um sítio bonito onde viver

domingo, 30 de dezembro de 2007 às 03:38

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eram 5 horas, levantou-se, cedo, doíam-lhe os olhos, não conseguia mais dormir. a mão palpitava junto ao sexo latejante, erguia-se quente, em movimentos largos, por entre os dedos. era dia julgava, talvez ainda fosse de noite, o dia e a noite eram iguais desde há... tempo, um intervalo de tempo sem definição, talvez todo o sempre, ou uma curta eternidade de dias.

letárgicos, os pés tocaram o chão, estava frio. a dor nos olhos fazia-o retorcer o rosto em busca de alívio - como se uma careta resolvesse o problema. nesta casa não se desperdiçava o vinho. e era de dia, ainda, um raio de luz, tímido, espreitava pelas entrelinhas dos estores semi-cerrados, pautados em fá bemol (ou era mi sustenido?) nas janelas. dia. quem diria.

tentava raciocinar, meter as ideias num saco e retirá-las uma a uma, ver se achava uma ordem, um sentido, forma/maneira/lógica de dar significado àquele espaço lúgubre e despido, que se mostrava submisso à sua dor. estava escondido. mas de quem? e porquê? que o teria trazido para aquele lugar, gélido - estava frio - para que fim? que propósito?

as hesitações formaram-se, juntaram-se em tentativas de se manter de pé. muito esforço, os joelhos que vacilavam uma débil sombra, fusca, por detrás dele. parecia dançar, dança dos mortos.

mão esquerda no joelho esquerdo, frágil, a segurar o mundo - vá tu consegues - mão direita esticada, erguida além dos ombros, leme que guia os ombros pela solidão, frio, muito frio, nem um som, um carro que não passa, nem a criança que chora, mas frio. atravessou a sala. de rir, um velho, pálido, magro, alcança a ombreira da porta - ela foge - e detém-se.

a sala parecia agora mais escura, ainda mais escura, grande, enorme, um túmulo. teria sido enterrado vivo? inquiria ele. os joelhos já se compunham, dormentes, mas sólidos o suficiente para se manter de pé. as pregas das carnes penduravam-se, velhice velhice, toda uma vida, curta sempre, para isto. abandonado numa sombra qualquer.

a sala - estava eu a dizer - era larga, as paredes simples, brancas - pareciam, ao longe duas portas altas, com os estores corridos, apenas uma fresta deixava escapar uma nesga de luz, sem cortinados. um tapete largo, vermelho ou talvez bordeaux corria pelo centro da sala, o sofá onde tinha dormido, derrotado/encostado a um canto, era velho, talvez tivesse a sua idade, 100 anos ou mais, ou menos, que interessa.

atrás de si erguia-se um corredor, estreito parecia, muito fundo, conseguia vislumbrar 3 portas, talvez 4 ou mais. fez caminho para a primeira porta, traçar rota, largar amarras, e um pé de cada vez naquela tijoleira fria, enrugados, unhas compridas e gastas, amarelas, enrolavam-se pelos dedos, já tinham perdido toda a definição da juventude de outrora - teria havido uma juventude? - metamorfoseando-se em bolas de carne, amálgama de gente, passadas vagas, sem pressa de quererem seguir caminho, deixava-se ir.

primeira porta, abre-se, luz muita luz, fica encadeado por momentos, sangue, cheiro a tripas, lavadas de manhã no rio pelas mulheres, a seguir à matança do porco, uma banheira, um braço que acena de fora e uma farta cabeleira, pareceu-lhe morena, encostada à branca cerâmica. o cheiro forte, nauseas, um murro no estômago e três passadas fortes e confiantes, boca encostada na borda da retrete. da boca saiem-lhe ais e uis, e muito vinho. muito.

limpa a boca ao plástico, escorrega e senta-se, frio, muito frio. tudo faz sentido agora. é de dia, há que aproveitar o dia e enterrar o cadáver. mais uma noite se aproxima.

os cadáveres daquela casa.



J

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