Texto XXI

terça-feira, 31 de julho de 2012 às 01:37

deixa
encosta a cabeça e sente o corpo flutuar
a rede de arrastão não roça o fundo do mar
és maré, a corrente do golfo,
o brilho das jóias que descem do céu
e que rodopiam na queda entre os cardumes,
uma verdade que alguém perdeu
à deriva as mãos são leme.

deixa,
não precisas de ser
       apenas és.



o amor são duas almas defuntas que se juntam quebradas, em apalpões trôpegos à procura de espaço nos escombros que as costelas seguram. o meu amor é o teu amor. é indivisível, imutável. é negro. consegues ouvi-lo quando a sombra se recolhe para dentro da tua boca e te beija com um suspiro de saudades. o meu amor é sobrevivente de inundações e fogos postos — quem o viu diz que é fogo-fátuo.



deixa.



como controlar o relâmpago? como sentenciar o mundo ao caos inequívoco e inexplicável? à sádica tortura da tua boca? perco-me nos labirintos das histórias que contas. Dizes que não me abandonas? Prometes? Não chores, diz-me: prometo. E no entanto chego a uma flutuante casa vazia onde os soalhos vergam com o peso dos meus passos?

Deixo que o som da escuridão me cerque. Telas vazias apontam dedos e ninguém sabe de quem é esta casa.



deixa, não vás por aí, a calçada desfia-se debaixo do teu caminhar ágil, convoluto e diluído na certeza visceral do nome que me deste, as paredes desvanecem-se TU ÉS em carne humana cinzenta ÉS CERTEZA que dança dança dança sobre ÉS A LUZ DAS ESTRELAS QUE DESFALECEM NAS FERIDAS E AS FERIDAS NÃO PASSAM DE CICATRIZES QUE AINDA NÃO PINTASTE A QUENTE NA PELE os joelhos que te falham.



deixa, não importa o que faças, tens sina e destino que alguém reservou para ti, toma um mapa, deixa estar o casaco aqui, não irás precisar dele na tua viagem, por aqui por aqui, segue aqueles pecadores, vês, ali, topo do monte, e quando chegares ao velho carvalho que se ergue na paisagem irás perceber o quão finito que é o fôlego dos teus pulmões comparado com a idade do teu amor. Não tentes ser, apenas és. Não resistas, sente o frio e morre. Morre. Observa o nascimento de mais um dia e leva-o contigo. Isso fecha os olhos. Morre no meu beijo. Morre.




J



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