Texto XVII

sexta-feira, 6 de julho de 2012 às 14:24

Gostava que fosse ainda de noite
que os lápis que me roubaste ainda pintassem estrelas no tecto
pinturas de guerra nas mãos
cores na boca
ilusões de coração, redemoinhos na barriga
frágeis redemoinhos na barriga

gostava que fosse ainda de noite
e que esta noite não tivesse mais pesadelos.

gostava que fosse de noite e que o dia fosse também noite
para ficares mais um pouco, para me esquecer do teu cheiro
do meu cheiro
sentir só o vácuo, a caixa estanque do grandioso nada,
do sorriso nada,
     a carícia inata.

gostava que fosse ainda de noite
para te abrir o peito e espreitar dentro,
esconder os meus medos lá dentro,
e mostrar-te todos os ângulos de todas as palavras
     que tenho amealhado para ti.

gostava que fosse ainda de noite
                                             e para sempre à noite,
e no teu ventre nu adormecer a vertigem,
nesta gadanha de lâmina romba
que me rouba em vida.




J

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