Desabafo

domingo, 22 de julho de 2012 às 23:02

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Não sei escrever sobre a saudade.

É difícil pegar nos despojos e construir algo com eles — queimam nas mãos. O sorriso, o abraço, o beijo têm lugar nas fotos, nos álbuns de família. Onde guardo o resto? O coração transborda e afunila a garganta em soluços, pinta-me os olhos de vermelho sangue, veias salientes, as mãos suam e os joelhos cedem.

Eu não sei escrever sobre a saudade.

Como posso eu descrever o vazio, o vácuo, o abismo negro de onde resgato a tua face todos, todos, todos os longos dias? A folha é branca e preencho-a de tinta preta, com linhas curvas, letras por cima de letras, gatafunhos que nem eu decifro — parecem vivos, vestem a dor e o medo, amontoam-se em palavras que uso para cobrir a tua mortalha. És áspero, cheiras a pele queimada, tabaco vil, olhos presos a um passado que não vivi, morto de morte matada e bem regada.

Digo-te que sou teu filho, trocas-me, na selva sou teu inimigo.

A tua memória é visão, solução de guerra, a breve revolução entre os obuses que mordem o chão e te furam a carne com estrelas, um orgulho ferido, esquecido — foste pai do teu irmão.

Não sei escrever sobre a saudade.

Escrevo o que me ensinaste. Sou um velho chato, velho e chato, daqueles de que ninguém gosta porque tem sempre uma resposta para tudo — pausa, silêncio, pausa, um olhar constrangedor. Vês? És tu que me seguras os olhos.

Mostro desinteresse. Falta de ambição. Vou pensar com o coração, penso sempre com o coração, apesar do coração. Não tenho pai porque o meu pai nunca me teve filho. Sobrei-lhe da vida e aconteci. E agradeço-te tanto por isso.

E é porque isso ou assim que não sei escrever sobre a saudade.

Não tenho disso. Tenho dor, mágoa, revolta pelas revoluções, desinteresse e amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amo-te, amor, amor, amor, amor, amor — e choro porque é o teu amor, foste tu e a Maria que o plantaram cá. Sobeja-me o amor, escorre-me da boca pelos braços, deixa-me nu, pinta-me de negro. Desinteressa-me o resto. Gosto do amor ou preto ou branco, pintado a vermelho, colado nas cicatrizes com cuspo azul. Não conheço o amor cinzento e a culpa é tua.

Não tenho saudades. Levaste-as todas contigo. Estás em tudo o que faço de bom, mas/e/ou especialmente o mau.

Sou teu filho — sem pai; sou irmão? Não sei. Mas não voltes a ausentar-te agora que te encontrei.


Um abraço do teu órfão,


J

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