demência

domingo, 22 de junho de 2008 às 23:12

etiquetado como e

sonhava um dia poder levantar com orgulho a cabeça, em direcção ao sol que nascia no horizonte, rodeado pela imaginação que nunca me tinha falhado, embarcado nas vagas naufragadas de homens destroçados, restos das suas sombras e guerras, no amanhecer de uma nova vida que me abraçava forte, quente, bafejado pelos raios de luz que abriam os olhos semicerrados pela escuridão.

sonhava um dia ser quem querias que eu fosse.

sonhava um dia criar coisas com as mãos, pegar no barro húmido e dar-lhe forma, moldá-lo nas loucas ideias que me escorrem pelas frestas das guelras, em homem tubarão ou lobo solitário, longe de casa, perdido nas memórias do futuro certo, já gasto de tão calculado, destruído nas vagas sílabas que arrancava a cada soco, pancada seca na verdade cuspida em sangue, lobisomem ancião.

sonhava um dia poder rapar o cabelo da cabeça com a ponta dos dedos cravados na carne.

sonhava um dia crescer, perder a inocência frágil que abençoa a brisa fresca da primavera, naquela quinta onde cresci, rodeado de pântanos e galeões de piratas, distraído das palavras que me ecoavam rápidas sem vontade, apenas um destino, não havia que justificar, apenas fazer. mergulhar na lama de sorriso na cara, crente na fé humana, aquele ardor que nos vem de dentro quando sabemos que algo está certo, não há como negá-lo, não há possíveis nem impossíveis, apenas há o tempo que serve para gastarmos gulosos.

sonhava um dia poder morrer com todas as dívidas pagas.

sonhava um dia subjugar a vontade, dobrá-la, chamá-la à atenção da virtude, à carne fétida que explode em bolhas de pus, envaidecida que está pelas vozes na minha cabeça, sabes. sei o que está do outro lado e não quero trepar o muro se posso continuar a ser rei do meu castelo. alegre e feliz. alegre, feliz. não me lembrava de como era, da raiva de não conseguir estalar os dedos, ser dependente das sombras que nem se lembram do meu nome, escolhido ao acaso para liderar a marcha solene do leve caixão que segue vazio com vinte-e-nove cavalos negros que o escoltam atrás.

sonhava um dia poder conversar com o meu esqueleto, contar-lhe piadas e assim.

sonhava um dia, sonhava um dia poder tocar-te, dizer-te baixinho ao ouvido "consegues ouvir a voz que me cega? consegues ouvi-la? diz-me, consegues?", e mostrar-te o mundo, arrancar os olhos das órbitas e dar-tos, mostrar-te o meu mundo, e crescem-me as unhas, esgota-se a pele das paredes da casa, e sobejam orgãos - rins, fígado, o pâncreas guardo para mim, coração - sobejam em pestilência uníssona junto à lareira, perto do copo de vinho quente, com o estranho gengibre que me mancha os dentes, ah... a doce cicuta.

sonhava um dia poder dormir embalado nos teus braços de celofane.

a vida que deixa de ser controlada, cronometrada ao segundo, que deixa de ser minha, vertigo brusco pelas entranhas da morte que me busca apenas mais uma vez.



J

carne pus sangue morte.

Publicar um comentário