Texto XXIV

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012 às 00:07

A saudade é grande, apertada,
rebenta nos ouvidos e estala nos dentes,
escreve-te pequenos bilhetes que encontras nos bolsos
e, voraz, devora-te as noites.

A saudade inunda-te de perguntas, sela-te os lábios com as sílabas onde ecoam todos os porquês da palavra. A noite é apenas passageira neste veículo negro conduzido pelas sombras. Tu és o retrovisor. O motor que ruge e destila venenos, nas câmaras onde os pistões empurram tempestades. És o escárnio, a violência inata, o sádico desequilíbrio inconsciente para a verdade, o metrónomo parado. Deixa-me lamber-te os lábios retorcidos, recortados com tanta paciência ao amor coleccionado, filtrado e destilado às mentiras que te segredam ao ouvido.

A saudade pinta a paz nas incertezas, nas fraquezas humanas, no corpo descoberto, nu. Devias ter fugido quando criaste a oportunidade. Ela não é justa ou apela à razão, veste-te de madrugadas porque tens luas nos olhos, e o vento bate à janela e olhas e julgas que é, que são vozes, que são danças, abraços, a ilusão à hora marcada, o sorriso que morre no crepúsculo — mas são apenas os muros que não consegues derrubar porque, por mais que tentes, até o amor pode rodar sobre si mesmo e cair morto.

Viajas para longe e o que encontras? Perdeste o tempo, julgaste que atirar os dados à tua sorte era melhor que o vago, o incerto; e sem mostrares os trunfos escondidos nas cicatrizes que coseste perpendiculares aos teus pulsos deixas que a tua sombra te carregue (como sempre fez), mas agora leva dois cadáveres; e ambos sabemos o quão imperdoáveis que são as areias do teu deserto.

Não há como explicar o vulnerável.

Escolhe dançar, escolhe a música que ainda tens no corpo, pinta-lhe memórias nas asas e escreve-lhe cartas, não me importa se em ternário, empresto-te a minha linha preta (mas atenta: a agulha é usada, não te fures).

Tomba o êmbolo e preenche a câmara com o teu sangue, revela-o na câmara escura quando regressares ao hotel. Não te esqueças de o meter na cama antes de te deitares, limpa-lhe a comida da roupa (para a mãe não ver), passa-lhe um pano molhado na boca, descalça-o, tapa-o, e cresce, porque a vida come meninos ao pequeno almoço.

E sim, o tecto tem 38 manchas de sangue seco que desbota as três demãos de branco.




J

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