o poder

sábado, 19 de janeiro de 2008 às 19:49

etiquetado como

os semáforos piscavam, latejantes, amarelo, atenção, cuidado com o despiste iminente, avisavam. seguias em frente, descendo a janela do passageiro. os bancos macios, de pele gasta mas conservada, sentavam-te confortável e confiante, absoluta e massiva ao volante, a virar à direita e à esquerda, o destino assim o previa. as marcas dos pneus, queimadas no alcatrão seco e quente, julgavam o perdão que havias deixado intocado. lentamente sussurravas as palavras que o teu coração queria gritar. nunca te irias resignar ao julgamento que te haviam feito.

descias a ravina com fúria, tesão pura de adrenalina, com o suor que te escorria da testa, justiceira em busca de justiça. não existe descanso até que o cruel crime tenha um culpado, até que haja sentença e execução. sentias o trepidar do motor nos dedos, vacilando toda a raiva que balançava dentro de ti, lâmina perfeita, sedenta de sangue. alguém havia de pagar.

encostas, tens que meter gasolina. páras e desces. um pé e o calor abrasador da rua que te irrompe pelo peito, soprando os cabelos e mentiras junto ao ouvido. não ligas. sais imponente, esmagas tudo à tua passagem e atestas - num fósforo, e só tu tens o poder de juíz. a sombra do inverno que se ergue no horizonte, são horas.

voltas, aceleras, carregas a fundo no acelerador, rápido o estímulo, a carícia no asfalto, e a fria vingança pela frente. não havia lugar para aquele tempo, gasto a pensar. havia que agir e sabias disso. arrancaste todos os dentes e afiaste os dedos, no sentimento que te tornava negra, cada vez mais perto, sempre que fechavas os olhos. traías-te.

não conseguias decidir o método. a maneira de como trazer o fim a esta triste história. ninguém podia sentir o medo, nem ouvir as culpas que te sangravam os olhos. como desprezavas a vida. a última recta e o momento em que ouves todos os ossos do teu corpo a quebrarem-se em uníssono, numa fractura do tempo e do espaço, tudo tão violento e tão belo. os teus olhos que saltam das órbitas, agarradas ao volante as mãos, dentro do peito, e os cabelos projectados para a frente, na tua última dança. havia uma sombra de ti estendida por todo o caminho que tinhas deixado para trás. vingança tomada nossa, em teu nome.

e não consegues decidir, ainda.


J

Publicar um comentário