ponta do sabor na língua.

--

Espiões de graça distinta,
de verdades interinas, dogmas dançáveis,
dizem-me que um dia as décadas amontoadas
irão olhar de frente para o infinito ocaso,
deitadas por terra sem receios,
altares e as mãos gravadas nas sombras,
em visões no horizonte que nos segue a poente.

--

Na contraluz vislumbrei o teu perfume,
o sol ofuscava-me, reluzia por entre os teus dedos,
e esticavam-se os dias velozes em suaves pinturas
de números e nomes moldados na argila cinzenta.

--

Fecha os olhos e descansa, rasgo as cartas incertas.

--

Comprei uma recordação na cidade, algo que me permite trazer comigo ou levar, os urinóis de improviso nas paredes sujas de cimento gasto, dos caracteres deixados por acaso em declarações de sítios onde nunca estive. Foi um bom negócio.

--

O exército aproximava-se, gulosa máquina de guerra.

--

J

água

segunda-feira, 12 de julho de 2010 às 10:57

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Karate - Water
revoltam-se os braços,
numa longa e fraterna disputa,
que acariciam recados sussurrados,
e nós ali embrulhados.

Corrias o mundo lesta,
feita relâmpago fugaz de vida,
de bocejos pelas paragens


Cadáver,
ergue o teu semblante pálido,
corre desnudo do espírito,
mergulha com as mãos na carne cinzenta,
e dissolve a rápida sucessão de imagens
com a violência com que o pus se desfaz no chão.

Cadáver,
ouve o murmúrio frio roubado das noites criadas,
deixadas vagas, embrionárias,
- revolve as tuas ancas ao ritmo da enferma carcaça do destino.

Luxuriante explosão que mancha as nuvens em púrpura ilusão.


J

estremece

terça-feira, 6 de julho de 2010 às 01:29

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Nick Cave - Stagger Lee
Escorregar as gargantas na lâmina romba,
gume de olhar nos olhos ébrios,
o sentir a corrente que nos arrasta os pés
que tomba a verdade na sombra dos nossos corpos,
cálices vazios, transborda o desejo,
o anseio.

Disse,
e ela deslizou a cabeça para trás enquanto despia os dedos pelo peito.

Azul que desintegrava os trinta anos rasos,
nos braços afogados, decepados e enterrados em vasos,
espectáculo grave e solene,
funeral e enterro e velório,
gritavam o nosso nome, um corvo perene,
e um padre, e o açougue.

Lacrimejavam pequenas esferas de sangue,
- perfeitas
despejavam as vísceras no chão ao passar da carroça fúnebre.


E deixavam a largura da infância pela cintura,
naquela viagem interstelar que interrompe o mundo,
assombro da alma, a estocada e o golpe,
o coração no penhasco, de saliva na boca,
arreio das estrelas e do oceano profundo.

- na palma da mão o chão estremece.


J

exércitos de vingança

quinta-feira, 24 de junho de 2010 às 02:20

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Son House - Death Letter Blues
O tempo que passa, não fica,
não o recolhemos em memórias catalogadas,
penduradas ou arrumadas em prateleiras,
sorrisos e outros rios,
desmembrados em grãos de areia,
diluído em frágeis cascatas que escorregam p'los dedos.

Conspiro castelos de areia e sal,
que se desmoronam num suspiro antigo.

o nada,
o espaço deixado vago pela tua sombra.

Os faróis dos carros que passam
iluminam-se no tecto
lembrando por breves
    suspiros
         os beijos
                perdidos.

Tinhas alcatrão nos dentes.
Perguntei
     - quanto custa?
Respondeste
     - um punhado de saliva,
       a dor na tua face placada pelo sorriso cínico do mocho
       que te debica os olhos.

Gangrena - o doce aroma da vitória.

Ausências - exércitos de vingança.

A artista

domingo, 20 de junho de 2010 às 22:43

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Podíamos descrever o sentimento com que ela acordou como um dia de sol, daqueles em que despertas com a manhã e a luz te toca na pele, aquecendo-te por dentro, com aquele sopro quente que não tem explicação, que desce por ti com a doce tranquilidade
do ventre maternal.

Mas lá está, eu não sei descrever o que ela sentia. Era mais que a luz ou o calor, era mais que o ventre materno ou o açúcar dos dedos dele. Era algo que a preenchia com a certeza única de estar acordada, com o amor que faz este comboio da vida andar de paragem em paragem.

E quando fechava os olhos, recostava-se para trás,
recordava o tempo gracioso que desmembrava as memórias passadas.

Deixava-se intrometer - corromper vá - pelas doenças que a molhavam ternamente em dor, num doce sofrer, telenovela ou novelo cor-de-rosa, descoberta entre os estilhaços do coração que teria sido detonado por uivos - ou laços ou coisa que o valha - daqueles que lhe enterravam notas e cheques sem cobertura nas feridas.

A carne era doce e ela deixava-se dançar - a luz vermelha incidia-lhe na face e ela escondia-se na sombra. Não se importava com o que os outros homens diziam, a verdade é que gostava que a vissem - como adivinhos a ler o futuro nas suas vísceras expostas em cima do palco. E lentamente - voluptuosamente - bailava o sexo entre as suas ancas com arte, curvando-se diante da audiência em fúria por mais.

- lamento a interrupção mas deu-me a fome -


té já, J

IV - Revólver

quarta-feira, 2 de junho de 2010 às 13:37

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Sentia saudades do doce ronronar do metal da ponte, suspenso em teias tecidas naquelas ruas ásperas que serpenteavam pequenos pontos de luz pelo coração da cidade. Balançávamos junto à janela, ombros alargados para fora, braços esticados, apoiados na pedra mármore do parapeito. Ela inclinou-se para trás e voltou para dentro, delicada e menina, sentado-se atrás de mim.

Puxei de um cigarro e senti que ela me observava, gulosa, à espera do momento, do instante para se saciar na minha carne quente. Lá em baixo, na rua, crianças gozavam com um velho bêbado, adormecido ou esquecido numa passagem estreita.

Apaguei o cigarro e respirei fundo aquela leve brisa de verão, tingida de acre pela metrópole, mas ainda bafejada pelo calor que vinha do deserto a sul. Sabia-me bem. Era Verão. Virei-me para ela - olhos grandes semicerrados, lascivos - de joelhos, na minha direcção. E começa.

Primeiro a mão esquerda na perna, pouco acima do joelho, com os dedos - os malandros - a sentirem o todo do interior da minha coxa, e suava - ritual - a mão direita juntava-se também, bem aberta, com os dedos em garra, acariciando com fervor o meu escroto, ao de leve, por cima das calças, tentando acordar o resto do corpo - e conseguindo-o.

Os seus olhos famintos abriam-se e brilhavam ao sentir cada investida do acordar do músculo dormente, em espasmos de prazer e calor que lhe diziam - é hora.

Olhava-me nos olhos. As suas mãos já se desembaraçavam da minha roupa pelo chão, e os joelhos dela dobrados, de ombros apoiados nas minhas pernas, a separá-las de forma a não se intrometerem entre ela e aquele naco quente que já fervilhava nas suas hábeis mãos. Carne ansiosa por carne e o êxtase da sua língua provava-o.

A cidade olhava-nos curiosa, feliz com o desfecho anunciado. Ouvia a música dos clubes de strip que entrava pela janela, abafado com os arrufos das putas que desciam a avenida. Mas não interessava, nós já não estávamos ali.

Ela começava sempre de baixo para cima, escorregando a sua língua sequiosa pelas veias salientes que esperavam já a sua respiração quente, que arrancava todos os pedaços do meu ser, rasgado e torcido naquela fracção de segundo, e segurava-lhe a cabeça pelo cabelo com força, para não me perder no feitiço daqueles olhos que reflectiam um homem moribundo.

Segurava-me com as duas mãos e continuava, lenta, naquela dança cíclica, embalo fácil da maré da saliva, nos lábios carnudos a nascente abundante, queimando-me em todas as ondas, quando embatiam de encontro ao inchado prepúcio saliente, pintado rubro por todos os nervos daquela língua sagaz que brincava e atiçava o fogo que ardia ali, entre nós.

Os pelos na nuca eriçavam-se. Os espasmos tornavam-se gemidos e o olhar inocente transformava-se em imperadora meretriz, concubina da carne que fraquejava a cada carícia, cada vez mais violenta. Deixava de ser rápida para ser frenética - e os dedos cravavam-se fundo, no parapeito da janela, com vertigens naquele voo alto - e ela gemia e gostava, pedia mais e gostava, rasgava-me a carne naquela corrida pelas portas do inferno e gostava, perdia o controlo e gostava. Afundava a boca em naufrágios sem âncora e gostava.

Escorria-lhe o meu esperma quente nos lábios e ria, abandonando-me à minha sorte.

Puxei calmamente do meu casaco e retirei o revólver, encostando o frio metal do cano àquelas bochechas rosáceas - e olhou-me brincalhona no instante antes - puxei o gatilho.

lixo miscelânico

domingo, 23 de maio de 2010 às 22:27

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Até podia escrever com as mãos o caminho no chão,
debruçado sobre a ténue linha que se adivinha,
olhando o horizonte para onde desemboca esta ponte,
de regresso, inerte, de olhos fechados, com graça.

Descrever o futuro razão
- leva-me a maré
e não podia prever
- vapor de água na traqueia

Garganta cortada,
corrigir o pulso que arranca o externo,
caixa torácica aberta - pulmões negros,
ressonantes e graves tons rosa,
- as gotas do purpuro sangue marcam os sinais dos estilhaços no chão
e novamente, este frente a frente.

Até podia escrever o caminho no chão,
com as mãos que esgravatam minuciosamente a graça
que ecoa nos quartos, um a um visitados,
despidos - os joelhos esfolados encolhidos.

Anda visitar o meu túmulo nos dias de paz.


Guarda os teus dentes para uma nova vaga que se aproxima dura, para a raiva que se resguarda na doce ternura, e limpa o sabor azul da terra que tens nos lábios, com os nós dos dedos gastos, das lápides por talhar que descansam no topo das árvores.

Espreita-se um destino, o mesmo de sempre, com ela.




J

riding the great storm

terça-feira, 15 de dezembro de 2009 às 02:46

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foto: Ellen Von UnwerthTempestade abrupta, uma tranquilidade implacável

havia uma estória que me contavam quando era miúdo sobre donzelas em apuros em castelos de cartas, sobre tempestades e ventos que amainavam os navios junto à costa, em que os marinheiros embriagados resistiam à

e olhos deságuados em mágoas passadas, empurrando a verdade para debaixo das mãos - como tremem, suam desajeitadas - forçadas ao descontrolo sem vontade no seu destino, com fome da viagem, seguindo em frente de olhos

unificai-vos trabalhadores do mundo, de machado em punho, subtraiam da vossa força a vontade pela justiça, altruísmo pelo reflexo no espelho, quando um semblante fascínora vos domina.


Deixa a tua língua escorrer, escorregar na palma da mão, sequiosa que bebe o rasto que nos serve as peugadas, deixadas na margem do rio onde viste, olhaste para cima - um riso tão fácil - suspiraste um pequeno nada que o vento guardou para si. Eterna a linha que gira à volta deste universo, que rompe planetas em caudas de cometas púrpuras - DE RISOS FÁCEIS ESTÁ O MUNDO FARTO - na demolição estelar do firmamento, implosão eterna feita vulgar, nos nossos corpos elevados aos céus, feitos celestes nos mundanos retalhos que guardas de olhos cerrados.

Não iremos esquecer facilmente os desejos escondidos nos amantes segredados em beijos lacrados a sangue rubro.

Descansa guerreiro, o vento carregará até ti o aroma abafado do pó da batalha, da terra pisada pintada de vísceras dilatadas, do sal plantado nos campos abandonados.

Não tenhas pressa em ser orfão de deus.

sexo oral

quarta-feira, 24 de junho de 2009 às 14:48

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Troca de palavras, cuspir verbos preguiçosos, enrolados em raios de sol que convidam à letargia profunda, numa amena cavaqueira onde trocamos a gramática por dedos de cerveja. Ficas com inveja. Dedos pelos lábios molhados e já está. Regressa a vontade de ficar, espreguiçar a alma num copo qualquer.