Amanhã

terça-feira, 16 de agosto de 2016 às 15:43

A ver, as sextas-feiras costumam ser aborrecidas. Um tipo acaba a semana de trabalho, cansado e farto das quezílias diárias com clientes idiotas cuja inteligência poderia ser equiparada à daqueles símios a quem é pedido para colocar peças geométricas de madeira em orifícios com o mesmo recorte ou forma (isto sem querer insultar os macacos, gorilas e orangotangos do mundo — eu se pudesse também estaria no topo de uma árvore no meio de uma floresta a comer bananas e atirar as minhas fezes aos outros o dia inteiro, todos os dias).

Não. A semana termina e vai-se para casa. Longe vão os dias de glória onde o bando de amigos juntava dedos de conversa às longas noites regadas a álcool e música, às piadas fáceis ou planos de conquistar o mundo. Hoje está tudo casado, uns fechados nos seus castelos, a viver o sonho da família que nunca tiveram, rodeados de planos e de futuros, e outros de berços e fraldas. Para ser franco tenho que admitir — a primeira vez que pensei mesmo a sério em ter um filho teria uns 21 anos — já trabalhava, tinha uma miúda linda, inteligente; e raios, chegar a velho e só depois ter filhos era algo que me fazia confusão — a nossa paciência não iria acompanhar a criança a 100% pois a idade já nos fazia tropeçar na hora da brincadeira (sei pois foi assim com os meus pais) e seríamos uns jarretas quando o miúdo finalmente nos desamparasse a loja. Tudo bons motivos na minha cabeça — basicamente dar ao miúdo/miúda tudo aquilo que nós não tínhamos tido e dizer-lhe: aqui está o mundo, é teu, conquista-o e dança com ele, deixa que te cresçam as asas (e vai doer — ó se vai) e voa por aí com o vento como destino e todas essas tretas românticas que me arruinaram a vida. Claro que a minha namorada na altura não achou piada, ainda estudava e fugiu com outro tipo com o mesmo nome que eu. Foi mãe há pouco tempo com esse mesmo gajo. A vida é muito hábil a pontapear-nos os testículos.

Não, não era esta a história que queria contar. Não. Esta história aconteceu numa sexta-feira e como estava a dizer, a semana esgota-nos, leva-nos todas as forças, respirar faz-nos doer a cabeça, e até a libido se esconde à sombra de um pensamento obscuro qualquer. No regresso a casa atravesso o rio e observo sempre o sol que pousa no Tejo com aquelas pinceladas douradas que só o Outono traz; as águas são calmas e o vento fresco embala-nos o pensamento, acalma as almas do barco de Caronte sob a vontade de Hades. Aproveito estas curtas viagens para desenhar vidas nas caras das pessoas que as partilham comigo. Costumo apanhar uma menina de uns 50 e poucos anos, senta-se quase sempre no mesmo sítio, tal como eu, de feições arreliadas, chatas, cabelo pintado de manchas aloiradas, unhas cuidadas e calças jeans apertadas. Adivinho que é divorciada, que procura um novo amor através dos seus generosos decotes e bochechas carregadas de blush rosa, exagerando a sua caricatura. Imagino-a a planear saídas em bares duvidosos com as amigas, a olhar os miúdos de vintes nas mesas, com aqueles belos olhos castanhos arregalados em novelas enleadas enquanto bebe cervejas e morde cigarros. Ao seu lado uma avó presumo com os seus netos. Presumo porque é outra senhora cinquentona e os catraios já levam talvez uma dezena de anos — a sua filha engravidou ainda adolescente imagino, tal como ela. Daqui a pouco quando o barco atracar levará os miúdos à padaria do bairro para comprar 50 carcaças e beber um cálice de macieira — e 5 pastilhas de morango para as crianças. Nos bancos perpendiculares ao meu um casal tradicional de miúdos vai namorando, ela com um ar meio aborrecido pelos beijos incessantes dele, alternando entre o pescoço e a cara, e ele de ar embevecido e apaixonado, ignorando por completo a pose de punho no queixo, lábio inferior descaído e olhar preso ao tecto que ela veste. Claramente que já não quer saber dele, imagina como lhe irá dizer. Ou talvez até não lhe convenha agora porque o outro tipo com quem anda a foder (era só uma coisa carnal mas acabou por se apaixonar) também tem namorada.

Eu estou só, cansado. Se tivesse que desenhar uma vida para mim, com outros olhos que não os meus, seria bastante fácil: velho acabado para a vida, derrama-se no chão com as suas olheiras, esconde-se nas sombras para que ninguém repare nele e sonha com os dias em que a sua verga era viçosa e o seu escalpe despido dava lugar a uma farta cabeleira. Não estaria assim tão longe da realidade.

No regresso a casa trepo a avenida em direcção ao supermercado do bairro para arranjar uma merda qualquer para o jantar. Não me apetece cozinhar — quero entrar em casa e desaparecer por entre páginas amarelas dos livros que comprei sábado passado na feira da ladra, em suspiros afagados pelas almofadas do sofá. Já conheço aquele labirinto de prateleiras empilhadas de artigos de qualidade duvidosa, sem ordem nem nexo. Vou aos congelados e retiro uma embalagem da prateleira. A minúscula área de vinhos é logo ao lado e é a minha próxima paragem. Demoro-me mais um pouco. Mais de metade das garrafas aqui são de vinhos medíocres. Se vivêssemos num país que cobrasse imposto de álcool provavelmente seria um desses que levaria, mas em Portugal o estado não te cobra nada — prefere-te bêbado — e eu faço-lhe a vontade. Vou sempre para um tinto alentejano, maduro. Gosto do peso que me deixa na boca e do ardor que provoca nos lábios, aquece-me a garganta enquanto escorrega por entre as costelas. Decido-me e sigo para a caixa.

O supermercado está já de portas fechadas, e só estão 4 pessoas no seu interior — eu, o tipo da caixa, um senhor que está a ser atendido e raios, esta mulher tão bonita que está à minha frente. Sinto-me nervoso, tento entreter os meus pensamentos mas há algo em mim que me impele a morder-lhe a boca, em agarrá-la pela anca e puxá-la para mim, beijá-la até que os meus negros pulmões impludam e as costelas se afastem, para que todo o meu peito cresça inchado e flutue sangrento por cima das nossas cabeças enquanto dançamos, de caras desfiguradas pela força do destino que quis que nos encontrássemos ali, naquele minúsculo e aborrecido momento, nus, de esqueleto branco ela, de ossos macilentos eu.

Reparou em mim, afastou-se do senhor que vai arrumando as coisas para dentro de sacos e arrepiou-se para o lado quando me viu atrás de si — figura obesa de barba grossa e mal aparada, sombra sinistra de garrafa de vinho em riste e congelado debaixo do sovaco, uma pasta de cabedal coçado descaída na outra. Sorriu nervosamente um “Desculpe desculpe” e voltou a fixar os olhos no tecto. Todo o meu corpo se balançava para a frente com esta energia que eu já não reconhecia em mim há tanto tempo. Raios, foi necessário todo o poder de concentração do meu cérebro para me imobilizar tal era a vontade, a tesão animal que me atiçava na sua direcção.

Não pude deixar de reparar mas a sua lista de compras era em muito semelhante à minha — uma refeição pré-feita (mas sem ser congelada, daquelas que ainda tem que ir ao lume), um vinho branco (do Douro pareceu-me) e uma tablete de chocolate negro. Talvez o seu destino naquela noite fosse igual ao meu? Eclipsar-se em casa? Sozinha? Certamente que mulher tão bonita, tão perfeita como ela, teria melhor destino que este nenhum. Não?

Os meus pensamentos deambulavam rapidamente pelos cantos da cabeça, fazendo ricochete nas minhas vontades. Tinha que arranjar maneira de falar com ela ao mesmo tempo que controlava estes impulsos que me levavam o corpo. O problema é que sou um tímido idiota. Em toda a minha vida só havia abordado conversa com uma total desconhecida uma única vez (à noite num bar — estava muito bêbado) e a conversa não correu muito bem pois ela acabou por se casar e ter filhos com um amigo meu.



Saímos do supermercado a falar de vinhos. Ela gostava de vinhos do norte, não percebia muito mas gostava de ler os rótulos e escolhia o que tivesse a melhor descrição ou às vezes por causa das cores e formas que a adega havia escolhido — “É um método praticamente infalível” dizia, “acerto quase sempre nas escolhas que faço”. “Eu cá gosto mais de vinhos pesados”, respondia rindo-me, “e que as terras a sul do Tejo são — para mim — as mais amáveis para os tintos, como se as colinas e montes do Alentejo fossem fartos seios daquelas senhoras do campo — sabes? — grandes e roliças, aquelas que nutrem pirralhos saudáveis” e sorria-me de volta acenando com a cabeça. Naquele momento sentia que podíamos falar noite adentro sem nunca nos passar pela cabeça o assassínio violento daquela companhia nada fastidiosa. Sentia o meu peito inchado, vestido de sorriso nervoso mas rasgado e orgulhoso e o pior é que sentia o mesmo nela. Sorria de volta e passava as mãos pelo cabelo; as nossas sombras desapareciam sob as luzes dos holofotes de rua que se erguiam acima das nossas cabeças. Nenhum de nós estranhou esta caminhada juntos, presumo eu que em direcção da sua casa pois eu vivia na direcção oposta. Apenas dois estranhos roubando pensamentos banais um ao outro, através de palavras tímidas e sorrisos cúmplices, com sacos de compras pendurados nos braços, balançando os passos em síncope lenta calçada fora.

Eu não conseguia evitar olhar-lhe nos olhos a nu, desarmado pela sua presença.

Chegámos a uma esquina, “eu fico aqui” murmurou, parando à minha frente. “então… vou indo” respondi hesitando sofregamente em cada sílaba. Agarrou-me por um braço, os seus olhos fitavam os meus directamente, atirando a pergunta que o seu movimento me havia feito, olhando-me de baixo para cima como que envergonhada mas ao mesmo tempo convicta de que era uma vergonha gulosa sim, mas justa. Coloquei a mão na sua nuca e puxei-a para mim, beijando-a com o estrondo de todo o universo a ruir sob aquele frágil momento. As suas mãos puxaram a minha gabardina exigindo que o meu corpo se encontrasse com o seu, sob a saliva quente que nos escorria nas línguas. Agarrei-a com todas as minhas forças, apertando-a de encontro a mim até que as nossas costelas se tocassem e faúlhas explodissem em constelações de carne, respirações ofegantes e aquele cheiro bom de dois corpos que se querem. Éramos meteoros e enxofre, o apocalipse e as tempestades que o precedem; o vento feroz e a espuma que brota das vagas picadas por marés enraivecidas. Éramos o destino ou algo pior. Asas cresceram-lhe nas costas, movendo a carne, rompendo artérias e jorrando nuvens de sangue ao nosso redor. Relâmpagos ofuscavam-lhe o negro dos olhos. Nisto pairávamos imóveis acima da cidade, e éramos o centro, o princípio e o fim do universo.



Claro que nada disso aconteceu. Não, ela arrumou as suas compras num daqueles sacos de plástico reutilizáveis e eu arrumei as minhas. Demorou-se um pouco mais porque ia pagar com cartão e eu já tinha o dinheiro na mão. Sorrimos um para o outro naquela vergonha normal entre estranhos. O meu corpo continuava a crescer na sua direcção mas o cérebro não soube como reagir. A autorização do cartão chegou, pegou no saco e saiu. Eu entreguei as moedas ao moço e fui-me. À saída ainda nos cruzámos e todo o meu corpo hesitou — é agora pensei. “Até amanhã” disse-me.

“Amanhã”.


——

J

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