Texto XXXII

quarta-feira, 3 de abril de 2013 às 14:50

No comboio para a Covilhã não há destino porque a viagem é longa. Entre apeadeiros e paragens, somos embalados pelo crepitar das carruagens, do metal das rodas que carrega e segue pelos carris. Ignoramos os relógios ou a marcha do tempo, e sonhamos a paisagem que nos é desenhada pelo Tejo à janela, imaginando as batalhas que ali formaram montes e vales, ou os reis ali enterrados à sombra dos castelos erguidos, tomados e saqueados.

No comboio para a Covilhã viajam velhas e gordas, e velhas gordas, e velhas magras. Muitas moças também, roliças e sadias, de bochechas rosadas, que regressam a casa depois de uma semana de estudos em Lisboa. Se permitires aos teus olhos a indiscrição podes ver os namorados que se reencontram ao fundo da carruagem, que fogem dos cinco dias passados a correr e que apostam agora as línguas languidamente em duas noites escondidos na serra.

No comboio para a Covilhã deixo que a ternura da infância seja assombro do meu corpo. Recosto-me e o torpor leva-me as saudades e a melancolia das viagens no regional com os avós; do cheiro a laranjas; do xaile da Armanda; das estórias; de jogar à bisca; de ver o Joaquim jogar solitário. Gosto da tranquilidade, dos olhos fechados, do reflexo do sol nas águas que seguem a jusante.

O comboio para a Covilhã perde-se nos montes, paira nos caminhos que trepam os vales sequestrados pelo rio, abranda quando a maré invade o troço, e as águas tomam o corpo. Manda estremecer a terra com o peso do ferro gasto, com o peso dos corpos gastos que anseiam o regresso a casa.



J

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