nada mais

quinta-feira, 22 de maio de 2008 às 10:10

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Ele rendia a guarda, no segundo turno da noite, a cára mascarrada de carvão, camuflagem da noite, o engano para o inimigo para além das linhas que os cercavam. Apertava a G3 junto ao peito e tirava a onça de tabaco do bolso da camisa.

Podia fingir que acredito naquilo que quero acreditar. Podias deixar de me tratar como um criminoso.

Poluído pelas ideias que corrompem as saudades,
as curtas memórias que se distorcem no tempo,
aquele que vai no cortejo lento,
desfilando na avenida onde as mulheres vendem o corpo,
e os homens empenham as almas.

Os marinheiros que encontram um lar na cidade,
nos portos distantes que


Rangia os dentes em pó, chupando com força aqueles fragmentos de verdade que se desprendiam do palato, feitos caramelos de badajoz - eu gosto - que se grudam aos dentes, daqueles que sufocam as palavras quando se tem o coração na boca, quando a saliva se torna sangue, rubra, e os lábios se contorcem a cada pensamento naquele esgar de morte, careta, na face destruída pelo desejo incontrolável de procurar o infinito, sabes? enfrentar de frente aquilo que não se consegue ver, a ideia que nos arrepia a pele à noite, quando estamos sozinhos no escuro, abandonados para nós, esquecidos naqueles passos de dança que deixámos para trás, porque, sejamos realistas, sentimos que há mais, e dizem-nos que não há.

Transformamo-nos numa brisa marítima e secamos o odre que nos guarda os ossos, esfregando o focinho nos penhascos - aqueles que escondem os gigantes do oceano - que nos empurram para o voo derradeiro, êxtase mortal, quando os deuses e os nossos sonhos se quebram nas depressões dos rochedos. Metamorfose. E é tudo novo, de novo, até voarmos para longe, para apenas voltarmos a cair em nós.

E aí rasgamos as cartas, testamentos e requerimentos, pedimos deferência às acções interpostas e esfregamos as mãos de contentes pois tínhamos razão, todo este tempo, tínhamos razão.

Bom, aqui fica o meu último desejo, assenta e escreve num papel para não te esqueceres, existe uma nova prova, uma evidência clara e definida - não, não encolhas os ombros - definida nos galanteios e tudo o mais que abandonei, deixei para trás, na clara percepção dos números e factos aqui apresentados, organizados em ordem exponencial, conferidos em duplicado pelo sono que me vai deixando lentamente acordado. Não temas pois está tudo registado. Não tomes por certa a memória que me resta, ela é ilusória e tende a esconder os pulsos da verdade, naquele manto húmido do teu ventre. Se eu te conhecesse - estás a escrever? - se eu te conhecesse, levar-te-ia para dentro. Nada mais.


J

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