Um dia, a ponte caíu.

domingo, 16 de março de 2008 às 18:38

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caíu pá, e agora?

Sentado na cama, contemplava as memórias da noite passada, sonhos ceifados em abraços cerrados, de olhos fechados, a caridade da sua sombra projectada pela única luz que conhece. Um de nós mente com todos os dentes.

Um passo em falso, os pés que se arrastam, à procura de um chão que o suporte. Passa a mão pela testa, limpar o suór frio deixado pela noite passada em horas solitárias. Ergue-se, levanta-se com os braços apoiados nos lençóis ox blood, alma carmin que abandona dormente. Passos lentos, desajeitados carregam os seus ossos até à casa de banho para a inspecção matinal. Grunhido fácil, esperado, que ecoa nos reflexos dos azulejos verde escuro do chão, trinta na horizontal, e cinquenta na vertical, os mesmos de ontem. A luz do tecto treme frágil e ele agarrava a cabeça, para se certificar que ainda a tinha. Nada como um vislumbre da nossa face pela manhã para sermos chamados de volta à realidade - a inspecção rápida dos dentes, de um cão sem pedigree - "bom dia para ti também". Amarelos pois, água na tromba e um arrepiar de revolta.

Passeio rápido até à cozinha, aquecer um café, ligar a tv, fingir que há um sentido na vida. Repetir estes passos até à exaustão, dia após semana, após eternidades gastas, os despojos da esperança, para quê? Acabar num qualquer banco de jardim a mirar as miúdas de 16 anos 18 anos, a reclamar que está frio, e que não chove, e que está calor, e o diabo a sete.

Café de filtro, cheio de borras que se agarram aos dentes, sujo quasi pestilento, o Café - o melhor momento do dia.

Ecoava na televisão um novo filme que estreava naquele dia. Imagens de um cenário de guerra - mais um filme pós 11 de Setembro, pós filmes sobre o 11 de Setembro certamente - o nacionalismo americano exacerbado ao nível da Deutschland Uber Alles de Hitler. Não lhe interessava. Sentou-se, cansado, numa conversa com o cigarro que habilmente já descansava sobre os seus dedos - o término desta cerimónia matinal.

Os olhos divagavam pelas paredes despidas, brancas - amarelas do fumo, à procura de um ponto, uma razão que o obrigasse a acordar. O Diário Remendado do LP descansava no sofá, velho e gasto, torto de anos de uso e das amantes que não lhe tinham sobrevivido, junto da garrafa de tinto que tinha consumido na noite anterior. E foi aí que tudo se alterou.

O silêncio.

Pela primeira vez em anos, desde que se mudara para aquela casa gigantesca, um Tê Zero feito castelo em Almada, cujos canos rangiam e pingavam, que reparou no silêncio. Não havia vizinhos a foder, nem elevadores a carregar corpos a caminho do trabalho, nem miúdos da escola ao lado a brincar. Até o ronronar metálico, distante, da ponte Abril de 25, se mantinha silencioso. Seria Sábado? Feriado? Teria o mundo acabado?

Fitou o tempo distante mais um instante, de olhos cravados no horizonte trancado por detrás daquela janela fechada.

Eram horas de saír.


*A continuar, mais tarde, com dois ouvidos, após edição revista e aumentada.*


J

3 Comentários:

Gostei. Gostei mesmo. Escreves bem. (Não estou a ser simpática.)

Oh... estás só a ser simpática...

:)

Obrigado Leonor, alguém com paciência para ler estas coisas :)

beijo, paz!


J

É raro ler posts assim, mas gosto do teu estilo de escrita.

(Não digas a ninguém que eu sou simpática, senão, arruinas-me a reputação de bruxa má que está sempre a dizer palavrões.)

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